blitz.sapo.ptblitz.sapo.pt - 14 jan 09:00

“Os Killers continuam a ser os mesmos quatro músicos estranhos de sempre”. Brandon Flowers em entrevista exclusiva BLITZ

“Os Killers continuam a ser os mesmos quatro músicos estranhos de sempre”. Brandon Flowers em entrevista exclusiva BLITZ

14 anos depois de inscrever o nome, em néon, na história do rock do século XXI, a banda norte-americana atravessa uma das fases mais fraturantes de sempre. Falámos com o vocalista Brandon Flowers em Leeds, Inglaterra, sobre o novo álbum, o futuro dos Killers e o regresso a Portugal para um concerto no Rock in Rio-Lisboa

Em 2003, «Mr. Brightside» transformou os Killers numa das novas esperanças do rock made in U.S.A.. Num período em que o revivalismo rock contagiava a indústria, com bandas como os Strokes, White Stripes ou Yeah Yeah Yeahs a dominar a cena, a banda liderada pelo carismático Brandon Flowers trazia outras cores ao movimento das guitarras. Uma questão confirmada e reconfirmada, depois de o primeiro single se tornar um sucesso, com temas como «Somebody Told Me», um êxito virado para pistas de dança mais desempoeiradas, «Smile Like You Mean It» ou «All These Things That I’ve Done». Hot Fuss transformar-se-ia num dos maiores sucessos rock de 2004, valendo-lhes inclusivamente o prémio revelação nos MTV Video Music Awards, e a banda de Las Vegas demorou apenas dois anos para regressar com Sam’s Town, aproveitando o momentum. O segundo registo de estúdio mostrava a faceta mais direta ao osso dos Killlers, com canções menos dadas a sintetizadores. A pequena revolução sonora resultou: «When You Were Young» é uma das canções mais bem-sucedidas da banda e «Read My Mind» uma daquelas que rapidamente se infiltra na memória coletiva.

Passados todos estes anos, as canções que referimos acima continuam a fazer parte dos alinhamentos dos concertos dos Killers, como a BLITZ pôde confirmar em Leeds, Inglaterra, mas a banda já não é bem aquela que entusiasmou tantos fãs em meados da década passada. E porquê? Primeiro, porque foram várias as revoluções sonoras ao longo dos anos: em Day & Age, de 2008, andaram às voltas com as eletrónicas de forma mais direta («Human» e «Spaceman», resultantes do trabalho com Stuart Price, alhearam parte da sua base de fãs), em Battle Born, de 2012, pareciam andar já sem rumo definido. Depois, porque, pelo meio, Flowers gravou o seu álbum de estreia a solo, Flamingo, iniciando uma carreira paralela a que regressaria em 2015 com The Desired Effect. As aventuras estéticas são assumidas de forma desempoeirada pelo vocalista, com quem falámos momentos antes de o grupo subir ao palco da First Direct Arena, em Leeds. «Continuamos a tentar encontrar a nossa verdadeira sonoridade», começa por dizer, soltando um riso que soa a misto de nervoso miudinho e entusiasmo, «espero encontrá-la! Às vezes sinto-a, tocamos nela, mas não é algo pelo que consigas lutar sempre nem algo que consigas agarrar e colocar numa garrafa. É difícil. Talvez esteja algures por aí e um dia consigamos encontrá-la num álbum inteiro». Em Wonderful Wonderful, longa-duração que trouxe a banda de volta no final do mês de setembro, o quarteto aventura-se, novamente, por território inexplorado, trabalhando pela primeira vez com Jacknife Lee (produtor que tem no currículo discos dos U2, R.E.M. ou Bloc Party), tentando assim afastar-se do mal-amado registo de 2012 («não era bom o suficiente e nós sabemos disso», confessou o cantor há dois anos, em entrevista ao semanário britânico NME). Sobre o trabalho com o produtor irlandês, Flowers destaca o seu «vigor» e «energia jovem e fresca», «ele nutre um entusiasmo pela música que nós reconhecemos e já tínhamos sentido antes. É uma daquelas coisas que pode começar a desaparecer à medida que o tempo vai passando... Ouvir tanta música e gravar disco atrás de disco acaba por se tornar uma coisa instintiva. Ele fez-nos sentir que estávamos a gravar aquele primeiro álbum novamente. Isso é algo muito excitante para se sentir quando estamos em estúdio». O facto de terem escolhido alguém que já produziu para a maior exportação musical irlandesa não é uma total surpresa para quem recorda as declarações de Flowers numa entrevista de 2004: «quero que sejamos os U2 americanos».

