www.sabado.ptFlash - 14 jan 05:05

Quo vadis, PSD?

Quo vadis, PSD?

Para onde vai o PPD/PSD? Na direcção do futuro, ou do passado? E de que passado? E de que futuro? Há razão para alarme, satisfação ou empenhamento público? Ficam aqui algumas observações desprendidas

O estado dos partidos políticos portugueses é horripilante. Incluo aqui o caos medíocre do PSD, a sobrevivência a todo o custo do PS, a incipiência do CDS/PP, o social-oportunismo do BE e o consumo excessivo de sapos vivos pelo PCP.
Há quem, face a isto, sonhe já com um modelo constitucional presidencialista. E quem, ao contrário, tente melhorar o que está.

A verdade, porém, é que é preciso falar do PSD. Este ainda é, goste-se ou não, o maior partido português com assento parlamentar, apesar de ter perdido as autárquicas e de perder regularmente as sondagens.
O interesse aumenta, visto o que está em jogo. Rui Rio tem razão, quando diz que o concurso de beleza não é apenas para líder da facção laranja (palavras minhas), mas uma competição para primeiro-ministro.

Aqui há dois currículos: um em branco, outro de um homem que chefiou um governo de sete meses. Um em branco, no que toca a experiência executiva, outro com seis anos em duas secretarias de Estado.
Claro que se pode preferir a ausência de pecado, por falta de oportunidade (Rio), do que as páginas manchadas com as alegadas "trapalhadas", ou com as mais antigas historietas sobre as sonatas de Chopin.

Já é de mau gosto referir a falta de crítica de Rio, ou mesmo o aplauso discreto, face ao governo de Pedro Santana Lopes (PSL), durante o curso deste ou no colapso eleitoral frente a Sócrates (ex-companheiro de debate televisivo de PSL). Discordante, na altura Rio foi leal, o que é digno. Já passou o tempo de luto suficiente para que o candidato possa agora revelar as objecções.

Vem depois o currículo camarário: os dois candidatos tiveram dois mandatos municipais cada um, no Porto, Lisboa (interrompido e retomado, num episódio algo burlesco) e Figueira da Foz. Ganharam contra todas as expectativas, deixaram obra (contestada) e podem equivaler-se aí.

Por fim, a experiência partidária: Rio foi secretário-geral de Marcelo durante um ano, vice-presidente de Durão e Santana, militante precoce, conhecedor dos cantos da casa. Santana ainda mais: a sua juventude e as idades subsequentes confundiram-se sempre com a política. Pecou sempre por excesso, nunca por defeito. Nunca o vi fugir à luta, embora o tenho visto muitas vezes nas lutas erradas.

Sempre achei Rio mais discreto. Mas pode ser impressão minha.
Pode ver-se neste duelo a última batalha do PSD passado. Os elementos em campo pertencem mais à história do que ao futuro. Pode ainda suspeitar-se de que quem vencer será líder interino, profeta entre duas águas.
Mas a verdade é que a eleição parece replicar as velhas confrontações entre Durão Barroso e Fernando Nogueira, no fim do cavaquismo, ou as polémicas entre um PPD nacionalmente enraizado, populista, justicialista e tendencialmente partido de massas (ou de "rassemblement"), e um PSD tecnocrático, partido de quadros e de "elites".

Na vida do PSD, houve três momentos essenciais: o magistério corajoso, solitário mas solidário, de Sá Carneiro, o grupo da Nova Esperança (Marcelo, Júdice, Durão e Santana) e o cavaquismo. O resto, por muito brilhante (ou só apropriado) que fosse, muito competente que se tenha mostrado, muito sacrificado que se revelasse, é essencialmente paisagem. Não desfazendo.

É difícil, se não impossível, recriar esses marcos de transformação.
Mas esperava-se que entre Rio e Santana houvesse mais discussão profunda de ideias e projectos contrastantes.
Senão, tudo se reduz a uma questão de "imagem", "estilo" ou "sensibilidades" diferentes.
E aí Rio perde em toda a linha, num terreno onde Santana sempre esteve, e onde nasceu, dos debates em clima de guerra civil na academia às várias escaramuças com públicos diversos, em que o orador fala não só para si e para os seus, mas sobretudo para os descrentes.

E soçobrando aí, na "imagem", Rio não foi capaz de recuperar algures.
A sua afamada substância reduziu -se a banalidades. Não quer dizer que perca por isso, mas não ganha nada assim.  

Cortes na corte
Desmentido por todos os alegadamente escutados, a começar pelo bombo da festa, Steve Bannon (na foto), o livro de Michael Wolf arrisca-se a ser, não Fogo e Fúria, mas "Fumaça e Sussurros".
O que não quer dizer que o "círculo recôndito" de Donald seja um lugar tranquilo, transparente e recomendado. No actual momento da vida americana, porém, é capaz de ser o mais respirável.
Faz falta agora um livro com testemunhos assumidos, em que se mostre que, além das intenções e ideias de cada um na Casa Branca, há planos externos e interpostas pessoas.
Um livro no qual se revelem as reacções do mundo ao trumpismo, meditadas e digeridas por este.
À falta disso, a melhor biografia é, lamentavelmente, o Twitter.  

Irão, fim e princípio
Acabou mesmo, como diz a Guarda? Protestos em Khomeyn, terra natal do ayatollah fundador. Violência em Ilam, a terceira maior cidade curda. Descontentamento maciço num jogo de futebol em Tabriz, num comício em Bukan (protagonizado por Azeris), num funeral em Durod, ou no buzinão nocturno de Shiraz e Zanjan. Frustração nas ruas em Mashhad, a "capital cultural". Greve nas refinarias de Asaluyeh. Centenas de presos, entre eles muito estudantes de universidades técnicas, o futuro da pátria. Há um regime novo (com 37 anos) em convulsão, numa nação antiquíssima. É preciso que sejam os locais – incluindo a diáspora – a decidir. Mas claro que a subversão no exterior é uma arma de dois gumes. 

Música fresca
Reeditado em CD uma obra essencial do jazz europeu: Charles Loos e Steve Houben, teclados e sopros, em Comptines (Igloo). Na Inside Out Shop, para além do túmulo, o desaparecido Virgil e o pai Steve Howe (ex-guitarrista dos Yes) produzem música ambiental de rara beleza e dignidade, sem concessões ao comércio, em Nexus.
Por fim, dois dos maiores guitarristas da actualidade, o sérvio Miroslav Tadic (na foto) e o macedónio Vlatko Stefanovski, lançam obra a solo (Croatia Records). O primeiro, aqui mais eléctrico, dá Spavati, Mozda Sanjati, com tons de flamenco, clássico, vanguarda e jazz, o segundo, mais acústico, traz folk, blues, rock progressivo e fusão, em Mother Tongue. Belíssimos e cruciais.

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