www.publico.ptpublico@publico.pt - 14 jan 15:57

Opinião. Envelhecer juntos: quando pais e filhos são idosos

Opinião. Envelhecer juntos: quando pais e filhos são idosos

Cada vez mais assistimos a famílias multigeracionais onde filhos idosos coabitam com pais centenários. São filhos que, embora celebrando a conquista da presença duradoura de seus progenitores, partilham com eles as mazelas inexoráveis do envelhecer.

O interesse científico pela longevidade humana e o número crescente de pessoas centenárias a nível mundial tem incitado vários investigadores a estudar as particularidades deste grupo etário [1]. Nelas se incluem, entre outros focos de interesse, as dinâmicas relacionais e familiares de quem chega aos 100 anos e de quem envelhece com os pais vivos mantendo uma das identidades menos comuns na idade avançada — a de filho/a.

Desde um ponto de vista familiar, sabe-se que aos 70-80 anos é-se com frequência pai/mãe, irmão/irmã, tio/tia, avó/avô mas que ter-se-á já abandonado o papel de filho/a. A lógica natural da vida assim o determina. Os pais morrem, o adulto passa a idoso e assim se precisa, tacitamente, que na sequência natural e inevitável de mortes a ocorrer na família se esteja no lugar dianteiro. Um processo que marca a cadência da renovação de gerações, a transmissão de responsabilidades e o ajuste progressivo de expectativas familiares sobre os papéis a assumir.

Mas uma outra identidade se adiciona com frequência à de filho idoso, a de cuidador. Tudo numa altura da vida em que se deveria, muito provavelmente, começar a pensar na própria finitude e a ser-se receptor de atenção e cuidados ao invés de prestador dos mesmos. A verdade é que cada vez mais assistimos a famílias multigeracionais onde filhos idosos coabitam com seus pais centenários. São filhos que, embora celebrando a conquista da presença duradoura de seus progenitores, partilham com eles as mazelas inexoráveis do envelhecer, ao mesmo tempo que lidam com a antecipação próxima de um “eu” ainda mais envelhecido. Um “eu” fragilizado e dependente que corporaliza e reflete o próprio futuro.

Desafios identitários e ambivalências intergeracionais

Desde uma perspectiva psicológica, vislumbram-se, pois, desafios identitários e experienciais numa relação intergeracional de cuidados. É-se velho e cuidador (nada de novo, se atendermos à crescente realidade de idosos que se cuidam mutuamente no âmbito de uma relação marital), mas desta feita de outrem que é ainda mais velho. Cruzam-se trajetórias de envelhecimento, (des)constroem-se expectativas de vida e reformulam-se, muito provavelmente, atitudes em relação à velhice e à dependência. Quantifica-se economicamente o suporte informal providenciado: a probabilidade destes pais excederem os recursos financeiros que vieram a acumular ao longo da vida é elevada, o que os pode levar a terem de contar com o rendimento (entenda-se, a reforma) dos filhos.

A transmissão de heranças ver-se-á comprometida por necessidade de autoconsumo face às crescentes e contínuas despesas de saúde. Ocasionam-se reflexões sobre o sentido e a valoração da vida, sobre a extensão da vida humana e sobre as suas consequências; instalar-se-ão potenciais ambivalências intergeracionais à luz da qualidade de vida individual e familiar e da (não) vontade de se chegar aos 100 anos de modo a (não) deixar similar legado de cuidados aos filhos. 

Filhos cuidadores de pais centenários

Um estudo recente realizado no âmbito do PT100 – Estudo dos Centenários do Porto com uma amostra de filhos de idosos centenários (média de idades 67 anos) que assumiam o papel de seus cuidadores procurou analisar as principais características desta experiência [2]. De entre os vários resultados obtidos, os autores verificaram a existência de importantes repercussões em termos de sobrecarga, mas também no entendimento de si mesmos. Desde constrangimentos na vida social e recreativa associados a uma reforma que se antecipava orientada para si (ex.: dispor de tempo, finalmente, para viajar) ou para uma dedicação à descendência (ex.: apoio aos filhos, netos), estes filhos revelaram também a presença de estados de ansiedade que acompanhavam a sua perda de autonomia e incapacidade de prosseguir os planos para a gestão da sua própria velhice. Marcados por um sentido de obrigação filial, não deixavam de se sentir presos a um papel não expectável e não normativo. Um papel que não viram seus pais idosos fazer.

Filhos idosos, pais muito idosos

De um modo geral, numa dinâmica de cuidados por idosos a muito idosos não estão em causa as tradicionais problemáticas relativas à compatibilização das responsabilidades trabalho-família típicas dos cuidadores familiares de meia-idade. Estão, sim, problemáticas que giram em torno de um envelhecer a dois: a vivência simultânea da experiência da reforma, os constrangimentos económicos das despesas de saúde a duplicar, a coincidência de um auto e heterocuidado cada vez mais exigentes por imperativos de saúde, a ausência de tempo para cuidar das gerações descendentes e a gestão emocional de lidar com uma complexa noção de si e do futuro.

Ter um pai ou mãe vivo quando se tem 70 e mais anos parece influenciar o modo como se perspectiva a vida, o “eu” e o próprio funcionamento familiar. Novas dinâmicas relacionais e novas dinâmicas de cuidado, portanto. No fundo, também novos desafios para os profissionais de saúde e do social que lidam e lidarão com estas realidades num futuro bem próximo.

Referências

[1] Jopp, D., Boerner, K., Ribeiro, O. & Rott, C. (2016), “Life at 100: An international research agenda for centenarian studies”, Journal of Aging and Social Policy, 28:3, 133-147.

 [2] Brandão, D., Ribeiro, O., Oliveira, M. & Paúl, C. (2017), “Caring for a centenarian parent: an exploratory study on role strains and psychological distress”, Scandinavian Journal of Caring Sciences, 31, 948-994.

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