O processo de gravação de Wonderful Wonderful foi longo e atribulado e o intervalo entre o novo registo e o seu antecessor é o maior de sempre para os Killers: cinco longos anos passaram desde Battle Born. O facto de os vários elementos da banda viverem agora em cidades diferentes não ajudou, mas muitas das ideias iniciais – começaram a trabalhar no disco em outubro de 2015 – foram deitadas para o lixo antes de chegarem até Jacknife Lee (Ryan Tedder, dos OneRepublic, e Steve Lillywhite foram dois dos nomes com quem estiveram em estúdio inicialmente). «O Jacknife está a fazer o álbum dos U2», explicou Flowers em entrevista à Billboard, revelando que foi o próprio Bono quem lhe sugeriu o produtor: «conhecemo-lo e gostámos muito dele. Depois, experimentámos trabalhar com ele em estúdio e gostámos ainda mais». Outra questão que não terá facilitado o processo foi o facto de o baixista Mark Stoermer e o guitarrista Dave Keuning terem comunicado aos colegas que gostariam de ficar de fora da digressão para se dedicarem a outras coisas. Esta decisão foi partilhada com os fãs no final do mês de agosto, numa carta publicada nas redes sociais na qual se lia: «tal como o Dave anunciou à revista Q, vai fazer um intervalo nos concertos para se dedicar à família. Respeitamos a decisão dele, tal como respeitámos a decisão do Mark de voltar à universidade». O grupo, que agora se apresenta ao vivo com músicos convidados ao lado de Flowers e do baterista Ronnie Vannucci, garante, no entanto, que a formação da banda se mantém e que quer o baixista quer o guitarrista continuarão a estar presentes em estúdio. Foi assim em Wonderful Wonderful e deverá continuar a ser assim no futuro: «apesar da conjetura, os Killers continuam a ser os mesmos quatro músicos estranhos que sempre foram».

Questionado sobre a forma como esta restruturação influenciou os espetáculos pela BLITZ, o vocalista foi lacónico. «O meu trabalho continua a ser o mesmo. É a primeira coisa a que me agarro, porque se não o fizer e se me preocupar demasiado com o que se passa à minha volta as coisas não funcionam da mesma maneira», começa por dizer, «tento olhar para as coisas que se mantêm inalteradas… Tenho o Ronnie lá atrás a comandar o barco e a minha função mantém-se a mesma. Temos um coro agora, algo que adoro. Gosto muito destes embelezamentos, portanto estou a divertir-me bastante». E nota-se. O concerto em Leeds, que a banda trará a Portugal em junho do próximo ano, ao palco do Rock in Rio-Lisboa, é um verdadeiro espetáculo de luz e cor e o grupo defende as canções de forma consistente, quer as novas quer as antigas. A intenção com esta digressão, assume Flowers, foi levar «um pouco de Las Vegas», cidade de onde a banda é originária, para o palco. «Sentimos que estamos cada vez melhores ao vivo e gosto muito disso. Espero que isso passe para o público e o contagie». Avaliando pela reação dos fãs britânicos, não terá de se preocupar. Claro que «Somebody Told Me», servida pouco depois de iniciarem a atuação, uma versão um pouco anémica de «Human» e «Mr. Brightside», que encerrou o concerto, foram os momentos mais celebrados, mas novidades como «The Man», «Run for Cover» ou a musculada «Tyson vs Douglas» deixaram a plateia em polvorosa.

The Killers ao vivo em Leeds, 2017

The Killers ao vivo em Leeds, 2017

Já chega de 
canções de Natal

O nome de Flowers está, como sempre, inscrito nos créditos de todas as canções de Wonderful Wonderful. O músico explica que o disco se desenvolveu em torno de assuntos muito íntimos, como a sua relação com a mulher e os problemas psicológicos dela, que a deixaram à beira do suicídio há alguns anos. «Some Kind of Love» e «Life to Come», duas das canções mais emocionais do disco, parecem ter nascido de um processo de «cura». O músico confirma. «Comecei a dissecar o que se passava comigo e por que razão aquilo estava a acontecer, esperando sair com uma espécie de resposta… uma espécie de entendimento», assume, «e consegui obter essas respostas e esse entendimento. É um ótimo exercício, para ser sincero. Gostava que as outras pessoas pudessem passar por isso. Não é nada má ideia tentar escrever uma canção para tentar perceber o que se passa. Fez-me sentir mais empatia pela minha mulher e aproximou-nos num período em que, penso eu, grande parte dos casamentos sofre grandes fraturas». Flowers assume mesmo que este novo álbum dos Killers é o documento mais pessoal que algum dia escreveu. Mais até do que os registos a solo. «Sinto que esses discos me prepararam para fazer isto, de forma mais aberta, com os Killers», acrescenta, «sempre estive muito presente nas canções da banda e as minhas experiências sempre andaram ali a espreitar. Houve sempre ali pistas da verdade, mas neste álbum isso aconteceu de forma mais insistente. Senti-me mais livre para o fazer precisamente porque gravei Flamingo e The Desired Effect». Outro assunto abordado de modo bastante direto pelo músico norte-americano, com alguma ironia à mistura, no tema «The Man», é a forma como contempla a sua própria masculinidade. «Quando era mais novo, a minha noção daquilo que significa ser homem era falaciosa, penso eu, e à medida que fui envelhecendo acabei por perceber melhor as coisas», defende, «sou mais experiente e tento o melhor que sei ser o homem que é suposto ser. É isso que tento dizer com essa canção». No refrão, Flowers canta «I got gas in the tank/I got money in the bank/I got news for you baby, you’re looking at the man» (algo como «tenho o depósito cheio/tenho dinheiro no banco/tenho notícias para ti querida, estás a olhar para o homem»). «Há quem não perceba que é uma abordagem irónica, não sei… Mas gosto muito da canção. Faz-me lembrar o sentimento que a “Big Time”, do Peter Gabriel, carrega. É uma espécie de irmão desse tema».

