expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 14 jan 17:24

Líder parlamentar do PSD apoiou Santana mas não se demite

Líder parlamentar do PSD apoiou Santana mas não se demite

Hugo Soares sofreu uma dupla derrota: apoiou Santana e viu Rio vencer na concelhia de Braga, que é dirigida pelo líder parlamentar. Rio também venceu no distrito. Apesar disso, o líder da bancada só sai se o novo presidente do PSD assumir que o quer substituir

Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, teve ontem uma dupla derrota: o candidato que apoiava para a presidência do PSD, Santana Lopes, perdeu, e ficou atrás de Rui Rio também na concelhia de Braga, que é dirigida por... Hugo Soares. Em cerca de seiscentos votos, Rio contabilizou uma vantagem de quase uma centena. Esse resultado acabou por contribuir para que Santana perdesse por 69 votos num distrito que contava conquistar e que é decisivo para qualquer candidato à liderança do PSD.

Apesar de fragilizado politicamente, o líder parlamentar não tenciona pedir a demissão. Pelo contrário: está disposto a continuar na função para que foi eleito em julho. Só se Rui Rio disser explicitamente que não confia nele e quer o seu afastamento é que Soares admite deixar a chefia da bancada laranja. Nesse caso, Rio "ficará com o ónus" (nas palavras de um deputado que lhe é próximo) de começar a sua liderança com o afastamento de alguém que foi o último líder parlamentar de Passos Coelho e apoiava Santana Lopes. Nesse caso, diz a mesma fonte, ficará clara a intenção de uma "limpeza étnica".

Conversa a dois em breve

Ao que o Expresso apurou, Soares e Rio deverão ter uma conversa a dois muito em breve. E nessa conversa, será decisivo aquilo que disser o presidente eleito do PSD. Em todo o caso, "isto é para resolver depressa, não faz sentido o líder parlamentar da maior bancada do Parlamento ficar a fritar em lume brando", diz um dos seus colaboradores, ouvido pelo Expresso.

O líder dos sociais-democratas na AR acredita que mantém a confiança dos seus pares em São Bento, até porque a grande maioria dos deputados laranja alinhou com Pedro Santana Lopes. E, na direção da bancada, o apoio ao candidato derrotado era esmagador. Mais: a legitimidade do líder parlamentar não depende da direção do partido, mas da confiança dos deputados. Porém, seria politicamente insustentável manter-se à frente da bancada alguém em quem Rui Rio não confiasse.

Essa terá sido a leitura que já fizeram dois vice-presidnetes da bancada que apoiavam Santana e já puseram o lugar à disposição: Sérgio Azevedo, de Lisboa, e Amadeu Albergaria, que está numa situação semelhante à de Hugo Soares: foi derrotado pelos apoiantes de Rio na concelhia a que preside, de Santa Maria da Feira.

Vários outros vice-presidentes do grupo parlamentar "laranja" sofreram derrotas no seu território: Miguel Santos, líder de Valongo, era coordenador da campanha nacional de Santana Lopes, mas nem no seu concelho conseguiu vencer; e Nuno Serra, presidente da distrital de Santarém, viu fugir para Rio uma vitória inesperada. Também Carlos Abreu Amorim, deputado eleito por Viana do Castelo, apoiava Lopes, mas no seu terreno venceu Rio, e por larga vantagem.

Três senadores e um jovem turco

Se Rio decidir forçar a saída de Hugo Soares, como defendem alguns dos colaboradores do futuro presidente do PSD, a opção tida como mais simples para dirigir a bancada será Luis Marques Guedes, ex-ministro que também já esteve à frente do grupo parlamentar. Ainda no campeonato dos senadores, José Matos Correia é visto com bons olhos entre os apoiantes de Rio - mas é improvável que esteja disponível para abdicar do estatuto de vice-presidente da AR. Fernando Negrão, que já foi muitas vezes apontado como eventual líder parlamentar, é outra possibilidade bem vista entre as tropas de Rio - com a vantagem de que foi apoiante de Santana e poderia dar um sinal de unidade interna.

Fora do campeonato dos senadores surge o nome de António Leitão Amaro. É um dos mais jovens vice-presidentes da atual direção da bancada, e dos poucos que declarou apoio a Rio. O seu nome foi avançado na noite de sábado por José Eduardo Martins, ex-deputado que também estava do lado de Rio na disputa interna.

Curiosamente, só dois "vices" da bancada parlamentar estavam com Rio - Leitão Amaro, de Viseu, e Adão e Silva, de Bragança - e ambos viram o seu candidato ganhar nos seus distritos e concelhos.

"Não devemos misturar as coisas"

O Expresso falou com Paula Teixeira da Cruz, que nestas diretas não apoiou qualquer dos lados (confessou até, no Observador, a sua situação de "orfandade" perante as duas alternativas existentes), para saber se considera que o líder parlamentar tem condições para continuar. A deputada considera que "não se coloca questão nenhuma" pelo facto de Hugo Soares ter apostado no candidato perdedor, ou por Rio ter ganho na concelhia a que o líder parlamentar preside. "É absolutamente indiferente que ele tenha apoiado um dos candidatos. Havendo dois, isso fazia parte da sua liberdade. Não devemos misturar as coisas nem entrar em turbulência intra-partidária."

"Juridicamente não há razão nenhuma para ele sair [da liderança da bancada]. O grupo parlamentar tem autonomia, e não foi por acaso que Pedro Passos Coelho nunca se intrometeu numa liderança parlamentar. Nunca se lhe ouviu uma palavra sobre essa matéria. Se o grupo parlamentar expressou de forma tão intensa o apoio ao atual líder, quando ele foi eleito, não vamos confundir as coisas."

Do ponto de vista político também não há razão para Hugo Soares ser afastado, diz a ex-ministra da Justiça e atuial deputada, "porque o seu desempenho tem sido entendido como bastante bom, nomeadamente nos debates quinzenais com o primeiro-ministro". Para Teixeira da Cruz, se Rio mantiver o atual líder parlamentar "isso tem uma mais-valia política", pois dá um sinal de unidade. "O sinal contrário é que será prejudicial, porque seria sintoma de exclusão."

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