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Música. Filho Único: há dez anos a fazer acontecer a cidade

Música. Filho Único: há dez anos a fazer acontecer a cidade

Na última década a produtora, promotora e agência foi agitando Lisboa com a sua acção. Não foi só a programação musical ou os concertos memoráveis. A Filho Único, que tem no sábado, nos Olivais, a sua festa de aniversário, funcionou como embrião para o surgir de novas músicas. Lisboa hoje é outra. É cidade a várias velocidades. Daqui a mais dez anos voltamos a falar.

O nome Filho Único não costuma constar nos inúmeros artigos da imprensa internacional que nos últimos anos descobriu que Lisboa era atractiva pela escala humana, a bonomia, a boémia, o sol e o mar, mas também pelas experiências urbanas possibilitadas pela vitalidade artística mais informal e intercultural. Não são empreendedores ou incubadores, nem cabem na narrativa romanceada de que o fervilhar actual de Lisboa e Porto se deve a quem esteve fora e regressou com ideias novas. E no entanto a sua acção foi deixando lastro e sente-se. Claro que são apenas um caso no meio de outros, agentes tantas vezes invisíveis, quase sempre na sombra dos palcos, de actividade por vezes indefinida, mas capazes de fazerem acontecer a cidade.  

Na última década a produtora, promotora e agência Filho Único foi agitando a cidade com a sua acção, proporcionando inúmeras estreias em Portugal (Beach House, Jandek, Stephen O’Malley, Tony Conrad, Kurt Vile, Vashti Bunyan, Hype Williams, Jlin) ou concertos memoráveis (Panda Bear, Ariel Pink, Animal Collective, Black Lips, Keiji Haino, Shabazz Palaces, Charlemagne Palestine, Omar Souleyman, William Basinski, Sun Ra Arkestra), fazendo-o em espaços institucionais (CCB, Museu do Chiado, Culturgest, Gulbenkian), salas (Lux, MusicBox, ZDB, B. Leza), ou lugares mais inusitados como um prédio na Avenida da Liberdade, o Ateneu Comercial, a Sé Patriarcal ou o Ateneu da Madredeus.

PÚBLICO - Foto Animal Collective no CCB Vera Marmelo

Ao mesmo tempo a sua acção tem sido visível em eventos regulares, como uma noite mensal no clube Lounge, programação da Culturgest Porto, as Noites de Verão em vários espaços ao ar livre de Lisboa, ou a co-programação de festivais como Out.Fest e também o Zona Não Vigiada. Mas mais importante ainda: têm impulsionado várias clareiras do que de mais estimulante foi emergindo na última década em Lisboa em termos musicais, seja da música improvisada (Manuel Mota, Gabriel Ferrandini, Pedro Sousa), dos novos cantadores ou formações rock nascidas no contexto da editora Cafetra (Éme, Pega Monstro, Sallim), ou as movimentações afro-lusas centradas na editora Príncipe (DJ Marfox, Nigga Fox, Nídia). Ou ainda, acompanhando de perto figuras como B Fachada, Lula Pena, Tó Trips ou Norberto Lobo.

Foi depois do Norberto Lobo ter visto James Blackshaw, a abrir para a Josephine Foster, na ZDB, que percebeu que existia público que desejava ouvir guitarristas a solo. Foi a�� que pensou: ‘Espera lá! Eu também faço isto em casa!’ Nelson Gomes

Este sábado, alguns desses nomes e outros, irão celebrar os dez anos de actividade da estrutura, em concertos a solo – como o americano Panda Bear, que irá estrear temas novos – ou em grupo, como acontecerá, por exemplo, com Tropa Macaca, Vaiapraia, Ibrahima Galissa, Gabriel Ferrandini, Éme, Lourenço Crespo, Sallim, B Fachada, Gala Drop, Lula Pena, Norberto Lobo ou Tó Trips. O encontro está marcado para as 18h na SFUCO (Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense), rua Alferes Santos Sasso, 26, aos Olivais, continuando noite fora.

PÚBLICO - Foto Beach House no Maxime Vera Marmelo

Não é a primeira vez que escolhem um lugar pouco comum para ocorrências do género, embora a aventura tenha começado num local fixo, a Galeria Zé dos Bois (ZDB), em Lisboa. “Em 2003 entrei para a ZDB e começo a programar a música”, lembra Nélson Gomes, “quando passados dois meses conheço o Pedro, existindo de imediato grande empatia. Olhávamos para as coisas da mesma forma e havia urgência em mostrar coisas novas. O desafio era programar concertos de pequena escala desafiantes com regularidade, o que na altura não era comum.”

