www.jn.ptFelisbela Lopes* - 8 dez 00:02

Uma criança pode ser criança?

Uma criança pode ser criança?

As nossas crianças não têm propriamente vidas fáceis. Passam o dia entre a escola e as Atividades de Tempos Livres, ao final da tarde ainda podem ficar com alguém próximo da família que ajuda no compasso de espera para a chegada dos pais ou, então, atarefam-se em atividades extracurriculares, muitas vezes sem disso retirar qualquer prazer. Quando chegam finalmente a casa, já é tarde e ainda há que jantar e gastar uns generosos minutos com os ecrãs periféricos. Alguns também têm trabalhos da escola. Quem aguenta tantos afazeres?

O estudo PIRLS - Progress in International Reading Literacy Study, tornado público por estes dias, demonstra que 22 por cento dos alunos portugueses do 4.º ano dizem chegar de manhã à escola já cansados. Não é uma especificidade do nosso país. Os alemães, por exemplo, são piores. Eis sinais de profundas mudanças que deveriam suscitar uma análise da família e de toda a comunidade educativa. Porque ninguém consegue render quando está fatigado. Essa é uma realidade de muitíssimos estudantes portugueses, de todos os graus de ensino.

As razões para o cansaço dos mais novos são diversas, conforme a classe social, a geografia e o contexto familiar. Passa-se o dia longe de casa, janta-se cada vez mais tarde, estuda-se nas periferias da concentração, vê-se TV até horas tardias e esgota-se o serão pendurado em periféricos móveis até os olhos fecharem... É assim hoje o quotidiano das nossas crianças e dos nossos jovens, porque é assim a vida dos pais e já poucos estabelecem barreiras entre os hábitos dos diferentes membros de uma família. Com graves consequências para os mais novos. Que dormem mal e cada vez menos. Na escola, os professores sentem bem essas limitações, mas têm pouco poder para as neutralizar. Em casa, a família encara as respetivas rotinas como a imposição de um tempo novo que fixa outro modo de gerir vida de todos os dias. Alguma coisa está (muito) mal.

Uma mudança óbvia, mas também complexa, tem a ver com os hábitos que a família fez enraizar nos seus serões durante a semana. Ainda que o emprego obrigue os pais a regressar tarde a casa, seria necessário encontrar uma forma expedita de preparar mais cedo o jantar. As crianças que começam as aulas às 8.30 horas não podem jantar depois das 20.30 horas, porque, desse modo, arrastam facilmente a hora de dormir para depois das 22 horas. Também não será muito indicado prolongar os trabalhos de casa pela noite dentro. Não rende. Aí, o controlo daquilo que há para fazer pertencerá mais aos professores, mas a família pode ajudar a gerir os deveres de modo mais desembaraçado. E com maior rendimento. Arrumados os trabalhos, seria aconselhável que o lar que manda as crianças para a cama diminuísse drasticamente a agitação que ganhou naquele tempo. Como adormecer numa casa onde se multiplicam sons da TV, de SMS e das notificações das redes sociais?

Todavia, depois da idade do pré-escolar, o maior obstáculo estará nos periféricos móveis. Muitas vezes, quando vão para o quarto, muitas crianças esticam a noite até horas impensáveis, agarradas a telemóveis que as conectam em permanência com redes sociais onde se pode multiplicar conversas com desconhecidos... É preciso acompanhar com atenção os usos das tecnologias que os mais novos desenvolvem, porque os mundos digitais que se abrem num ecrã nem sempre serão benignos...

Falamos aqui de um tema sem grande valor-notícia. Todavia, há aqui uma situação de risco que todos sentimos. Diariamente. Hoje, as nossas crianças não têm o direito de ser crianças. São outras coisas. Na escola, são estudantes a quem são exigidos bons resultados em matérias curriculares frequentemente de proveito duvidoso. Em casa, são filhos de gente de vidas apressadas que integra os filhos em corridas diárias sem rumo definido. Em famílias com mais recursos, são uma espécie de miniadultos com uma agenda de compromissos a rebentar com atividades extracurriculares que (só) os pais consideram de referência. Pobres crianças, as nossas!

* PROFESSORA AGREGADA COM ASSOCIAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

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