www.sabado.ptFlash - 13 jan 07:15

Canábis, uma questão de humanidade

Canábis, uma questão de humanidade

Se em tantas matérias o acto de legislar é apenas a ponta do novelo das mudanças efectivas que precisamos fazer, como todos sabemos, porque não dar o primeiro passo e confiar no sistema que todos queremos funcional e a disponibilizar as melhores possibilidades? Mais que um tema político, é uma questão de ciência e de humanidade.

As "virtuosas" figuras políticas que esta semana quiseram rejeitar a proposta de uma lei que pede a permissão da utilização de canábis para fins medicinais, recordo, para fins terapêuticos, de cura de doenças, iriam provavelmente, perante um problema de saúde seu ou de alguém muito próximo, contornar o sistema e encontrar uma forma de obter este tratamento se fosse uma esperança concreta de cura. Infelizmente esta é a realidade que todos conhecemos mas
poucos referem abertamente.

A isto chama-se hipocrisia e ainda é um problema demasiado enraizado nos princípios que orientam as mentes de muitos decisores do nosso país. Quanto à eficácia da canábis no uso clínico, a Ordem dos Médicos reconhece e valida sua utilização no auxílio do tratamento da esclerose múltipla, fibromialgia, no controlo da ansiedade ou na melhoria do sono em pessoas
com apneia obstrutiva do sono. A evidência científica determina que o consumo de canábis para fins medicinais é seguro e tem benefícios ao conseguir oferecer conforto em casos que outros fármacos não conseguem, como nos cuidados paliativos ou na amenização dos efeitos secundários da quimioterapia. A Organização Mundial de Saúde atesta também que a canábis
tem valor terapêutico para a prevenção de convulsões devido a epilepsia. 

As resistências ao consumo de canábis para fins medicinais não mais são que o preconceito de alguns partidos que, vazios de argumentos científicos, alegam que o que se pretende é uma legalização para fins recreativos e que não existem mecanismos de controlo de saúde pública que permitem fiscalizar os consumos. O que não é verdade. Acresce que é no mínimo hipócrita
o Estado Português reconhecer os benefícios da canábis para fins medicinais ao permitir a sua plantação em Portugal por empresas estrangeiras, mas depois impedir a melhoria da qualidade de vida de muitas pessoas e um maior e melhor acesso ao tratamento mais adequado ao seu estado de saúde através de uma prescrição médica.

Quem determina o meio de tratamento e a forma de consumo são os médicos através de receita e prescrição. O medicamento é adquirido numa farmácia ou pode ser auto-cultivado, com a fiscalização do Infarmed, da Direcção Geral de Saúde e dos órgãos de polícia criminal. 

Assim, e como já sucede em países como a Alemanha, Holanda, Itália ou Canadá, é tempo de darmos mais este passo na concretização do direito à saúde dos portugueses e colocar ao serviço das pessoas doentes os inúmeros benefícios medicinais desta planta. 

É nestes debates que se vê que os rótulos "esquerda" e "direita" pertencem ao espectro ideológico de uma determinada época e que descrevem posições rígidas com conotações históricas que não se adequam ao momento presente. No PAN procuramos os significados intrínsecos das situações pelo que elas são, em vez de partir para o debate condicionados por rótulos ideológicos que tendem para generalizações e teorias da conspiração simplistas.

Pergunto-me se existe necessidade de continuarmos de costas voltadas para as pessoas que sofrem e estão à espera desta legalização. Se em tantas matérias o acto de legislar é apenas a ponta do novelo das mudanças efectivas que precisamos fazer, como todos sabemos, porque não dar o primeiro passo e confiar no sistema que todos queremos funcional e a disponibilizar as melhores possibilidades? Mais que um tema político, é uma questão de ciência e de humanidade.

1
1