Em 2014 “fizemos 140 noites de música”, lembra, enunciando que “a sala era pequena mas a resposta grande.” Pedro Gomes, que hoje já não pertence à Filho Único, tendo abandonado a estrutura há três anos, reflecte que o que foi feito nesse período na ZDB “acabou por ser muito importante para uma série de gente, embora o volume de trabalho não nos deixasse espaço mental para pensar a fundo noutras coisas.”   

Muita gente começou a acalentar a vontade de dar a conhecer a sua música naquele ambiente. “Foi depois do Norberto Lobo ter visto James Blackshaw, a abrir para a Josephine Foster, na ZDB, que percebeu que existia público que desejava ouvir guitarristas a solo”, dá como exemplo Nelson. “Foi aí que começou a pensar: ‘espera lá! Eu também faço isto em casa!' Ou seja, havia um efeito de contaminação por parte de quem estava familiarizado com a atitude e os espectáculos que delineámos.”

PÚBLICO - Foto B Fachada no jardim do Museu do Chiado Sara Rafael

De alguma forma é como se a programação musical desses anos na ZDB tivesse funcionado, em parte, como embrião para uma nova geração de jovens músicos libertos de convenções estilísticas (Loosers, Caveira, Calhau, Tropa Macaca ou Gala Drop), que ali tiveram oportunidade de operar. Entre eles, os próprios programadores, já que Nelson é membro dos Gala Drop e Pedro dos Caveira, tendo sido nesse ambiente de cumplicidades que acabaram por trocar ideias com André Ferreira, dos Tropa Macaca, e com o baterista Afonso Simões, que desde 2009 também fazem parte da família Filho Único.

“O primeiro concerto internacional que programámos para a ZDB foi a americana Kevin Blechdom”, recorda Nelson, enumerando outros momentos marcantes como a No Neck Blues Band, Six Organs Of Admittance, Red Crayola, Black Dice ou as noites, fora da ZDB, com os Animal Collective no Ginjal em Cacilhas ou com os Buraka Som Sistema na companhia dos britânicos Digital Mystikz, no Ateneu Comercial. “Olhando retrospectivamente, parece inegável que aí se começou a desenhar algo novo, nem que seja para nós próprios”, reflecte Pedro. “Trabalhar com música é a minha forma de fazer política e isso começou aí. Não quero ter nada a ver com políticos, mas aprendi através da música a extrair consequências políticas do que faço. Acho que isso passou. Hoje vislumbro pessoas que operam nos bastidores mais conscientes de si e do alcance sociopolítico da sua actividade e, à nossa maneira, contribuímos para isso.”

Foi em 2007, depois da saída da ZDB, que Nelson e Pedro resolveram lançar a Filho Único. A produção, promoção e agenciamento de artistas era a sua principal motivação. Ao longo dos anos a aposta tem sido feita em nomes emergentes ou figuras históricas que mantém a vitalidade. Para lá dos géneros – rock, jazz, electrónicas, hip-hop, improvisada ou afro-house – o que os move é a pertinência e o caracter desafiante da música.

PÚBLICO - Foto Sun Ra Arkestra no B. Leza Vera Marmelo

“Não queríamos estar circunscritos a um só espaço e desejávamos explorar novas situações, ao mesmo tempo que queríamos dar voz aos artistas que foram crescendo connosco”, recorda Nelson, enunciando a paixão como força motriz depois da experiência da ZDB. “Havia a intuição de que havia mais coisas para fazer”, enuncia Pedro, “e quisemos dar-nos espaço para perceber o que isso era, numa lógica onde o agenciamento independente, os concertos, a prospecção de espaços e o diálogo com as instituições, faziam parte da mesma lógica. Essa descoberta do que é o agenciamento completamente punk, mas ao mesmo tempo organizado, foram marcos desse arranque.”

O entusiasmo era a palavra de ordem. “Acreditar naquilo que estávamos a fazer era o que nos movia”, adianta Nelson. “Quando se fala com alguém como o Pedro Lapa, quando estava no Museu do Chiado, naquilo que foi o embrião das Noites de Verão, ou com a Madalena Silva do B. Leza, quando fizemos o Panda Bear no antigo B. Leza, ao Conde Barão, passávamos entusiasmo. Tínhamos confiança no que estávamos a propor e mesmo quando estamos a falar de coisas que não se enquadram nos cânones do que essas pessoas fazem usualmente, a comunicação pode acontecer. E quando isso sucede é algo intenso. Mas, claro, isso não é sempre sinónimo de êxito.”

