expresso.sapo.ptBernardo Ferrão - 13 jan 18:16

Rio ou Santana? Quem preferem eles para a oposição?

Rio ou Santana? Quem preferem eles para a oposição?

A pergunta que é feita este sábado aos sociais-democratas pode também ser colocada ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, à líder do CDS: quem quer ver a liderar o PSD? Todos eles foram dando sinais, uns mais óbvios do que outros, mas à exceção dos militantes do PSD, os únicos com voto na matéria, nenhum dos atrás referidos irá interferir nessa escolha. Mas e se eles respondessem?

Comecemos pelos que estão a votar: os militantes sociais-democratas. Rio percebeu desde cedo que não tinha o partido com ele. Ou seja, não tinha a máquina do ‘passismo’ do seu lado. Foi por isso que fez a corrida por fora. O PSD pode até preferir Santana Lopes mas Rio quis mostrar que o país o preferia a ele. A verdade nua e crua é que por mais eloquentes que sejam os discursos e as intenções dos candidatos, o PSD, como qualquer partido, só pensa em voltar ao poder.
Rui Rio apostou tudo nessa ficha: falar ao país e esperar que o partido se convença que é ele o melhor opositor para António Costa. Na frente interna, onde tem grandes anticorpos, a sua eleição deixará uma fratura exposta. A purga que muitos temem acontecerá desde logo na direção da bancada parlamentar – Marques Guedes será o próximo líder da bancada? - e pode dividir o partido.

Rio nunca foi de alimentar simpatias, bem pelo contrário fomenta inimigos e impopularidades. Há quem tema que o PSD deixado por Passos, e que não se revê no PSD do “grupo maravilha”, como lhe chamou Santana, que inclui “Pacheco” e “Manuela”, possa passar a uma espécie de clandestinidade. Assim, com Rui Rio, haveria um PSD oficial e um dos opositores internos, inorgânico mas com voz influente nos media e nas redes sociais.

Com Santana Lopes as coisas seriam diferentes, pelo menos mais alinhadas. Como a sua candidatura é apoiada e alimentada pela máquina de Passos – a máquina que quer acabar de vez com Rio e o seu “grupo maravilha”-, o PSD ficaria mais pacificado. Numa lógica unicamente institucional, o PSD de Santana garantiria uma oposição mais enquadrada. Já o de Rio uma guerrilha interna. Não tenho certezas absolutas sobre esta tese, porque a política, como todos sabemos, é suficientemente cínica para que no day after, os que antes criticavam Rio apareçam em declarações laudatórias ao novo líder. Na hora de decidir, a manutenção dos lugares conta muito. Seja como for, há um cenário a ter em conta: o PSD olha para estes dois homens como líderes a prazo. Ninguém esconde que será muito difícil ganhar as próximas legislativas e, assim sendo, o partido daqui a dois anos estará a escolher um novo rosto. Luís Montenegro e Paulo Rangel ficaram à distância, mas estão atentos.

Charles Platiau / Reuters

António Costa

Se é um facto que Rui Rio tem boas relações com o primeiro-ministro, não é menos verdade que as de Santana também não são más. O primeiro por causa do percurso autárquico, o segundo pelas funções que desempenhou na Misericórdia. Mas essas boas relações significam fotos de conjunto com o primeiro-ministro? Seria pouco avisado, dada a proximidade das legislativas. Santana foi taxativo no “jamais” e subiu a fasquia ao declarar que está “obrigado a ganhar a António Costa”.

Rio, pelo contrário, tem contribuído para que o colem ainda mais ao primeiro-ministro. Na entrevista ao Público/RR arriscou ao assumir o apoio a um governo minoritário de António Costa no pós 2019. Para quem quer ganhar o partido, digamos que não é o melhor slogan, sobretudo se nos lembrarmos da sede de vingança de muitos laranjinhas por causa do que se passou depois das últimas eleições. Ao declarar este apoio, Rio sabe que a sua coerência pode custar-lhe caro, neste caso mostra uma posição derrotista porque está já a dizer que Costa será o próximo chefe de Governo.

Seja como for, esta eleição pode trazer um novo ciclo nas relações entre o PSD e São Bento. Não estou a dizer que haverá diálogo ou entendimentos garantidos, o que digo é que o virar de costas que existia entre o PSD de Passos Coelho e o Governo de António Costa fica definitivamente para trás. No Governo e no largo do Rato somam-se os prós e os contras do homem que se segue na São Caetano.

Não tenho dúvidas que Costa preferiria Santana – é o candidato que facilita a sua reeleição (maioria absoluta?). A campanha negra e de casos já estava feita à partida, quem no país não se lembra das “trapalhadas” do passado? Mas Santana não é só isso. Tem uma mais-valia na frente social. Os anos na Misericórdia deram-lhe discurso e um conhecimento da realidade social do país - uma agenda essencial para os próximos anos. Soma ainda um estilo afável e de proximidade, “à la Marcelo”.

No caso de Rui Rio, não sendo propriamente novo representa a novidade. Nunca foi experimentado e por isso encaixa melhor na esperada mudança. É irónico mas é assim. E ao fazê-lo traz consigo uma maior perspetiva de regresso ao poder. Se a isto somarmos uma agenda a “cortar a direito” e com prometidos “banhos de ética”, já para não falar de outras guerras que o alimentam, Rio traz mais riscos para António Costa, dois homens, aliás, com muitas semelhanças.

