www.cmjornal.ptPadre António Rego - 8 dez 00:30

Roubar o sagrado

Roubar o sagrado

Centros comerciais tornaram-se em grandes templos, numa diluição da sacralidade.
A festa da Imaculada Conceição é uma celebração litúrgica que revive a proclamação dum dogma recente mas de tradição longínqua. Apenas isto: a Mãe de Deus foi isenta de toda a mancha de pecado desde o primeiro momento. Como sabemos, entrou na nossa história e é a Padroeira de Portugal. Tudo se expressou dentro duma época e haverá quem, com devoção à Virgem, não encontre nesta festa o motivo maior da sua devoção.

O mundo mudou, a expressão religiosa também, surgiu a discussão se deveria ser feriado este dia que para nós é santo. De resto, os feriados foram em muitos casos um eufemismo do santo. A sociedade foi-se habituando a chamar ao dia sagrado do domingo fim de semana, apenas interregno na rotina do trabalho com o esquecimento do seu lugar histórico na fé cristã e judaica - no caso, o sábado -, que sempre zelaram para que um dia na semana fosse consagrado a Deus. Quase desapareceu ‘a roupa de ver a Deus’ e até é ao domingo que as pessoas descuidam mais o traje porque o querem mais informal e descontraído para quebrar as regras sociais que imperam durante a semana. Sabemos também como os grandes centros comerciais se tornaram em grandes templos, iguais de domingo a domingo, numa diluição da sacralidade dum dia que faz parte da história dos crentes. Mas isso está na mão dos cristãos.

Há alguns anos, a Igreja católica lançou uma campanha intitulada ‘não podemos viver sem o domingo’. Produziram-se reflexões e fez-se análise dos mecanismos sociais, dos reflexos sobre a família, a comunidade e a acentuação do religioso: a Memória da Ceia e Ressurreição. Não é indiferente que o mundo profano devore o religioso e lhe roube um espaço celebrativo expresso sobretudo na Eucaristia. Pena que se tenha reduzido a grandeza desse gesto à simples obrigação de ir à missa ao domingo. É um símbolo. Sem símbolos não passamos de cadáveres ambulantes.
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