www.jn.ptVítor Santos - 14 fev 00:02

Quando o amor queima

Quando o amor queima

Acontece com frequência não entender para que servem os "dia de". São tantos que acabam condenados à banalização, mas o amor nunca há de ser um tema pouco importante, ninguém deve dar como perdido o tempo que conseguir dedicar-lhe. Hoje assinala-se uma daquelas datas marcadas com corações no calendário, o Dia de S. Valentim, que movimenta milhões de euros no palco comercial - pode valer sempre a pena ir à florista ou ao restaurante; se gostar das tradições, não tenha medo de ser piroso -, só que este encanto, o do namoro, também encerra um lado perverso, como poderá ler nas páginas da edição de hoje do Jornal de Notícias. Mesmo num tempo em que começamos a perder o medo de denunciar, ainda sobejam exemplos de violência escondida.

A conclusão rápida é de que nem sempre "o amor é fogo que arde sem se ver", como cantava Camões. Às vezes, pelas piores razões, chega a queimar, deixando mesmo marcas profundas, pelo que é necessário estarmos atentos a sintomas importantes no âmbito das relações. Até nas mais ligeiras, que frequentemente são o embrião para uma história de vida. Se atentarmos no facto de mais de metade dos jovens portugueses já ter sido vítima de violência durante o namoro, a preocupação dispara, até porque atravessamos uma era de asfixia digital, em que novos perigos espreitam, e em que as agressões estão longe de se resumir ao plano físico.

Para os avós de hoje, poderá ser tentador atirar com qualquer coisa como "no nosso tempo é que era", que estes problemas não existiam. No entanto, creio que a sociedade atual, apesar de tudo, se movimenta numa era de perda do temor de denunciar - com alguns excessos e aproveitamento pelo meio, é bem verdade -, sendo a coragem de identificar sem rodeios o agressor, acredito, um bem agora mais comum e, sobretudo, com tendência para se enraizar definitivamente entre os nossos jovens.

Perante isto, e não obstante os sinais de violência não servirem propriamente para enfeitar um ramo de flores no Dia de S. Valentim, restam-me poucas dúvidas de que continua a haver bons motivos para acreditar no amor a dois, através do namoro, do casamento ou de outro tipo de relação menos convencional. Está na condição humana: é mais fácil ser feliz acompanhado.

* EDITOR-EXECUTIVO-ADJUNTO

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