expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 13 jan 21:00

De La Féria a Chopin com um toque de Bach

De La Féria a Chopin com um toque de Bach

Cultura

No final da década de 1950, o físico e romancista inglês Charles Percy Snow (1905-1980) suscitou uma intensa polémica com a sua conferência intitulada “The Two Cultures”. Referia-se à falta de diálogo entre a cultura humanista e a cultura técnico-científica. Do mesmo modo que falava de muitos cientistas por cujos olhos jamais passara uma obra de Charles Dickens, assinalava o distanciamento dos intelectuais em relação às questões da ciência. Se uns não seriam capazes de identificar uma obra de Shakespeare, os outros seriam incapazes de descodificar as leis da termodinâmica.

Fez escola, em vastos setores da ciência em Portugal, a célebre frase de Abel Salazar, colocada na entrada do Instituto de Ciências Biomédicas com o seu nome, no Porto. Dizia o mestre que “O médico que só sabe de medicina, nem medicina sabe”.

“La Traviata”, Teatro S. Carlos

“La Traviata”, Teatro S. Carlos

d.r.

Da arquitetura à investigação, são inúmeros os exemplos de homens e mulheres que souberam aliar um saber científico, mais ligado à satisfação prática de necessidades do Homem, com o indispensável mergulho nos corredores de um outro conhecimento, proporcionado pela literatura, pela arte ou pela filosofia. Daí resulta uma melhor capacidade de leitura da sociedade em que se inserem e, bem assim, das suas necessidades e anseios. É como se fora uma forma de adquirir um outro saber que os projeta para uma participação ativa no diálogo mais vasto e civilizacional das comunidades em que se inserem.

Um político que não compreenda e, mais grave, não assuma para si mesmo esta disponibilidade para se abrir à mundividência proporcionada pelo fruir cultural, seja através da literatura, do teatro, do cinema, do bailado, da ópera, da frequência de museus ou de concertos, não está apenas a descurar o que constitui a grande herança da tradição humanista europeia. Está a autoexcluir-se de uma perceção do mundo onde haja lugar para a surpresa, ou para o questionamento, pessoal e coletivo, desencadeado pelas múltiplas interrogações contidas nas grandes obras da cultura de todos os tempos.

Exposição dedicada a Almada Negreiros na F. Gulbenkian

Exposição dedicada a Almada Negreiros na F. Gulbenkian

Foto Tiago Miranda

Com uma simples pergunta, no final de uma entrevista de vinte minutos na SIC, Clara de Sousa pôde colocar a nu a fragilidade de homens que se comprazem na arrogante autossuficiência de quem tem do usufruir cultural uma noção de perda de tempo. Não lhes interessa a coisa cultural por, na verdade, não lhe descortinarem qualquer utilidade prática. Logo, é desnecessária.

O discurso é conhecido e tem muitas traduções práticas e inúmeros praticantes ativos. Rui Rio viu-se desarmado quando Clara de Sousa lhe perguntou se se recordava da última vez que fora ao teatro. Não se recordava. Penosos minutos aqueles em que o candidato à liderança do PSD se enrodilhou num argumentário pueril. Se lhe tivesse perguntado sobre cinema, talvez ainda fosse lá. Mesmo aí, só ao fim de muito tempo foi capaz de recordar que entrara numa sala no dia seguinte a ter abandonado a presidência da Câmara Municipal do Porto. Isto é, há mais de cinco anos.

João Reis em “Macbeth”, de William Shakespeare

João Reis em “Macbeth”, de William Shakespeare

Foto João Tuna

Quanto ao teatro, não chegou lá porque o arco temporal é bem mais largo. Consta que não falhava uma estreia de Filipe La Féria no Teatro Rivoli. Mesmo isso já remonta há uns sete ou oito anos. Ver os espetáculos de La Féria não teria, em si mesmo, mal nenhum, caso não se esgotasse aí a disponibilidade de Rio para as artes cénicas. Nem gosta muito de teatro, confessou. É um direito que lhe assiste. O problema está na validação de um certo alheamento cultural proporcionado por políticos - Rio é apenas a amostra mais evidente - que não só nunca vão ao teatro, como nunca são vistos num concerto, a visitar uma exposição ou a usufruir de outros espaços culturais com programação mais eclética.

É uma opção. Mas é, também, um retrato poderoso de personagens ensimesmadas e cativas das suas próprias certezas.

Santana Lopes respira o lado superficial das coisas. Esse é o seu mundo e tipifica um outro género de políticos. Também ele foi apanhado na rede.

É curioso constatar como ambos, pelo seu histórico na matéria, podiam estar mais do que preparados para enfrentar aquela última pergunta-surpresa colocada por Clara de Sousa. Não estavam.

Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música

Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música

d.r.

Após recordar a trapalhada dos concertos para violino de Chopin, a jornalista refere que Santana entretanto aprendera a tocar piano e pergunta-lhe se já sabe tocar bem alguma das peças de Chopin, esse Romântico por excelência. A resposta é todo um programa: “Não, por acaso não. Eu é mais música romântica”. Nada dessas coisas de Chopin, portanto. Clara insiste e Santana não desarma. Como gosta muito de música romântica, ele é mais Bach. Até balbucia o nome de um prelúdio do mestre do Barroco. Ainda não está nas Variações Goldberg. Pode ser que lá chegue. Chopin é que não. Nem no violino, nem ao piano.

Estes saltos de Chopin para Bach, com La Féria pelo meio, não terão a mesma complexidade da física quântica. Mas andam por aí.

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