expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 8 dez 09:00

Quem está de fora não tem noção da verdade

Quem está de fora não tem noção da verdade

Jerusalém é uma cidade de todos e uma cidade de ninguém. Era esta pelo menos a intenção das Nações Unidas ao declará-la “corpus separatum”. Mas Donald Trump acaba de mudar tudo. Ou talvez não. Ou talvez tenha mudado menos do que se pensa. Ou mais do que se pensa. Porque quem vive lá diz-nos coisas ora diferentes, ora imprevisíveis. E quem o diz e nos diz são portugueses que vivem em Jerusalém

Quando o assunto é Jerusalém, a simbologia é um rastilho. A capital de Israel não passou, de repente, a ser Jerusalém. Continua a ser Telavive, continuam lá todas as embaixadas e as sedes da maioria dos serviços administrativos. Mas Jerusalém tem sobre ela o peso da História: umas vezes partilhada, outras roubada, sempre disputada entre árabes, cristãos e judeus.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, reconheceu na quarta-feira Jerusalém como a capital de Israel, anunciando ao mesmo tempo a mudança da embaixada norte-americana para aquela região, uma decisão, afirmou, que “já deveria ter sido tomada há muito tempo”. O anúncio gerou de imediato protestos, que se espalharam como partículas radioativas por todo o mundo árabe. O líder do Hamas, Ismail Haniyeh, diz que se trata de uma “agressão flagrante” e já apelou a uma nova Intifada. A ideia é assustadora mas não tão improvável assim, pelo menos na opinião de Pedro Rodrigues, padre português a viver em Jerusalém desde 2014. “Tudo indica que é isso que vai acontecer. Ainda hoje houve uma manifestação”, conta ao Expresso a partir da Cidade Santa.

O padre de 42 anos considera que a decisão de Donald Trump “vem perturbar a tranquilidade que se vivia até agora não só em Jerusalém, mas em toda a região”. Diz que o que mais o preocupa “nem são as movimentações”, mas sim a “onda de violência que poderá instalar-se em pouco tempo”. “Neste momento, e contrariando aquilo que os meios de comunicação social costumam dizer, a nossa vida aqui é tranquila. Os peregrinos que cá vêm, e que eu acompanho, garantem-me sempre que não se sentiram inseguros durante a visita. Mas isso pode terminar rapidamente”, acrescenta.

Mais violência e mais discriminação

Além de um aumento da violência, Pedro Rodrigues teme que a mudança da embaixada norte-americana para Jerusalém, agora reconhecida como capital do país, possa aumentar a “discriminação de que já são alvo os árabes israelitas, mas sobretudo os palestinianos que têm passaporte jordano, na região”, percetível nomeadamente “no acesso ao mercado de trabalho e à educação e saúde”. O facto de Israel ser um país pequeno também pode ser uma das razões por trás deste protecionismo territorial. “A partir do momento em que há intifadas e revoltas judaicas, é normal que o Governo israelita fique de pé atrás e fomente ainda mais a discriminação. É da natureza das nações mais pequenas protegerem-se e protegerem-se discriminando os outros e impondo novas restrições”, diz o padre.

Fazendo suas as palavras do Papa Francisco, que em reação à decisão de Trump pediu respeito pela “identidade” e estatuto de Jerusalém, em conformidade com as resoluções da ONU (também apelou à “sabedoria e prudência”), o padre Rodrigues não tem dúvidas de que a medida irá colocar em causa a solução dos dois Estados. “Tanto Israel como a Palestina querem ter a sua capital em Jerusalém, duas realidades que são totalmente incompatíveis, sobretudo pelo que Israel tem vindo a fazer, com a ocupação da zona oriental da cidade, o roubo de territórios na Cisjordânia e a construção de colonatos nos territórios ocupados, transformando a região numa manta de retalhos onde é impossível viver.”

Apesar das críticas, reforça a importância de se enveredar por uma “via diplomática” para solucionar o problema. Até porque aquilo que as pessoas desejam é “apenas tranquilidade”. “É óbvio que há aqueles que vêm atiçar a guerrilha e aqueles que se lhes juntam depois, mas no geral, se perguntarmos às pessoas o que querem, elas vão simplesmente dizer-nos que querem viver em paz, sem conflitos e tensão constantes.”

