www.sabado.ptFlash - 13 jan 01:00

Comédias de enganos

Comédias de enganos

No avião para Portugal, encontro em dois jornais duas prosas dessa entidade que dá pelo nome de “manas Mortágua”. Levanto-me, tento abrir a porta do avião (pronto a descolar) mas sou impedido de me atirar para a pista pela tripulação. “Eu não quero voltar, eu não quero voltar!”, grito

o ministro das finanças pediu dois bilhetes para ir ver o Benfica com o filho. Ilegal? Talvez não. Uma absoluta falta de tino? Seguramente. Mas o que mais espanta na polémica da semana são as explicações do ministério. "Razões de segurança", disseram-nos. Tradução: se o ministro pagasse do seu bolso e fosse para a bancada da plebe, o mais provável era ser linchado pelos No Name Boys.

A coisa soa a insulto. Como é possível que um benfiquista como Centeno tenha tão pouca confiança na sua própria tribo? Se o jogo fosse no Dragão, ou em Alvalade, uma pessoa entendia o camarote presidencial. Mas pedir protecção na Luz é passar um atestado de selvajaria aos seus camaradas de clube.
Claro que podemos imaginar um ataque ao ministro por outras razões: os benfiquistas, ou uma parte generosa deles, também vivem neste mundo e pagam os respectivos impostos. Donde, ver ali o cobrador do reino podia despertar sentimentos hostis. Mas nem este raciocínio é realista: se o País virou a "página da austeridade", o que temia o ministro?
Pedir bilhetes especiais revela hostilidade aos benfiquistas e falta de confiança no seu próprio trabalho.

REGRESSO à PÁTRIA depois de um fim-de-semana de sossego e esquecimento. No avião, passo os olhos pela imprensa nativa e encontro, em dois jornais, duas prosas dessa entidade que dá pelo nome de "manas Mortágua".
Levanto-me do lugar, tento abrir a porta do avião (pronto a descolar) mas sou impedido de me atirar para a pista pela tripulação de cabine. "Eu não quero voltar, eu não quero voltar!", grito com o desespero de um condenado. Sem sucesso. Imobilizado e resignado, sou devolvido ao assento com prédicas severas.

Admito que exagerei. As duas prosas, afinal, são textos altamente reveladores sobre as duas cabeças em questão.
Joana, por exemplo, tece loas ao golpe bolchevique de 1917. Houve milhões de mortos? Coisas que acontecem. Mas, em contrapartida, a "revolução" cumpriu o programa de Marx e contribuiu para as causas progressistas do século XX. Que a "revolução" tenha sido, na verdade, uma negação das teorias alegadamente científicas de Marx; e que as conquistas do socialismo democrático só tenham sido possíveis pelo repúdio do leninismo, eis dois pormenores que não entram na sapiência da nossa Joana.

O texto de Mariana, embora revele as mesmas dificuldades com a língua portuguesa, é dotado de um humor incomparavelmente mais subtil. Diz a deputada que, nos Estados Unidos, 46 milhões de pessoas não têm acesso à saúde. Culpa dos privados, claro, que querem fazer o mesmo com o nosso rectângulo imaculado.
Em poucas linhas, Mariana consegue falar de Saúde sem nunca referir o caos reinante das macas em recepções hospitalares e dos doentes enlatados durante dias ou semanas em salas mais típicas do Ruanda. Se isto não é uma piada genial, o que é uma piada genial?

O PSD PREPARA-SE para escolher um novo líder e eu pressinto que Rui Rio está perfeitamente sintonizado com o partido. Em 2015, com a brutalidade que lhe é característica, António Costa e os seus parceiros de esquerda derrubaram um governo democraticamente eleito pelos portugueses?

Rui Rio não tenciona imitar o gesto: se Costa tiver maioria relativa, o PSD não deve fazer ao PS aquilo que o PS fez ao PSD. Estou certo de que os militantes choraram de alegria com esta exibição de grandeza. Para que o choro fosse completo, só faltava a Rio ter dito que, mesmo que o PSD vença, perguntará sempre ao PS se ele não quer governar primeiro.
De resto, Rio não se deve intimidar pelos críticos que o acusam de querer um "bloco central" (com ele no papel de mordomo). Rio é um visionário: no debate com Santana, foi comovente a sua crítica à procuradora-geral da República. O País teve em Joana Marques Vidal um exemplo de independência e coragem para afrontar a ralé política e financeira? Certo. Mas isso é um pormenor que não compensa as fugas de informação.
Felizmente, o PS concorda e já deu a entender que o mandato da dra. Marques Vidal não será renovado. Depois deste sinal romântico, seria uma pena que os militantes do PSD não levassem a noiva ao altar.

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