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Opinião. Indústria automóvel: somos excecionais, mas podemos ser ainda melhores

Opinião. Indústria automóvel: somos excecionais, mas podemos ser ainda melhores

Este cluster necessita do envolvimento do Governo para conseguir responder aos desafios.

O cluster da indústria automóvel conta, atualmente, com 975 empresas, que representam 5,6% do PIB nacional e que, nos últimos anos, foram responsáveis por 27% dos empregos gerados. São 975 empresas que investem de forma persistente, mesmo quando outros não o fazem, e que representam já 20% das exportações de bens transacionáveis.

São empresas que espelham o perfil da indústria nacional, com uma enorme intensidade tecnológica, níveis de produtividade elevado e que os líderes têm procurado construir segundo padrões de grande exigência e rigor, pois só dessa forma conseguem competir com os melhores. São organizações que têm de responder, diariamente, a grandes desafios, que são escrutinadas e avaliadas no seu desempenho por clientes e fornecedores, mas são, também, as que têm os melhores índices em vários níveis e rankings. Resumindo, são empresas com selo de qualidade português — lideradas por empresários que conhecem o significado de pertencer à indústria automóvel e o quão difícil é mostrar que podem manter-se como fornecedores da cadeia de valor do automóvel — e, acima de tudo, são empresas que fazem a diferença, pois são elas que têm promovido um crescimento da riqueza acima de 8% nos últimos anos.

Esta radiografia ganha um valor ainda mais representativo se pensarmos que neste cluster — que tem contribuído para o crescimento do PIB e penetrado em mercados com maturidade e sofisticação — têm-no feito concorrendo em desvantagem competitiva com países da UE, nomeadamente nas áreas da contratação laboral, da política fiscal ou do acesso ao financiamento. Apesar das dificuldades, têm ganho quota de mercado, o que demostra as competências que souberam desenvolver.

Os números e a realidade mostram-nos que somos bons, mas será que podemos ser melhores? Quereremos ser melhores? Portugal precisa que sejamos melhores. Temos a convicção de que podemos fazer mais e melhor, desde que se criem as condições certas, as mesmas que outros países dão às suas empresas, para podermos aumentar o nosso nível de competitividade. Só depois de ultrapassarmos estas barreiras conseguiremos responder a um conjunto de novos desafios que condicionarão esta indústria de forma irreversível e enfrentar as consequências que não são, ainda, totalmente conhecidas. Falamos, por exemplo, das alterações impostas pelas regras ambientais, do processo de reformulação do produto automóvel, dos efeitos impostos por alteração do comportamento dos consumidores, da mobilidade em ambiente urbano, da conectividade ou da tecnologia associada à condução autónoma. Todas estas transformações tornam imprescindível colocar em marcha uma abordagem estratégia que, das ameaças, crie oportunidades para o setor.

A experiência revela-nos que esta é a hora de agir. Este processo de transformação não poderá, contudo, ser assegurado apenas pelas empresas. O Governo terá que assumir um envolvimento efetivo neste dossier, através, por exemplo, de uma politica fiscal estável e assertiva para o desenvolvimento económico, que estimule o investimento e a capitalização das empresas e que premeie quem contribua para a substituição de importações. O cluster necessita deste envolvimento para conseguir responder às alterações no “novo produto automóvel”. Cabe ao Governo, ainda, adequar os programas de formação no ensino universitário e politécnico e reforçar o ensino técnico-profissional para conseguirmos responder às necessidades da próxima década.

Colocando em prática alguns destes pontos, seremos capazes de crescer, nos próximos anos, acima dos atuais 8%, poderemos aumentar os índices de produtividade, aumentar o VAB e reforçar a contribuição para as exportações. E se conseguirmos aumentar o nível competitivo do país e crescermos no ranking da produtividade europeia poderemos atrair novos investimentos.

Criando as condições ideais para a consolidação de um ambiente competitivo, conseguiremos, daqui a cinco anos, reescrever este artigo para dar a conhecer o novo retrato deste cluster.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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