www.jn.ptJosé Manuel Diogo* - 14 jan 00:01

A hipocrisia dos médicos

A hipocrisia dos médicos

O debate sobre a despenalização da canábis é uma história antiga. Desde que, há mais de 8 mil anos começou a ser consumida na China, a planta da felicidade foi sendo permitida e criminalizada ao longo do tempo, mas, nos últimos anos, muitos países decidiram legalizar a sua utilização, quer para fins terapêuticos onde tem comprovada eficiência quer, simplesmente, para fins recreativos.

O debate sobre a despenalização da canábis é uma história antiga. Desde que, há mais de 8 mil anos come��ou a ser consumida na China, a planta da felicidade foi sendo permitida e criminalizada ao longo do tempo, mas, nos últimos anos, muitos países decidiram legalizar a sua utilização, quer para fins terapêuticos onde tem comprovada eficiência quer, simplesmente, para fins recreativos.

Na Europa, países como a Áustria, Itália, República Checa, Polónia, Macedónia, Croácia e, recentemente, a Alemanha legalizaram o seu uso para fins terapêuticos, mas alguns países foram mais longe e legalizaram o cultivo e a venda controlada de canábis para fins recreativos. Ou seja, por simples prazer.

O caso do Uruguai foi o mais badalado quando, em 2013, sob a presidência de José Mujica, o estado sul americano se tornou o primeiro país a legalizar o consumo, produção e venda de "maconha" - o nome da planta na América do Sul. Lá é permitido cultivar até seis plantas para autoconsumo e comprar até 40 gramas por mês em farmácias. Nos Estados Unidos, existem já alguns estados onde fumar um charro por puro prazer também é completamente legal.

Sempre que este assunto aparece na agenda pública portuguesa, logo a sociedade se agita e vozes se levantam a favor e contra a legalização do consumo da planta. Desta vez a posição mais surpreendente foi a da Ordem dos Médicos. A corporação apesar de reconhecer que "existe forte evidência da eficácia da canábis nalguns usos terapêuticos, nomeadamente no tratamento da dor crónica associada ao tratamento do cancro, onde funciona como anti-vómito, no auxílio do tratamento da esclerose múltipla e no controlo da ansiedade", decidiu através da comunicação social "avisar" o parlamento, que a sua prescrição deve ser "exclusivamente médica e enquanto medicamento. Não na forma fumada". Ou seja: comprimido sim, charro não.

Em síntese, os médicos portugueses, como sempre puritanos e conservadores, proibindo o prazer, decidem ter uma opinião moral onde não há sequer uma questão ética. Num país onde se pode beber uma garrafa inteira de uísque com crianças a ver, proibir a um doente terminal de cancro o prazer de fumar um charro, é mais ou menos a mesma coisa que chamar a atenção a um tetraplégico por mandar piropos à enfermeira. É tão hipócrita, quanto inútil.

*ESPECIALISTA EM MEDIA INTELLIGENCE

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