expresso.sapo.ptPedro Santos Guerreiro - 14 jan 00:34

Rui Riu-se. A opinião de Pedro Santos Guerreiro

Rui Riu-se. A opinião de Pedro Santos Guerreiro

Rui Rio vai abrir o PSD, sim, abrir as portas para correr de lá com o “clube de amigos” que o desfez. Mas não mostrou ainda definição ideológica nem espessura intelectual para que percebamos o que fará depois.

“Rui Rio, conhece? É um homem perigoso para quem o critica, se ganhar fará uma razia total de cabeças no PSD, recolocará o partido no centro ideológico, decidirá com máquina de calcular no bolso mas terá de mostrar se tem visão tamanha ou tacanha. É o senhor que se segue num partido que segue em autodestruição há década e meia. Sim, o PSD tem mostrado o que vale, vale pouco mais do que os jogos de poder daqueles que, subindo na hierarquia, fazem descer o partido. Que a próxima vida não seja menos uma no saco de gatos. E que a ovação eufórica que ouviremos não seja do nervosismo dos cínicos e da vitória do medo.”

Escrevi estas linhas a 7 de outubro no Expresso, para frisar que pouca gente em Portugal conhece bem Rui Rio, até porque ele se dá pouco a conhecer. Incluindo os que o conhecem melhor, os cidadãos do Porto. Basta ler o que aqui escreve o jornalista Valdemar Cruz, do Porto: “Há em Rio uma espécie de neblina, por momentos impeditiva de um conhecimento rigoroso de algum do seu pensamento”.

É da ação política como presidente da Câmara do Porto que melhor podemos percebê-lo: um homem de estilo autoritário e fechado, hostil à comunicação social e intolerante à crítica, sério, com grandes conhecimentos de economia e desprezo pela cultura, sem abertura à intelectualidade, cismado no controlo de custos e, aparentemente, sem mundo nem mundividência.

É fácil é perceber por onde vai começar: pela vassourada no PSD, limpando o partido da rede de interesses, políticos e não só, em que se transformou nos últimos anos. É o “clube de amigos” que levou Pedro Passos Coelho à liderança do partido, não porque Passos fizesse parte dele, mas porque o deixava à solta. Não controlava “os amigos”, não sabia como. Rio sabe como. Vai controlar tudo. E se essa limpeza libertar o PSD dos “interesses” que o tomaram, então o partido ganha. Mas ganha o quê? Desconhecemos. Porque Rui Rio ainda não revelou posicionamento ideológico concreto para o partido nem estratégia intelectual política. O PSD não fez qualquer rejuvenescimento e se carece de uma regeneração, que ela não seja apenas o corte de cabeças do passado, antes a afirmação de uma proposta política que agregue e congregue uma alternativa para quem precisa dela. O esboroar do PSD, que levou à derrota pesada nas autárquicas e a níveis de popularidade medíocres, não resulta apenas de Passos não ter sabido fazer oposição, mas da falta de pensamento político estruturado, que devastou o partido ao longo de mais de uma década e meia. Daí a orfandade de tantos à direita, espaço político onde existe um vazio por preencher. Incluindo como expressão de oposição.

Rui Rio esteve anos à espera do PSD antes de o PSD ficar à espera dele. Preparou-se, ganhou e agora é líder do principal partido da oposição, declarando guerra à maioria de esquerda ainda que isso signifique fazer acordos com o PS depois das eleições de 2019. Rio acredita no diabo de Passos, ainda que não o nomeie: que as contas públicas do país continuam débeis, que a economia está a crescer sem qualquer transformação perene, que qualquer crise externa fará ruir a nossa recuperação e que o atual governo esbanja no Estado, centrando-se em quem vota (pensionistas, funcionários públicos, trabalhadores privados) em detrimento de quem investe (as empresas).

Rio não quer mudar apenas o PSD, quer mudar o país, e provavelmente sente-se o homem providencial que o pode fazer. Tem dois anos para mostrar o que vale. E, para fazê-lo, vai ter de mostrar quem é, como é e como pensa. Não vai tardar muito até começarmos a conhecê-lo. Começando por ver não apenas aqueles que ele afastará do partido, mas também aqueles de quem se vai rodear. Porque a campanha pobre mas afirmativa que fez mostra que ele precisa de gente a seu lado e não é de gente que concorde com ele, mas de quem lhe dê o que ele, mesmo não o admitindo, não tem. De outra forma, daqui a dois anos Rio esfarela-se. E o "clube de amigos" esfrega as mãos de contente.

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