www.dn.ptJoão Almeida Moreira - 14 fev 00:00

Cartas Do Brasil - O nepotismo é uma arte

Cartas Do Brasil - O nepotismo é uma arte

O nepotismo é uma das maiores doenças do Brasil. Exemplos já aqui citados da política: o antigo governador Jackson Lago empregava 23 parentes no seu executivo; há clãs espalhados por quase todos os estados do Brasil, dos Sarney do Maranhão aos Campos de Pernambuco, passando pelos Neves de Minas Gerais, pelos Virgílio do Amazonas, pelos Calheiros de Alagoas, e por tantas outras castas que governam, e se governam, há séculos; de entre um grupo de candidatos falados para a função, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, escolheu para secretário-geral da cidade o inexperiente Marcelinho Crivella; quase metade dos deputados têm familiares em cargos públicos.

Mais um caso, agora dos últimos dias: no Rio de Janeiro, o MDB local, maior partido brasileiro, viu os líderes Sergio Cabral, ex- governador, ser condenado a 87 anos de prisão na Lava-Jato, e Jorge Picciani, ex-presidente da Assembleia Municipal, ser preso. Em crise, tem agora de decidir se apresenta candidato próprio ao governo fluminense ou se apoia o "meio-aliado" Cesar Maia, do DEM, que é pai de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, por sua vez casado com a enteada de Moreira Franco, um dos braços direitos de Temer, do MDB, no Planalto. Ufa. E com Cabral e Picciani fora de combate, quem vai tomar essa decisão? Marco Antônio Cabral e Leonardo Picciani, os primogénitos de cada um, que herdaram o partido.

Como aquelas senhoras que, de acompanharem a novela da Globo das 07.00, das 08.00 e das 09.00, já não sabem quem é filho de quem e quem é irmão de quem, seguir o folhetim da vida real das elites brasileiras sem se perder também não é fácil.

E Lula da Silva, como fica no meio de tudo isso? Afinal, pode acusar-se o velho sindicalista, metalúrgico, catador de caranguejo no mangue e vendedor de laranja na praia de tudo, mas não de ter subido na política por herança.

No entanto, como ninguém entende melhor o Brasil do que ele, para o bem e para o mal, numa jogada de fazer inveja a Anatoly Karpov o filho de um casal de analfabetos miseráveis de Caetés pode salvar-se usando o nepotismo, neste caso no poder judicial, a seu favor: contratou o advogado Sepúlveda Pertence para a sua equipa de defesa no Supremo Tribunal Federal (STF).

O STF, que em 2016 decidiu que condenados em segunda instância, como Lula, deviam ir para a cadeia, anda há meses a querer rediscutir o caso porque parte dos 11 juízes mudou de opinião. A jogada de Lula é de mestre por dois motivos: primeiro, constrange os membros do STF porque Sepúlveda, ex-elogiadíssimo integrante da corte, é citado com frequência por eles na hora de sustentar as suas sentenças; e depois, porque o jurista é primo de uma das juízas, Carmen Lúcia, e sogro da filha da chefe de gabinete de outro magistrado, Luiz Fux.

Lúcia e Fux devem por isso, nos termos do regulamento interno da casa, declarar-se impedidos de votar a questão da prisão da condenação após segunda instância - e eles eram votos certos pela prisão, logo contra Lula, que assim pode passar a ter a maioria do STF do seu lado neste caso. E evita a prisão. E, quem sabe, a inelegibilidade.

A doença, como se vê, ataca o Brasil na política e no judiciário - e nas artes? Também. Segundo artigo da revista Época de outubro do ano passado, o pintor Aurélio de Figueiredo incluiu as três filhas em Último Baile da Ilha Fiscal, obra que retrata a festa que assinala a queda do império, em 1889, sem elas terem sido convidadas. No quadro que assinala a promulgação da Constituição de dois anos depois, Figueiredo pintou-se a si mesmo e ao irmão no meio de uma audiência de que não fizeram parte. Esse irmão, Pedro Américo, que não consta que tenho feito sequer a tropa, introduziu-se de espingarda na mão na Batalha do Avaí, obra sua que ilustra o sangrento confronto com o Paraguai. E Eliseu Visconti, desafiado a pintar Alegoria à Cidade do Rio de Janeiro pintou a própria mulher como representação do município.

O nepotismo também é uma arte.

1
1