Apesar de muito pessoal, Wonderful Wonderful é também o álbum em que os Killers olha para fora e trazem até alguns convidados para bordo. O ator Woody Harrelson empresta a voz a «The Calling» e Mark Knopfler, dos Dire Straits, participa em «Have All the Songs Been Written?». «Queríamos ter alguém a ler um excerto do capítulo 9 de Mateus, da Bíblia, porque “The Calling” é baseado numa pintura chamada Saint Matthew, e o Woody soa muito melhor, muito mais fixe, a narrar aquilo do que eu soaria», revela o cantor, entre risos, «quanto ao Mark Knopfler… Somos grandes admiradores dos Dire Straits e do trabalho dele a solo. Adoro aquilo que ele fez na nossa canção. Já tínhamos falado antes de artistas que incluem convidados nos seus álbuns e achámos que devíamos experimentar». Além disso, «Have All the Songs Been Written?», nascida de uma conversa por email que Flowers manteve com Bono numa fase pouco inspirada do processo de composição deste álbum, ajuda também a trazer outro assunto a lume. A banda presta uma espécie de homenagem, ao longo do disco, a algumas das suas grandes inspirações. «The Man» sampla «Spirit of the Boogie» dos Kool & The Gang e faz uma vénia a «Fame» de David Bowie, «Run for Cover» refere «Redemption Song» de Bob Marley, «Some Kind of Love» inclui elementos de «An Ending (Ascent)» de Brian Eno e «Out of My Mind» nomeia Bruce Springsteen e Paul McCartney. «É uma espécie de tirar o chapéu a alguns deles», assume Flowers, «a referência ao Springsteen e McCartney é uma brincadeira, a parte do “Fame” pareceu-nos simplesmente acertada para aquela canção».

Como é sempre bom olhar para o passado para falar do futuro, o músico assume-se surpreendido com o facto de «Mr. Brightside», o tema que serviu de rampa de lançamento aos Killers no já longínquo ano de 2004, permanecer no top 100 de singles britânico todos estes anos depois. «É incrível! Simplesmente não desaparece», começa por dizer, «é fantástico fazer parte de uma canção dessas e sinto muito orgulho nela… mas não sei se tenho uma explicação para o facto de ter as pernas, as asas ou o motor a jato que tem». E algum dia olhou para si próprio como o tal Mr. Brightside? «Não penso em mim dessa forma», ri-se, «mas uma namorada minha chamou-me isso quando era novo. É daí que vem essa expressão». Os fãs podem ficar descansados, porque a banda não pretende arrumar as botas tão cedo. «Já atingimos muitos dos sonhos que tínhamos no início e nem sei se consigo realmente compreender o quão maravilhoso isso é. Não pensamos demasiado nisso, mas é incrível! Não quero desistir. Mantenho um grande desejo por algo maior e uma vontade de descobrir o que vem a seguir. Ainda me sinto bastante novo, tenho 36 anos, e há muita gente que assinou grandes trabalhos no final dos seus trinta anos e nos quarentas e cinquentas, portanto espero juntar-me a esse clube». Aquilo que descarta, para já, é a manutenção de uma tradição que se prolongou por mais de uma década: os infalíveis temas de Natal dos Killers. «Já gravámos 11!», exclama, confessando de seguida que a «tradição» dá mais trabalho do que se pensa. «Preocupo-me tanto com essas coisas que acaba sempre por consumir muito mais tempo do que o desejado. E, a cada ano, o tempo passa mais rápido. Em agosto percebes que tens de escrever uma canção, depois tens de a gravar, de encontrar um produtor, alguém que te ajude a fazer um vídeo… Parece pouco trabalhoso, mas na verdade consome-nos muito tempo». Flowers garante, no entanto, que se orgulha muito das canções que, em 2016, a banda reuniu no álbum de Natal Don’t Waste Your Wishes. «Conseguimos angariar mais de um milhão de dólares para a campanha Red e isso é algo de que me orgulho imenso. Espero que, a cada ano que passa, consigamos fazer ainda mais dinheiro com elas porque sei que vai para uma ótima causa».

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2018

1
1