observador.ptJosé Miguel Pinto dos Santos - 14 fev 07:31

Especulação desenfreada

Especulação desenfreada

Se Bunzaemon fizesse isto no Portugal de hoje, teríamos o PCP a chamá-lo de açambarcador, o Bloco a exigir o uso de fundos públicos na compra das laranjas podres e o Governo a anunciar novas leis...

Os portugueses podem não gostar de arriscar, mas percebem uma injustiça quando veem uma. E não será injusto pagar um preço abaixo do custo? Especialmente quando se espera revender depois por cem vezes mais? Não será isso especulação desenfreada? E não é especular imoral?

Vejamos o seguinte episódio, tirado de um relato antigo sobre um comerciante famoso, Kinokuniya Bunzaemon 紀伊国屋文左衛門 (1669—1734):

“Depois de pagar o preço do Tenjin-maru ao seu Mestre, Bunzaemon dirigiu-se aos armazéns dos comerciantes que conhecia, com o fito de comprar a mercadoria de que necessitava. Os mercadores, oprimidos pela quantidade de fruto apodrecido, tinham a respiração ofegante como a dos moribundos e a cor lívida dos homens às portas da morte comercial. Como quem não quer a coisa, disse a um deles: ‘É verdade que as laranjas continuam a apodrecer todos os dias?’

“Sussurrou o outro: ‘Apodrecem continuamente… não sei que hei de fazer… mais de metade do que comprei já apodrentou. Se isto continuar assim mais cinco ou seis dias… fico sem nada…’

“Perguntou Bunzaemon: ‘Estaríeis realmente disposto a vendê-las a qualquer preço que vos ofereçam?’

“Respondeu o armazenista: ‘Certa e firme e alegremente! Quanto melhor não é vender mesmo com prejuízo do que ter que pagar para deitar fora a porcaria! Mais vale perder um dedo que uma mão…’

“‘Nesse caso comprar-vos-ei tanto quanto me puderes vender a quinze mon por caixa.’

“O outro, surpreendido pela dureza concreta da proposta, exclamou: ‘Tão barato?…’

“Bunzaemon respondeu: ‘Se essas tuas laranjas apodrecerem não receberás nada por elas. Não estou ansioso em comprar nada que esteja prestes a apodrecer, e se não me quiseres vender não te o vou forçar a fazer.’

“O negociante agarrou a manga do visitante que se preparava para sair e disse-lhe: ‘Um momento! Se me comprares todo o stock vendo-te a dezasseis mon por caixa.’

“Bunzaemon aceitou: ‘Sim, compro-te tudo o que tens, e se arranjares mais também te o compro ao mesmo preço.’

“Depois de sair dirigiu-se a outro grossista e voltou outra vez a comprar tudo o que estava em armazém por um preço semelhante. A seguir fez a ronda aos outros comerciantes de Kumano e também a eles comprou tudo o que estava à venda. Nesse mesmo dia toda a carga foi transportada para o Tenjin-maru que apesar ter capacidade para dez mil koku ficou cheio até ao limite.”

Embora motivado pelo lucro incerto que esperava ganhar, a compra das laranjas por Bunzaemon cumpriu uma função social importante: livrou os comerciantes da mercadoria que não conseguiam vender em Kumano, e que não tinham capacidade, física ou mental, para ir vender a Edo. E se o preço foi baixo, mesmo que inferior ao custo, foi mais alto que qualquer alternativa. Não fosse Bunzaemon comprar o que estava quase a apodrecer e eles teriam perdido tudo. Todos terem aceite voluntariamente a transação que Bunzaemon lhes propôs demonstra que a avaliavam como superior à situação em que estavam.

No entanto, se Bunzaemon fizesse isto no Portugal de hoje, teríamos o PCP a chamá-lo de açambarcador, o Bloco a exigir o uso de fundos públicos na compra das laranjas podres, as associações empresariais a berrar por controlos de preços e o Governo a anunciar medidas legislativas para impor “moralidade” no setor. E com certeza que Bunzaemon iria preso. Porquê? Porque “quem, … com prejuízo do regular abastecimento do mercado, adquirir bens essenciais ou de primeira necessidade em quantidade manifestamente desproporcionada às suas necessidades de abastecimento ou da renovação normal das suas reservas será punido com prisão até 6 meses ou multa de 50 a 100 dias.” (DL. n.º 28/84, de 20/1, Art. 29.º)

Portugal tem todas as condições mentais e institucionais necessárias para continuar um país pobre. Pobres portugueses…

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