www.publico.ptDavid.Dinis@publico.pt - 14 jan 06:20

Análise. 11 decisões difíceis para o novo líder

Análise. 11 decisões difíceis para o novo líder

Rui Rio é o novo presidente do PSD e terá, agora, que fazer escolhas. Há interrogações que são comuns a todos os líderes. Mas outras que só lhe assentam a ele. Estas são as principais.

1. Unir. A palavra é velha, mas nunca perde a juventude. Talvez a melhor expressão seja “travar uma guerra interna”, um risco latente depois de uma campanha acesa e muito pessoal. Não é de esperar que Rui Rio siga o exemplo máximo de unidade dado na história recente do PSD: o de Passos Coelho que, depois de vencer em 2010, convidou Paulo Rangel (o seu principal adversário) para n.º 1 da sua lista ao Conselho Nacional. E Rui Rio até já deixou cair um aviso: “Deixem-me ganhar, que vai ver como as coisas são”, disse, em resposta a uma entrevista de Miguel Relvas. É claro que lá no fim da meta, o grande teste é fazer as listas de deputados. Mas há escolhas mais urgentes que darão o primeiro sinal.

2. Seduzir o grupo parlamentar. A actual lista de deputados é ‘passista’ — porque Passos acabou, como qualquer líder, mais fechado entre os seus. E o desafio de Rui Rio começa na liderança do grupo, que está há poucos meses nas mãos de Hugo Soares (um apoiante de Santana). Trocar é sempre um risco, mas não trocar também: estando fora da bancada, vai ter que comandar à distância. E depositar total confiança em alguém que mantenha os protagonistas debaixo de olho (como Montenegro, que se afigura como “next to be”) e que surpreenda nos duelos com António Costa. Pelo que não é de estranhar que já se leiam notícias dizendo que Rio tem três hipóteses para o lugar — em qualquer caso, passando por uma mudança. Mas o líder parlamentar é um cargo de eleição entre pares e o risco de o nome indicado perder a votação (ou ter muitos votos brancos) é sempre um fantasma à frente da nova liderança.

3. Rejuvenescer o partido. Assim que a manhã nascer, Rui Rio terá uma urgência nas mãos: encontrar uma equipa nova. Neste caso, com um líder que não é propriamente um jovem, a palavra “nova” tem que ser lida literalmente: é preciso juntar à experiência uma certa juventude. De preferência com notoriedade mediática e sensibilidade política (para não falar de conhecimento em áreas-chave). A má notícia é que, não havendo expectativas altas de regresso ao poder, vai ser difícil tirar os melhores do conforto das suas profissões. A boa nova é que o congresso é só a meio de Fevereiro — pelo que há tempo para os convencer.

4. Evitar um vazio de um mês. Há uma lista longa de leis e polémicas que precisam de uma definição de mensagem. Problema: Passos, formalmente, ainda será líder até ao congresso (e a nova direcção só chega nessa altura). Exemplos? A lei do financiamento dos partidos, a regulamentação da Uber, a entrada da Santa Casa no Montepio. Para não falar dos imprevistos. A questão central é, aqui, não comprometer, evitando o desaparecimento do partido enquanto o a mudança de líder não está consumada.

5. Segurar o CDS. A questão vale muito no primeiro mês: se o PSD desaparecer até meio de Fevereiro, é mais um mês de borla que entrega ao crescimento de Assunção Cristas. Mas vale sobretudo para depois: o PSD precisa de encontrar uma estratégia comum com o CDS, onde os partidos se complementem e não se atropelem. Vantagem: em 2019, nas legislativas, os dois partidos têm o mesmo objectivo, que é chegar a uma maioria de direita. Problema: Costa acabou há dois anos com a ideia de um voto útil, valorizando os pequenos partidos; e Cristas usará os 20% de Lisboa como uma bandeira para subir e se diferenciar.

6. Estar ao lado de Marcelo (de olho aberto). É fácil de perceber porquê: não há ninguém mais popular no PSD do que Marcelo. E não há ninguém no partido que mais facilmente o influencie. O novo líder do PSD tem um longo histórico de relações com o chefe de Estado. Foi seu secretário-geral no partido, mas saiu em ruptura e os dois perderam contacto entretanto. Mas Rui Rio saberá que, sem um alinhamento com ele, terá dois anos muito difíceis pela frente (se não o souber, Passos pode explicar).

7. Procurar uma agenda diferenciadora. Será a missão mais trabalhosa do novo líder: encontrar ideias que o diferenciem de António Costa — e que sejam mobilizadoras. O contexto não podia ser mais desafiante: Costa tem as sondagens a favor, a economia a crescer e uma agenda redistributiva. E o PSD, nos últimos dois anos, já experimentou sem sucesso o discurso de “assim vai correr mal” — pelo que precisa que essa nova agenda seja, também, diferente da de Passos Coelho. Na campanha, Rui Rio arriscou quase nada — e deixou antever que só com tempo, e equipas preparadas, definiria essa agenda. O azar é que não pode esperar muito para ter algumas ideias — ou começará a perder logo nas primeiras sondagens.

8. Galgar terreno e levar as TVs. Rui Rio é um político pouco dado a mediatismos. São raras as entrevistas que aceitou dar antes de ser candidato. Mesmo nos últimos quatro anos, foi aparecendo pontualmente, mas sobretudo em salas de conferências, onde fazia discursos. Agora, como líder da oposição e sem lugar no Parlamento, precisa de ir para o terreno e correr o país real: para ter visibilidade mediática e para conhecer a realidade. Mais uma corrida onde a concorrência é forte: Costa tem sempre agenda; e Marcelo é imbatível neste campo.

9. Encontrar um tom. Mais um desafio difícil: ao longo dos anos, Rui Rio coleccionou polémicas com jornalistas — sobretudo no tempo em que foi presidente da Câmara do Porto. E marcou sempre distâncias. Agora, como líder do PSD, o caso é mais difícil de gerir. Rio terá que escolher a imagem com que quer aparecer como candidato a primeiro-ministro. E tem — uma vez mais — comparadores difíceis: os afectos de Marcelo, o optimismo “irritante” de Costa, o sorriso de Assunção Cristas. No meio, sobra o quê?

10. Definir o eleitorado alvo. O PSD está mal nas sondagens — e foi mal nas últimas legislativas (teria tido pouco mais de 30%, se não fosse junto com o CDS). Os dados conhecidos mostram alguns desafios: poucos votos entre os mais velhos (talvez por causa dos cortes nas pensões, durante o tempo da troika); perda de apoios na Administração Pública (idem); e insuficiente mobilização dos mais novos (questão comum a vários partidos, já quem 63% dos portugueses abaixo dos 35 anos não votou nas legislativas). Estudar os dados e pensar como os mobilizar será um ponto de partida essencial para 2019.

11. Modernizar o partido. Não é recuperar as sedes, nem passa por convocar primárias. Modernizar o PSD é passar a usar os instrumentos de comunicação que lá fora já são comuns, mas cá dentro quase não são usados: redes sociais, claro (mas profissionalizadas); e algoritmos, para ter a mensagem bem estudada e dirigida. Sem isso, não há mobilização que chegue, estratégia que valha — ou liderança que resista no futuro.

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