www.sabado.ptFlash - 14 fev 07:00

A propósito de coragem e resistência

A propósito de coragem e resistência

“Fui vítima do Salazar, mas as ditaduras comunistas eram muito piores” – Edmundo Pedro, 1918-2018

A morte recente de Edmundo Pedro fez-me voltar aos tempos do gabinete de análise de imprensa que integrei e que serviu, entre 1977 e 1979, o primeiro e o segundo governos constitucionais de Mário Soares.

Numa sala do edifício onde trabalhávamos, deu-se, à tarde, a preparação de uma entrevista a Álvaro Cunhal, a ter lugar nessa noite, nos estúdios da RTP. Presentes, Edmundo Pedro, então presidente da estação, Seruca Salgado, um dos fundadores do PS e que seria o entrevistador, e José Lechner, líder do nosso grupo de analistas e grande especialista em comunicação. Não participei na reunião, passava apenas por perto quando, combinada uma pergunta quente para se colocar a Cunhal, Edmundo disse para Seruca: "Aí é que você lhe arreia!"

A simplicidade do resistente antifascista e anticomunista, e os inimigos que criou, davam-no recorrentemente por intérprete de casos anedóticos, como o do dia em que se apresentou na moradia da Rua de S. Domingos à Lapa e perguntou em que andar ficava a RTP – e que é provavelmente falso. Verdadeira, lendária mesmo, era a coragem de Edmundo Pedro, preso e enviado para o Tarrafal ainda adolescente, e perseguido pela posse de armas na sequência do 25 de novembro, quando muitos dos cobardes que haviam fugido o acusaram e lhe chamaram Edmundo Preso. Curvo-me perante a sua memória.

OBSERVADOR
A água que não cai do céu

O presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal avisou há dias que em 2018 a seca poderá constituir uma "calamidade ainda maior do que no ano passado". Foi o derradeiro grito de alerta dos muitos que se têm feito ouvir e que são, afinal, o sublinhar de uma evidência. Entrámos no inverno numa situação grave em matéria de recursos hídricos, em janeiro pouco choveu e fevereiro parece ir pelo mesmo caminho. Se março e abril mantiverem a tendência, a água secará nas torneiras no próximo estio.

Perante o pesadelo, o Governo está entregue ao oxalá que chova do ministro do Ambiente e do seu achódromo: ele acha que não são precisas mais pequenas barragens e que se deve manter o demagógico preço do metro cúbico que tanto incentiva o desperdício. Para ele, a solução é poupar água – ainda que ela não exista.

Depois dos racionamentos em Roma e noutras cidades europeias no último verão, tudo aponta para que o problema se agrave este ano e nos seguintes, pelo que é absurdo não ter em conta aquilo que os sobreviventes de ilhas como as Canárias, as Baleares ou Porto Santo há muito descobriram: o recurso a centrais de dessalinização. O drama é que temos tanto mar e costa como devotos da Senhora de Alqueva e Castelo de Bode, convencidos que a água é um bem divino e que só pode cair do céu.

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