expresso.sapo.ptMartim Silva - 14 jan 00:02

O caminho de Rio é o buraco da agulha

O caminho de Rio é o buraco da agulha

A campanha de Rio não foi boa. Mas um candidato poucochinho não significa um líder a prazo. O caminho para o sucesso é estreito, mas existe. E o que vai decidir tudo é o estado da economia em 2019.

O percurso de Rui Rio para o sucesso existe. Só que, não sendo tão estreito como o buraco de uma agulha, é quase.

A vitória nas eleições diretas do PSD não pode ser considerada uma surpresa. O seu caminho como potencial líder vem sendo feito desde 2008, ainda estava com os dois p��s bem assentes na Câmara do Porto. Por várias vezes foi empurrado a avançar, por outras tantas não o fez. Hesitou, hesitou, hesitou. Agora, com a saída de Passos Coelho depois das últimas autárquicas, Rio deu finalmente o passo decisivo, colocando-se de imediato na pole position para lhe suceder.

É certo que não fez uma campanha brilhante. Longe disso. Aliás, a sensação que fica é a de que foi perdendo terreno para Santana Lopes quanto mais aceso ficava o debate.

Mas ganhou. E isso é o que fica para a história.

No imediato, tem desafios de monta.

  1. Não está no Parlamento, como deputado, e conta com uma bancada parlamentar potencialmente hostil (foi construída pela liderança de Passos Coelho, e sabe-se como o passismo estava maioritariamente com Santana). Por um lado, não tem oportunidade de se afirmar directamente contra António Costa, não o podendo enfrentar nos duelos parlamentar. Por outro, tem de conseguir ‘trazer para si’ a bancada parlamentar. A nova liderança poderá ser entregue a Fernando Negrão, Matos Correia ou Marques Guedes.
  2. Tem o partido dividido. Não só pelos 54 por cento de votos com que ganhou estas directas contra Santana Lopes. Mas também por ter a herança do passismo potencialmente a conspirar e a colocar-lhe cascas de banana. Nomes como Luís Montenegro começam esta segunda-feira a pré-campanha para o arrebatar do poder no pós legislativas de 2019. Cada sucesso que consiga será olhado com desconfiança. Cada escorregadela será cobrada de forma implacável.
  3. Tem o CDS em processo de afirmação da liderança da Cristas, depois do bom resultado nas autárquicas em Lisboa, e até às legislativas deve contar com luta acesa à direita.
  4. O ciclo económico joga nesta altura claramente contra si. Os números apresentados por Costa&Centeno são bons e enquanto os cidadãos sentirem estes ventos e não mudarem de percepção quanto ao rumo da economia dificilmente os valores das sondagens serão outros que não os atuais, com o PS à beira de uma maioria absoluta.

Perante este cenário, Rui Rio tem de conseguir agregar em torno de si uma equipa forte, com nomes consagrados mas mostrando capacidade de chamar ao partido rostos novos.

Tem de conseguir mostrar aos portugueses que o PSD que lidera já não é o de Passos Coelho e que tem uma proposta nova para o país.

Sim, tem mesmo de mostrar quem manda e conseguir pôr o partido na ordem, como ameaçou.

E tem ainda de conseguir mostrar onde, como e de que forma é que entende que pode fazer melhor que o Governo de Costa.

Se fizer isto tudo, e se o fizer bem, ganha as eleições de 2019? Provavelmente, não.

Mas a sua sobrevivência e o seu sucesso podem não depender disso. Pelo menos totalmente. Quase tão importante como saber quem ganha as próximas legislativas é saber se o PS ganha ou não com maioria absoluta. Se Costa, não a tendo, consegue reeditar a geringonça. Um Costa versão II sem maioria e sem geringonça pode significar um governo a prazo. E aí, ao contrário do que agora sucede, o relógio pode começar a correr a favor de Rio.

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