Na frente comunicacional, Santana leva vantagem, tem mais capacidades para criar obstáculos na retórica do primeiro-ministro. Rio, como se tem visto, é um burocrata que não sai do guião, nem mesmo quando o mundo está a desabar à sua volta. Politicamente é previsível, mas ao lado de Santana sai a ganhar. Não no partido, mas no país. Por mais injusta que seja a perceção, a verdade é que Santana, pela história que transporta, transforma Rui Rio num candidato mais capaz e sobretudo mais confiável. Entre a alma e o Excel, o PSD que escolha!

Assunção Cristas assumiu candidatura à Câmara de Lisboa há um ano

Assunção Cristas assumiu candidatura à Câmara de Lisboa há um ano

Nuno Botelho

Assunção Cristas

Não sei se repararam na lufa-lufa da líder do CDS nestes últimos tempos. Pois, não é por acaso. Com o PSD sem rei nem roque, Cristas anda literalmente a marcar terreno. Insuflada pelo resultado em Lisboa, alimenta a ideia de estar a ganhar espaço com o vazio social-democrata, mas o mesmo aconteceu no passado e, já se sabe, o CDS nunca deixou de ser o que é: um pequeno partido. É por ter essa condição de partido satélite que não pode deixar de olhar com atenção para os parceiros do lado. Numa lógica de continuidade, os centristas querem voltar ao poder mas não o podem fazer sozinhos, precisam que o PSD encontre o caminho.

Com Santana, o estreitar de laços pode até ser mais fácil, mas tem alguns contras. O ex-provedor não morre de amores pelo partido que também é de Mota Soares, o ministro que o tutelava na Misericórdia. E do ponto de vista ideológico, Santana corre muito na mesma pista dos centristas. Sendo Rio um burocrata e Santana um afetuoso, para Cristas será mais interessante a eleição do ex-autarca do Porto, porque lhe permite ocupar o lado emocional que não joga com Rio mas onde Santana está como peixe na água. Mais: Cristas joga as fichas na eleição de Rio porque acredita que é quem tem mais capacidades para fragilizar António Costa e abrir caminho à direita.

No entanto a coisa também pode ser vista por outro ângulo. Se é para perder as legislativas, mais vale um PSD liderado por Santana, que permita aos centristas ganharem tração. Desta forma, no pós-legislativas, quando o PSD trocar de líder, Cristas já leva um bom avanço. Com Rio em jogo há um problema acrescido para os centristas: na sua agenda tem temas fraturantes como a segurança e a justiça, que já foram do CDS mas que foram sendo abandonados porque não alinham no perfil político de Cristas. Seja com Santana ou com Rio, o CDS sabe que terá de continuar a dar no duro para se fazer notar. Tão cedo não sai da oposição.

NUNO FOX/LUSA

Marcelo Rebelo de Sousa

O Presidente da República é um especialista em passar mensagens políticas tentando parecer que não o está a fazer. Não foi por acaso que em outubro recebeu o ex-provedor num almoço em Belém, já Santana era candidato (Rio optou por se reunir com Cavaco Silva). Marcelo lá inventou uma desculpa, mas aquele encontro, que podia ter sido desmarcado, foi entendido como um empurrão presidencial ao candidato que entrara mais tarde na corrida. Nos bastidores há quem garanta que Marcelo foi o grande impulsionador, através de amigos comuns, da candidatura de Pedro Santana Lopes.

Não se estranhe, se tivesse de escolher, penso que Marcelo optaria por Santana. Porque estará mais alinhado com Belém, mas sobretudo porque não poria em causa a reeleição de António Costa, essencial para que Marcelo se mantenha como contrapeso e garanta os votos socialistas para o seu segundo mandato. Rio, sendo mais previsível na forma de atuar, levanta mais “medos” em Belém pela agenda que defende, pela cisão que vai provocar no partido – sobretudo na bancada parlamentar –, mas também pela barragem que fará às pretensões presidenciais de “manipular” o PSD.

Depois há a História, Marcelo e Rio não são propriamente amigos, zangaram-se quando estavam na direção do partido. Santana e Marcelo também não são ‘bff’s’, em 2004 as críticas e a interferência do primeiro-ministro PSL levaram à saída de Marcelo da TVI. E nos últimos dois anos o ex-Provedor também não foi meigo com a atuação do Chefe de Estado.
Mas na política tudo se transforma (e nada se perde?), Santana Lopes saberá estar na onda presidencial. Não hesitará em mimetizar o Presidente, até porque já percebeu que só lhe traz benefícios. Dentro da sua imprevisibilidade de animal político, garantiria a Marcelo uma oposição mais enquadrada no quadro partidário, mas um PSD que poderia estar mais maleável aos jogos políticos de Belém e com São Bento.

Marcelo tem defendido várias vezes a importância de uma oposição forte, mas os últimos dois anos mostraram-nos como o Presidente gosta de ocupar os espaços vazios em seu proveito. Fê-lo várias vezes com o PSD de Passos Coelho e com o Governo nos dias de brasa dos incêndios e de polémicas como Tancos. Com Rio a mandar no partido, a “magistratura de interferência” de Marcelo ficará mais vezes do lado de fora dos portões da São Caetano. Nos anos em que Passos Coelho esteve na oposição, Marcelo disse e repetiu que o PSD tinha de se afirmar com mais “clareza” como “alternativa ao Governo”. O PSD vai mudar de rosto, mudará de vida?

Texto de opinião publicado no Expresso Diário de dia 10 de janeiro de 2018.

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