expresso.sapo.ptDaniel Oliveira - 13 jan 22:56

A vantagem de ser uma incógnita

A vantagem de ser uma incógnita

Se se limitar a fazer o que fez na campanha o futuro Rui Rio não é promissor. Mas se apostar num perfil de estilo cavaquista pode ser eficaz na oposição a Costa. Falta-lhe a substância política e o domínio da técnica. Falta-lhe quase tudo. Mas, ao contrário de Santana, tem algum potencial

A vitória de Rui Rio é, antes de tudo, uma derrota do “passismo” e, por interpostas pessoas, de Passos Coelho. Nem toda a máquina montada pelos agora deserdados da situação e os muitos anos de exposição mediática conseguiram impedir a derrota de Santana Lopes. Tirando este lado simbólico, não há muito mais leituras políticas a fazer do resultado. Rio fez uma má campanha, pouco clarificadora, com propostas pouco preparadas ou mesmo disparatadas e sem alimentar as esperanças que precisava. O seu começo não foi aquele com que seguramente sonhou. Venceu sem afirmar nenhum corte com o passado, mesmo que o venha a fazer. Venceu porque ninguém no seu perfeito juízo acreditava que o regresso do líder que pior resultado deu ao PSD poderia levar o partido ao poder.

Apenas três políticos portugueses regressaram à liderança dos seus partidos: Soares, que se autossuspendeu em 1980 para não fazer campanha por Eanes, Sá Carneiro, que se demitiu em 1977 para ser reeleito um ano depois, e Portas, que fez um curto intervalo de dois anos, de 2005 a 2007. Foram casos extraordinários de líderes extraordinários. O regresso de Pedro Santana Lopes à liderança do PSD seria o oposto. Não seria fácil um partido explicar ao país o regresso do candidato que conseguiu o pior resultado da história do PSD.

A cultura fortemente anti-intelectual de Rui Rio – que marca o atraso da direita portuguesa – e o pouco respeito que sempre demostrou pela liberdade de expressão e de imprensa – os jornalistas do Porto têm muito para contar – sempre me fizeram olhar para Rui Rio como um político de perfil autoritário. Depois desta campanha fiquei a achar que a coisa pode ser mais simples e pequena do que isso. A sua enorme autoconfiança, que Santana sublinhou num debate, talvez explique melhor do que qualquer convicção política a forma como lida com as contrariedades.

Esta campanha deu-nos a conhecer duas características inesperadas de Rio, pelo menos para mim: uma enorme fragilidade táctica e um saudável pudor nos métodos. As duas resultam, provavelmente, da mesma soberba. A forma como esteve nos debates, que se não corrigir o transformarão em picadinho nas mãos de António Costa, denotam a descontração de quem parece ter sobre si uma opinião exageradamente positiva. O pudor, que mostra que não está disposto a tudo para chegar ao poder, pode ser o lado simpático de quem se julgava, à partida, merecedor da liderança. Toda esta autoconfiança é estranha para quem, apesar de tudo, tem um currículo político relativamente modesto. E que, como se viu durante esta campanha, está muito longe de estar preparado para o combate mais sério que o espera. Mas pode vir a ter alguma utilidade perante um povo de direita órfão.

Será também a autossuficiência que o terá levado a dizer, ainda antes dos votos, que vai limpar o partido. A mensagem é simpática para o exterior mas totalmente descabida no interior. A promessa resultou das declarações de Miguel Relvas, quando este disse, não sem razão, que se estava a escolher um líder para dois anos. Esqueçam o mensageiro e concentrem-se na mensagem. O que Rui Rio exibiu na reação às declarações de Miguel Relvas não foi um saudável espírito regenerador, foi uma característica que todos lhe conhecem no Porto: uma enorme dificuldade em lidar com a crítica. Um defeito perigoso de que ouviremos falar mais vezes. Especialmente perigoso quando se quer fazer uma ruptura no partido e se está longe de ter sobre ele o domínio necessário. Como aconteceu com os debates com Santana, como provavelmente acontecerá no confronto com António Costa, Rui Rio pode ter a tendência para sobrevalorizar a sua força e as suas qualidades. E é nos confrontos internos que mais rapidamente se vai aperceber da distância que existe entre a sua autoconfiança e a realidade.

A correção ética que lhe é geralmente reconhecida e que eu, com os dados que tenho, não tenho razão para não acompanhar, e a retórica da mão de ferro para mudar o partido e o regime poderão ser dois importantes elementos na construção da sua imagem nacional fora do PSD. Sobretudo se a oposição se concentrar no discurso que a direita não partidária mais gosta: a acusação de que o PS convive paredes-meias com os negócios. Um discurso que tem de ignorar a própria realidade do PSD, coisa que Rio fará sem qualquer dificuldade. Mais uma vez, o problema é que isto só é possível se vier de um líder incontestado. E um líder do PSD só é incontestado se estiver prestes a liderar o país. O que vi até agora não me faz pensar que isso seja possível.

Conhecemos mal Rui Rio. Talvez essa seja a sua maior qualidade. Ele é quase uma folha em branco para quem não seja do Porto. O que quer dizer que pode escrever o que quiser, reinventando, mais uma vez, o discurso do PSD. Se se limitar a fazer o que fez na campanha, assumindo para si o legado de Passos Coelho e mostrando uma total inépcia táctica, o seu futuro não é promissor. Se, pelo contrário, apostar num perfil de estilo cavaquista, tendo até mais autoridade pessoal que Cavaco para a imagem austera, pode ser eficaz na oposição a Costa. Falta-lhe a substância política e o domínio da técnica. Falta-lhe quase tudo. Mas, ao contrário de Santana, tem algum potencial. É a vantagem de ser, para a maioria dos portugueses, uma incógnita.

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