tribunaexpresso.pttribunaexpresso.pt - 14 jan 13:06

Decioctofobia: se isto existir, só pode ter a ver com o Liverpool-Manchester City

Decioctofobia: se isto existir, só pode ter a ver com o Liverpool-Manchester City

O medo do número 18 pode ser uma coisa real, pois esses são os pontos que separam o Manchester City e o Liverpool, que se defrontam este domingo (16h, Sport TV3), na Premier League. Tentámos encontrar a mesma quantidade de motivos, ou simples curiosidades, que podem explicar o porquê de o 1º e o 4º classificados estarem tão distantes um do outro

Em todos os dias em que andarmos por esta vida, uma coisa certa é que a vida será sempre mais sábia que todos nós. Por isso, na génese do ser humano houve, há e haverá sempre uma necessidade de encontrar uma explicação para a imensidão de coisas que fogem à nossa compreensão. Não se percebe, por exemplo, o porquê de as pessoas terem medo de certas coisas, embora se dê nome a tudo quanto é receio. Como o temor pelo dezoito, sim, o número 18, que pelos vistos se chama decioctofobia.

Sem levarmos isto muito a sério, porque aparece escrito na Wikipédia e não se pode acreditar em tudo o que se lê por lá, a explicação mais plausível que descortinamos para uma pessoa se deixar amedrontar pelo 18 é se for adepto do Liverpool. Nesse caso, saberá que está a dezoito pontos do Manchester City, o super-adversário que terá no domingo (16h, Sport TV3).

E como na Tribuna Expresso não compadecemos com fobias mal resolvidas e acreditamos que tudo pode ter uma explicação, aqui ficam dezoito coisas, curiosidades ou meros motivos de interesse que cabem na diferença entre as duas equipas.

1. Pep Guardiola

Dá a sensação que qualquer palavra aqui debitada caia em redundância. Há vários anos que o espanhol é o treinador da moda, um fetiche para os amantes da bola na relva, do jogo de posição e da boa casmurrice de não abdicar dos seus princípios, seja qual for a circunstância. Isso, em parte, custou-lhe a primeira época sem títulos na carreira (o ano passado), mas está a retribuir-lhe com a liderança que ocupa no campeonato inglês com futebol goleador, cativante e muitas vezes espetacular.

Acabou de se tornar no primeiro tipo a vencer quatro prémios seguidos de treinador do mês da Premier League e está mais do que embalado para o título de campeão inglês. Quem não acredita nisto, só pode estar em negação.

2. Kevin de Bruyne

Está a ser, de longe, o melhor jogador da liga. O belga do tom de pele pálido e das poucas palavras passou de falso extremo a verdadeiro médio centro, é quem lidera muitas vezes a pressão incessante que o City executa nos raros momentos em que não tem a bola e lidera as assistências (nove, também com Leroy Sané) no campeonato. A forma como dita o ritmo ao lado de Fernandinho e David Silva e usa os espaços para ele, ou outros na equipa, deverá ser o maior problema para o Liverpool.

Stu Forster

3. 66,4%

É um número que encapsula uma forma de jogar: o City é a equipa com maior média de posse de bola, por jogo, e até já fechou partidas com mais de 70%. A maior parte das equipas nem tentam discutir quem deve usufruir da bola mais tempo e o Liverpool, mesmo com uma média de 57,3%, não deverá ser diferente. O que nos leva ao próximo ponto.

4. Contra-ataque

O Liverpool tem tipos adoradores da bola, como qualquer equipa, mas a equipa sobrepõe aos pés de Firmino, Emre Can, Lallana ou Wijnaldum a preferência por contra-atacar o mais rápido que puder. Os reds são, talvez, a equipa mais veloz da Premier League a reagir à recuperação de bola e a lançar jogadores no espaço nas costas da defesa adversária. É um estilo de jogo - é equipa que mais golo marcou (sete) em contra-ataque -, um estilo que se deverá acentuar ainda mais com a saída de Philippe Coutinho para o Barcelona.

5. Mohammed Salah

E pela presença e continuada dependência neste frenético egípcio, que vai com 17 golos no campeonato (mais um vinha mesmo a calhar para esta causa), pecúlio de aplaudir para um jogador que parte de uma ala e não se chama Messi, Ronaldo ou Neymar. O poder de arranque e a velocidade de ponta que Salah está a conseguir aliar a tanta pontaria na finalização são a marca que o Liverpool sempre dispara quando recupera a bola no próprio meio campo e repara que a linha defensiva contrária está subida. O que costuma acontecer muitas vezes no Manchester City.

6. Sim, e se não se falharem passes?

Sim, os centrais do City passam grande parte dos jogos para lá da linha do meio campo, a servirem quase de trincos de serviço para fazerem a bola circular de um lado, ao outro. As dezenas de metros que deixam entre eles e a baliza é aquilo a que a gíria denomina de profundidade, espaço que se torna num filme de terror quando os adversários o conseguem explorar com a bola. Mas o City, lá está, tem uma coisa - em média, acerta quase nove de cada 10 passes que faz, por jogo (88,8% de eficácia).

OLI SCARFF

7. Depois, haverá Ederson

O brasileiro é o guarda-redes que o estilo de Guardiola pedia. Porque, mais até do jogo de pés, que podia tê-lo como um jogador de campo, sem problemas, ele é bastante rápido a sair de perto da baliza e intercetar bolas que o adversário lance no tal ataque à profundidade. É o melhor antídoto que o City tem para usar, o que já valeu uma cicatriz na cara de Ederson: há meses, quando defrontaram o Liverpool, o guardião levou com a chuteira de Sadio Mané quando saiu da área para cortar um passe.

