www.sabado.ptFlash - 8 dez 07:00

O pequeno-almoço de hotel

O pequeno-almoço de hotel

Os primeiros parecem-me pessoas normais, os segundos também (mais tarde concluirei que de perto ninguém é normal e que o mundo está na mão dos esquisitos

O janelão virado para o mar – este mar crescido do Oeste, feito de azul Pantone 10249 C e cubos de gelo – bem tenta mas não consegue ofuscar o buffet de queijos e carnes frias. São 9 da manhã e se metade de mim parece que ficou no quarto a dormir a eles vejo-os inteiros, despertos, a desfilarem pelo salão de pequenos-almoços do hotel.

Divido-os assim: há os tímidos e há os espalhafatosos. , mas por esta altura agarro num prato e faço-me à vida). Numa mesa ao lado, dois tímidos sentam-se, pedem café com leite e batem o pé, nervosos com isto de o pequeno-almoço estar espalhado pelo salão. Ao fundo, sinalizo quatro espalhafatosos: não se sentam, não pedem nada (podem tudo) e não esperam por ninguém – quando voltam da primeira expedição ao buffet, trazem café, leite, chá, sumo e uma homenagem à participação da Dina no Festival da Canção de 1992.

Se os tímidos tomam o pequeno-almoço como se estivessem em casa, os espalhafatosos comem como se vivessem numa novela da Globo. Enquanto a mesa dos tímidos vive tempos de austeridade, a dos espalhafatosos é uma mistura de banquete romano com english breakfast – alguma vez haveríamos de provar este feijão em molho de tomate, ri-se um.

Uma hora e meia depois, sento-me na varanda a ver o mar e a escrever esta crónica. Duas varandas ao lado, um telefone toca. "Almoçar? Ainda agora acabámos de tomar o pequeno -almoço, mãe. Não, está tudo bem. Pois, fomos mais tarde e demorámo -nos", disse ela. Somos dos espalhafatosos, murmurei eu.

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