www.jn.ptAfonso Camões* - 14 jan 00:08

Leonardo sabia-a toda!

Leonardo sabia-a toda!

O Estado social é um sonho erguido pelos nossos pais e avós sobre os escombros e a devastação que resultaram da Segunda Guerra Mundial. O princípio é o da solidariedade e visa assegurar a proteção de todo o ser humano, desde o berço até à tumba.

Apesar de todos os avanços, aquela que foi uma das mais bonitas utopias de progresso no último meio século está longe de ser alcançada. O relatório anual da OIT (Organização Internacional do Trabalho) revela que mais de metade população mundial (cerca de 4 mil milhões de pessoas) não tem nenhum tipo de proteção social. O mesmo acontece com quase 1300 milhões de crianças, ou seja, duas em cada três. Apenas um em cada cinco desempregados tem direito a subsídio (ou a um seguro) de desemprego, e menos de 70% das pessoas em idade de reforma recebem uma pensão, embora em montante que, para a maioria, não basta para fugir à pobreza.

A existência de um Estado que garante o bem-estar mínimo dos seus cidadãos (na educação, na saúde, nas pensões de reforma e no apoio aos desempregados) não distingue apenas os países quanto ao grau da sua generosidade em matéria de proteção social. Um país assim não é apenas socialmente superior, é também economicamente mais forte. E esse é, porventura, o traço mais marcante da riqueza das nações. De resto, vários estudos de organizações multilaterais (do FMI à OCDE) demonstram que a existência de um Estado de "bem-estar" aumenta o rendimento familiar, estimula a produtividade e o desenvolvimento humano, acelera a procura interna e promove o trabalho decente. Não é pouco. E não há nenhuma razão para renunciarmos à utopia ou temermos os combates por ela, mesmo quando, na espuma dos dias, há pequenas bolhas de notícia que nos sugerem outro mundo.

Como este, por exemplo, em Nova Iorque, onde uma tela de 45 por 66 centímetros, atribuída a Leonardo da Vinci, acaba de mudar de mãos pela quantia de 382 milhões de euros, batendo todos os recordes no mercado da arte. Contam as agências internacionais que, perante uma sala apinhada de colecionadores e negociantes perplexos, bastaram 19 minutos de leilão, na Christie"s, para que o preço da obra tenha quadruplicado a estimativa inicial, depois de um breve despique, ao telefone, entre dois licitadores cuja identidade se desconhece. A pintura, em estilo renascentista, tem o nome de "Salvator Mundi" (Salvador do Mundo) e mostra um Cristo segurando uma esfera de cristal, com a mão esquerda, e a mão direita levantada, dando a bênção, mas com os dedos cruzados, como quem faz figas. O velho sabia-a toda! Com mais de 500 anos de avanço sobre nós, era certamente o génio de Leonardo a esconjurar o tempo desigual, desenfreado e louco que vivemos, negando as utopias.

*DIRETOR

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