8. Remates, muitos remates

É o que mais podemos esperar neste jogo, fiando-nos no que as estatísticas apregoam. Manchester City e Liverpool são as equipas que, em média, fizeram nas 22 jornadas já realizadas: os citizens têm 18, os reds vão com 17.9, segundo os dados do site WhoScored.

9. E os poucos remates

Estamos também a dissertar sobre os dois conjuntos que menos bolas consentem que sejam rematadas às suas balizas: o City regista 6.3 remates por jogo, o Liverpool está nos 7.8. Poderia ser abonatório para a equipa de Jurgen Klopp, que tem sido criticada, inclusive pelo próprio treinador, devido aos erros defensivos que lhe parecem ser crónicos.

A diferença está em tudo o que existe para lá da estatística: os reds, mesmo permitindo poucos remates, deixa que eles aconteçam em zonas mais perigosas, tem um guarda-redes que para menos remates e, por isso, é a pior defesa do top four da Premier League (25 golos, mais oito que o City).

10. A vida pós-Coutinho

O pequeno, rodopiante, talentoso e driblador brasileiro, por fim, conseguiu o que pretendia. Apesar de Klopp ainda o ter posto a capitão de equipa, quiçá o trunfo para tentar convencer o craque a esquecer o Barcelona, o número 10 do Liverpool saiu e este será o primeiro teste de fogo para ver como a equipa se comporta sem o jogador que centraliza todas as jogadas de ataque e inventava quase tudo com os seus jogos de tabelas e remates em arco.

11. Virgil Van Dijk

Este holandês é grande, forte e alto, joga a central e há dias, tornou-se no defesa mais caro da história do futebol. O Liverpool pagou 85 milhões de euros para o comprar ao Southampton, dinheiro que chegava para comprar quase três Leonardos Bonucci, na esperança de contribuir para a estabilidade defensiva de que tanto necessita. Este será o primeiro teste dos grandes para Van Dijk, que marcou na estreia pelo Liverpool, logo no dérbi contra o Everton.

12. Jürgen Klopp

O alemão, tal como Guardiola, é um treinador carismático, muito pouco convencional na forma como fala, reage e se comporta, e alguém que parece ser um amigalhaço dos jogadores. Klopp ganhou campeonatos, taças e supertaças na Alemanha (uma delas contra o espanhol) e, em Inglaterra, pode gabar-se de ter um historial mais do que favorável em jogos contra equipas do top six, como os ingleses juntam o Liverpool, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Manchester United e Tottenham: 11 vitórias, 14 empates e três derrotas em 28 partidas. Nada mau.

Laurence Griffiths

13. É quase obra marcar contra eles

Vinte e duas jornadas de Premier League é muito futebol, mais precisamente, são 1980 minutos de bola a rolar, mais as migalhas dos descontos. É muito, muito tempo de jogo, é o tempo em que o Manchester City sofreu apenas 13 golos.

14. Raheem Sterling

Um miúdo inglês que, em tempos saiu do Liverpool por qualquer coisa como 50 milhões de euros, um de vários exemplos de como o clube perde talentos quando eles começam a maturar, simplesmente não rendia o que dele se esperava no City. Mas, esta época, Guardiola tê-lo-á deixado cair num caldeirão cheio de uma substância mágica que o dotou com novos poderes de finalização (14 golos), de inventar golos decisivos (três já deram a vitória nos descontos) e de ser influente como nunca o fora na carreira.

15. O que o papel de Sturridge nos diz

O avançado inglês é o número 15 e, há uns anos, andava a marcar golos às dezenas com Luis Suárez. É, em talento bruto, das melhores coisas que aconteceram ao futebol inglês esta década, mas as lesões, o estilo inato de fazer tudo sozinho e a personalidade individualista têm-no feito jogar pouco nas duas últimas épocas - isso, e o facto de Klopp ter percebido que há muito a desfrutar com três dos vários tipos rápidos, tecnicistas e inteligentes, que não são avançados.

Um dos melhores marcadores de golos do país joga pouco porque Salah, Firmino, Mané ou Lallana (e antes Coutinho) jogam muito.

16. O fator Anfield

Ouvir o coro de gente a entoar o You’ll Never Walk Alone não é a única coisa especial que o estádio do Liverpool tem, mesmo que seja a mais especial - os reds não perdem há 16 jogos contra o City e a última vez que tal aconteceu foi em 2003, ainda Guardiola jogava à bola.

17. Os laterais esquerdos

Este ponto, confesso, era para ser o último, porque Fabian Delph e Alberto Moreno são três coisas: ambos jogam à esquerda da defesa, vestem o número 18 e provam como há treinadores que fazem toda a diferença. Delph é um médio que, face às lesões, Guardiola adaptou a lateral, com tanto sucesso que parece sempre ter jogado por ali. O que se aplica a Moreno, que era criticado pelos adeptos do Liverpool e mal jogava a época passada, mas está a ser consistente, fiável e seguro desde o verão.

18. O que tem sido o City

Dezoito é o número de vitórias seguidas que a equipa de Pep Guardiola já conseguiu esta temporada, apenas na Premier League (vai com 20, no total). Só isto deve chegar para justificar a fobia e palavra esquisita que dá nome a este texto.

Laurence Griffiths

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