sol.sapo.ptSofia Vala Rocha - 13 fev 13:20

Me too – o assédio

Me too – o assédio

Desde os 10 anos, uma rapariga começa a ser alvo de palavras, gestos e ações indevidos.

Como este é um assunto que merece ser trazido a público e discutido com seriedade para que a vida das mulheres melhore, resolvi contribuir positivamente, abordando quatro aspetos importantes.

O primeiro é o tópico de ‘como saber’. Recentemente fui convidada para falar com um grupo de jovens e, já no fim do serão, este assunto apareceu naturalmente. Um jovem perguntou-me: «Como é que uma jovem de 25 anos que entra no mercado de trabalho sabe que está a ser alvo de assédio? Como pode distinguir se não é apenas um interesse normal de um colega de trabalho?». A minha resposta foi pronta: «Aos 25 anos, quando entra no mercado de trabalho, uma mulher já tem 15 anos de experiência de assédio. Portanto, sabe». 

Este é talvez o ponto mais grave, porque desde muito cedo, por volta dos 10 anos, uma rapariga começa a ser alvo de palavras, gestos e ações indevidos, abusadores e invasivos. A puberdade e a adolescência são provavelmente uma das fases mais assustadoras da vida de uma mulher. Em grande medida porque não sabemos o que aquilo é e não sabemos lidar com o fenómeno. Eu diria que é quando o risco para a nossa integridade física e psíquica é maior. 

Em segundo lugar, o homem abusador é um abusador. Não tem dias, não é de vez em quando. É-o todos os dias, com todas as mulheres. É-o de forma reiterada, doentia, sistemática. Pode estar na nossa família, escola, igreja, faculdade, trabalho, partido ou organização. Usa palavras, gestos ou ações indevidos e abusivos. Aquilo que tenta com uma, tenta com todas. Não tem um interesse especifico numa mulher, qualquer uma é um alvo da sua doença. É um doente e não pára. 

Em terceiro lugar lugar, intressa-me falar sobre o mundo do trabalho. Conhecíamos as relações de trabalho, com contrato de trabalho, tal como definidas no séc. XIX. Hoje as relações de trabalho são bastante mais pulverizadas e difusas do que isso. 

Ao lado de relações tuteladas por um contrato de trabalho, há todo um mundo de possibilidades, projetos, colaborações, parcerias. Na maior parte dos casos, são os homens que têm a possibilidade de admitir, contratar, facilitar, fazer convites. E aqui a palavra certa é ‘poder’. O poder de fazer acontecer. 

Geralmente há um convite para almoçar, no qual são ditas algumas palavras de natureza sexual ou frases explícitas. Se a mulher não responde, ou finge que não percebeu, o assunto morre ali, mas morre também a possibilidade de aparecer, colaborar, etc. Isto transformou-se no novo pão-nosso-de-cada- dia. 

Em último lugar, dizer uma palavra de justiça para todos os homens decentes que nos contratam para trabalhar, convidam para escrever em jornais ou ir à TV, sempre nos respeitando, não tendo uma palavra, gesto ou ação inapropriados. E justiça, também, para os que sabem ouvir um ‘não’. 

sofiarocha@sol.pt

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