expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 14 jan 16:21

#EUA. Oprah presidente? Não, obrigado

#EUA. Oprah presidente? Não, obrigado

Internacional

A cada novo dia, a cada renovada idiotice escrita no Twitter ou pronunciada diante de um microfone, Donald Trump lembra-nos quão indigno é para ocupar a presidência dos Estados Unidos. Desta vez, os visados foram os cidadãos de El Salvador, Haiti e algumas nações africanas. "Por que razão temos todas estas pessoas de pa��ses de merda a virem para aqui?", terá afirmado durante uma reunião com legisladores.

Que uma anedota de mau gosto tenha sucedido a Obama e chegado à Casa Branca é o maior sintoma de que a democracia tradicional está doente: muitos cidadão viraram as costas à política, outros (demasiados) deixaram-se ir no canto de populistas como Trump. Dificilmente quem vier a seguir fará pior, mas a fasquia baixou tanto, para um nível quase rasteiro, que qualquer um parece preparado para ser Presidente dos EUA. Até Oprah.

Não me entendam mal: nada me move contra a rainha dos talk shows, que, se fosse eleita, representaria até um importante avanço civilizacional – ver uma mulher no cargo, ainda mais negra, era algo até há bem pouco tempo impensável. As minhas reservas também não têm que ver com as críticas à hipocrisia e ao oportunismo da apresentadora, que na mais recente cerimónia dos "Globos de Ouro" fez um discurso eletrizante contra o assédio sexual na indústria do entretenimento, mas que alguns (como o cantor Seal) acusam de ter ignorado durante anos os rumores sobre Harvey Weinstein, o produtor de Hollywood agora caído em desgraça. O problema de Oprah é que é preciso mais do que um discurso a surfar a onda do momento para a qualificar para a Presidência.

A última coisa que os EUA precisam é de mais um amador na Casa Branca. Se Trump era inexperiente para o cargo, o que dizer de Oprah? Alguns, como o realizador Steven Spielberg – que já lhe declarou o seu apoio caso se candidate –, dirão que preferem alguém "que aprenda no trabalho" do que um político de carreira. Mas se há algo que a presidência de Trump nos tem ensinado é que ser uma estrela mediática pode dar um empurrão para chegar à Sala Oval mas não prepara ninguém para enfrentar os múltiplos desafios que os EUA apresentam, dentro e fora das suas fronteiras: do aquecimento global à desigualdade de rendimentos, da Coreia do Norte ao Irão. Oprah poderia ser moldada para a função, mas podem os EUA dar-se a esse luxo? Depois de Trump parece difícil.

A história de Oprah é a de alguém que superou as suas origens humildes, a pobreza, o racismo, uma gravidez na adolescência, a morte de um filho aos 14 anos, e a violência física e sexual até se tornar uma das mulheres mais poderosas – e ricas – do mundo. Em muitos sentidos, ela é a antítese de Trump: justa, humilde, compassiva, inteligente, empática. Isso pode jogar a seu favor caso avance e seria um erro subestimar uma eventual candidatura dela, como aconteceu com Trump. É provável que fizesse bem melhor em muitas áreas e até que surpreendesse os seus detratores. Mas a corrida à Casa Branca não é – não deve ser – um concurso de popularidade. Se a América acredita nisso, não há Dr. Phil que lhes valha.

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