Vista geral de Jerusalém

Vista geral de Jerusalém

FOTO THOMAS COEX/AFP

“Se perguntares aos árabes israelitas o que preferem, eles dizem que preferem viver numa democracia”

Souff Vaz Guedes tem 23 anos e nasceu em Jerusalém, filho de pais portugueses. É um israelita orgulhoso e, como tantos, protetor da sua terra como se ela estivesse permanentemente em risco. Ao contrário do padre Pedro Rodrigues, o estudante de fotografia na Universidade de Arte e Design Bezalel não tem dúvidas que a decisão de Donald Trump é a certa, porque “porque claro que Jerusalém é a capital por direito de Israel”, diz ao Expresso numa conversa pelo Facebook. Está consciente da sua herança, uma mistura entre polacos, portugueses e israelitas, e é essa diferença que vê - e releva - na própria cidade de Jerusalém. “Viver em Jerusalém é muito normal, as pessoas dizem que há dois povos mas, por exemplo, também há cristãos. É uma cidade muito cultural, há aqui de tudo e o que se ouve nas notícias lá fora é ‘fake news’. Eu estudo com estudantes árabes (muçulmanos e cristãos) e não se sente perigo nenhum nas ruas. Ainda há pouco tempo fui fazer fotografias para a Cidade Velha e mesmo ali não acontece nada e toda a gente sabe que sou israelita.”

Souff Vaz Guedes, 23 anos, estuda em Jerusalém

Souff Vaz Guedes, 23 anos, estuda em Jerusalém

d.r.

A decisão de Trump pôs todo o mundo em alvoroço mas, em Jerusalém, diz Souff, não se fala muito disso. “As pessoas estão completamente calmas. Quem está de fora não tem noção da verdade. Até me terem escrito para falar sobre isto, eu já nem me lembrava do que disse o Trump.” Apesar das ameaças e das palavras inflamadas dos líderes árabes, Souff não tem medo. “Não acredito que haja uma terceira Intifada porque a segurança evoluiu imenso nos últimos 17 anos, já não há quase bombistas suicidas, é muito difícil com toda a segurança no muro.”

Souff garante que os árabes israelitas que tenham passaporte não sofrem discriminação. “Os meus amigos árabes muçulmanos podem ir a todos os lugares passear onde quiserem, têm bilhete de identidade, são cidadãos, têm direito a votar, a estudar, trabalhar. Quando pergunto aos meus amigos muçulmanos se preferem ficar em Israel, onde há direitos para as mulheres, igualdade, democracia, direitos para os homossexuais, ou viver num país em que esses direitos sejam oprimidos, sei bem o que eles me respondem.” Para ele, Jerusalém sempre foi a capital de Israel e a única coisa que mudou foi o reconhecimento desse facto pelos Estados Unidos - uma coisa que, “na realidade, os Estados Unidos já deviam ter feito há muito tempo”.

Jerusalém como capital de Israel? “É normal, natural e justo”

É também assim que José Benarrosh, português de 75 anos e atual presidente da União Sefardita Mundial, se refere à decisão de Donald Trump - como “algo que já devia ter sido feito desde os primeiros anos da criação do Estado de Israel, em 1948 e 1949”. Invocando uma lei norte-americana de 1995 que solicitava a Washington a mudança da embaixada para Jerusalém - medida nunca aplicada e adiada pelos vários presidente norte-americanos, a cada seis meses, com base em “interesses nacionais”, José Benarrosh considera “uma pena” que a decisão “tenha sido adiada durante tanto tempo”. “Isto é o mais normal, natural, justo e verdadeiro. Acho que é uma decisão muito positiva. Vivem judeus em Jerusalém há mais de três mil anos.”

À esquerda, José Benarrosh, atual presidente da União Sefardita Mundial

À esquerda, José Benarrosh, atual presidente da União Sefardita Mundial

d.r.

Benarrosh, que trabalhou no Ministério dos Assuntos Exteriores de Israel durante 25 anos, não acredita que a iniciativa de Donald Trump possa obrigar a interromper de vez um processo de paz que, diz, é “apenas relativo” ou até inexistente e invisível para muitos. “Ao fim de 22 anos, já ninguém sabe se este processo tem sequer pulso. Quase não se tem feito nada. Há uma espécie de ‘modus vivendi’ em que a guerra política se mantém”, diz o responsável, mencionando as idas “contínuas dos palestinianos às Nações Unidas para acusar Israel de crimes quando é o próprio governo da Palestina a pagar uma renda aos familiares dos terroristas”. O português descarta ainda a possibilidade de o anúncio feito na quarta-feira poder levar a uma escalada violência naquela e noutras regiões. “É uma hipótese que não assusta ninguém”.

Trump prometeu e está a cumprir e isso é “positivo”

Quando Trump anunciou a sua decisão de mudar a embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém, foram muitos os que se questionaram “mas porquê agora?”. Para Roberto Shliesser, português de 63 anos que vive em Telavive, trata-se de “cumprir uma promessa feita em campanha eleitoral”. E uma promessa “positiva”, que até já deveria ter sido cumprida “há 20 anos”. Roberto Shliesser diz que o ambiente em Telavive, onde trabalha como representante de uma empresa norte-americana, é de “satisfação”. “Toda a gente com quem falei está contente. Ainda hoje de manhã, no ginásio, apercebi-me disso.” Suspeita, no entanto, que a mudança irá demorar algum tempo. “Vai ser um processo muito longo. Todos sabemos disso.”

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