www.dn.ptAdriano Moreira - 13 fev 23:48

Opinião - Um mundo em suspenso

Opinião - Um mundo em suspenso

Depois da queda do Muro de Berlim, a primeira grande pergunta dos investigadores, sobretudo os que se fascinam com escrever a história do futuro, foi encontrar resposta para a identificação das potências de ontem e de amanhã, o que evidenciava a partilhada suspeita de que, sendo porventura impossível organizar outros, o modelo passado se reconstituiria. A convicção dos ocidentais, sobretudo os que tinham meio século de vida na sustentação da segurança entregue à NATO, inclinavam-se no sentido de que o poder e a liderança dos EUA sobreviriam ao mundo em mutação, não apenas pelo poderio militar mas pelo avanço nos recursos e modelos da vida civil, que seriam reproduzidos pelos sempre aperfeiçoados meios de comunicação. Admitiam, infelizmente, que meios aperfeiçoados seriam postos ao dispor dos complexos militares-industriais, crescendo sempre o mercado da estratégia do saber. E, todavia, já eram também visíveis os sinais de que a arena da luta pela hegemonia iria receber em crescendo o desafio do poder económico da geografia alterada, que as dinâmicas islamitas viriam a incluir o terrorismo animado por valores religiosos, que a criminalidade económica acompanharia a expansão do mundialismo daquela criatividade, e que conflitos religiosos, como na África libertada, se multiplicariam, levando analistas a caracterizar a situação como de "guerra em toda a parte".

Em vez daquilo que os idealistas chamaram "mundo único", foi o desânimo que atingiu crescentemente a ideologia e os esforços dos ocidentais esperançosos, que produziu, com a chamada "política dos turbilhões" a crescer, o êxito do tríptico de A. H. Hirschman, com o seu Exit, Voice, and Loyalty: Responses to Decline in Firms, Organizations, and States (1970), sendo difícil prever a evolução em resposta às três perspetivas examinadas, embora as diplomacias contestatárias da velha ordem renovassem os métodos, designadamente não aceitando a dos EUA e dos que tinham, quanto a isso, escolhido, entre as alternativas Hirschman, a loyalty conservadora, e Obama tenha por seu lado preferido, no tempo, sempre breve, do seu mandato, o diálogo construtivo à superioridade exibicionista do poder.

Como se está vendo, pela ação do sucessor, parece que voltamos, sem sabedoria ou prudência, a abrir mais o caminho das estratégias de ameaça à paz, das respostas provocatórias e, em consequência, a desordem internacional. Os ideais democráticos, e das várias formas de Estado social, encontraram dificuldades doutrinais, políticas e económicas, e não impediram o crescimento de um mundo de desigualdades, onde vigora escassamente o princípio de que todos os homens nascem com igual direito à felicidade, na escrita constitucional de Jefferson. O que enfrentamos é um mundo de ruturas, com um mundo árabe caótico, com o turbilhão das migrações forçadas, com os populismos pondo em dúvida se o projeto europeu tem futuro, com os EUA preocupados com a Rússia e a China, só como exemplo, a quererem retomar a histórica posição de grandes potências, a demonstrar que as emergências não são apenas económicas, e que, como a Coreia do Norte atesta, também são de poderio militar-atómico.

Ainda com os EUA dando o exemplo de descurar a ameaça climática que vem somar-se à capacidade que está ao alcance de desatinados estadistas de destruir o planeta Terra, com as instituições internacionais, como a ONU e a UNESCO, em perda de autoridade, e com os mais esperançosos em procura de quem afinal governa o mundo, mesmo sem estrutura legal. E neste ponto cresce a desorganizante Primavera Árabe, os nacionalismos destrutores da unidade do Estado, com o principal exemplo na Catalunha, a possível desagregação do Reino Unido, o que tudo impede ignorar, ou tentar obscurecer com as técnicas do Estado espetáculo, que a mais urgente das respostas é reformar a estrutura internacional tornando efetivo o espírito, agora como que aprisionado, que orientou a ONU, tornar claro que o internacionalismo é um facto que exige governança, que a ecologia é uma ameaça que tem primazia entra as muitas que toldam o horizonte, que os recursos que alimentam os complexos militares-industriais, de que se lamentou Eisenhower, têm de ser regulados para garantir o serviço da paz e segurança, e não os triunfos de gestão. A pergunta dominante no sentido de saber "quem governa o mundo", de facto, corresponde à evidência de que existe um "desgoverno do mundo", mal orientado e mal sabido, ou totalmente ignorado, e que o maior desafio deste ano de 2018 é organizar a "governança", com esperança de que a Europa tenha êxito na reformulação da estrutura que vai sendo anunciada, neste ano de múltiplas eleições que não permitem confiar em previs��es estatísticas, mas antes no reaparecimento das vozes encantatórias, que tivemos, e até agora se esgotaram.

1
1