PÚBLICO - Foto Colleen na Sé Patriarcal de Lisboa Vera Marmelo

Uma das noites que não correu bem aconteceu no Lux, em 2010, com o americano Bradford Cox dos Deerhunter, que se apresentava a solo como Atlas Sound. “Ele veio dois dias antes, falámos imenso da crise económica, ele foi de uma grande generosidade tendo baixado o cachet e acabámos também por descer o preço dos bilhetes para sete euros, mas ainda assim estavam apenas 100 pessoas na sala e perdemos dinheiro.”

Entre as muitas operações bem-sucedidas encontram-se as quatro noites realizadas num edifício da Avenida da Liberdade, juntando dezenas de projectos, entre músicos e artistas. Em 2009 era ver imensa gente circulando pelos corredores de um velho edifício, perdendo-se de sala em sala, de quarto em quarto, num cruzamento feito de surpresas. Um roqueiro podia chegar lá e acabar a noite a ouvir funaná e alguém que ia para dançar podia acabar a ver uma performance do artista Pedro Barateiro.  

Promovia-se o cruzamento estético e social. Qualquer coisa que acabou por estar também na génese das noites da editora Príncipe no MusicBox, da qual a Filho Único é co-responsável, onde há quase seis anos se dança kuduro, afro-house ou funaná independentemente da idade, cor, roupa ou dinheiro na carteira.  

PÚBLICO - Foto Rhys Chatham no Chiado Vera Marmelo PÚBLICO - Foto Os alemães Faust no Barreiro, no contexto do festival Out.Fest Marta Pina

Em 2009, Pedro, dizia-nos a propósito das noites na Avenida que, para além de gostarem de “mexer em espaços da cidade”, o propósito era que “cada vez mais pessoas gostem de mais coisas, adquirido tolerância, abertura e interesse por coisas completamente heterogéneas.” Hoje, olhando para trás, Nelson admite que foram acontecimentos que deixaram rasto. “Foi um momento de potenciação de algo que estava a acontecer naquela altura e ao mesmo tempo foi intenso para uma série de pessoas. A beleza das coisas é essa: é o que fica depois do fim, é inspirar e desafiar, retirando as pessoas da sua zona de conforto. Havia avidez de estímulos e desejo de explorar a cidade. Às vezes perguntam-me porque é que não agimos da mesma forma noutras cidades. Já o fizemos. Mas é diferente, pelo envolvimento com a comunidade artística aqui. As nossas acções têm uma relação directa com as pessoas que habitam os mesmos espaços que nós. Nós não somos diferentes daqueles que queremos atingir. Essa é a força do que desenvolvemos.”

Nos três primeiros anos era uma actividade precária. “Havia uma margem de risco muito grande”, assume Nelson. Hoje já é sustentável. Para além dele, de André Ferreira e Afonso Simões, integram a Filho Único na actualidade, Vitor Lopes, André Santos e Pedro Saraiva, que se dividem pelas diversas facetas da estrutura, com o agenciamento a deter um papel importante.

“O que define as nossas propostas é um entendimento ético de criação”, analisa André Ferreira, “acreditamos na idiossincrasia. É a partir da singularidade de cada um que nascem propostas novas. E é isso que nos interessa, seja no B Fachada, no Norberto Lobo, no Ariel Pink, no Marfox ou no Nigga Fox. Crescemos de forma simbiótica com eles e acreditamos neles.”

Entre os muitos nomes agenciados, para além dos já mencionados, encontramos, entre muitos outros, os portugueses Tó Trips, Lula Pena, Pega Monstro, DJ Firmeza, Nídia, Gala Drop, Primeira Dama ou Maboku, para além dos americanos Ariel Pink, Neil Michael Hagerty, Royal Trux e Joshua Abrams, o inglês Sonic Boom ou a chilena Tomasa Del Real. Um dos casos mais destacados é o de Ariel Pink, actualmente na histórica editora 4AD, que constitui um velho conhecido dos tempos da ZDB.

“São artistas como ele que permitem que possamos arriscar com outros”, reflecte Nélson. “São frutos que recolhemos da época da ZDB baseada numa grande empatia ética. Era alguém que estava em crescimento como nós e que começamos a representar, permitindo-nos ter uma rede estabelecida de contactos pelo mundo bastante grande.” O facto de operarem à distância não constituiu entrave nos dias de hoje, avança André Ferreira, dizendo que ainda há pouco tempo organizou uma digressão de Marfox para a China e Japão, o mesmo sucedendo com os nomes internacionais que representam, ou com Norberto Lobo e alguns dos activistas da Príncipe, como DJ Firmeza ou Nídia, que actuam pela Europa.

PÚBLICO - Foto Vítor Lopes, André Santos, Afonso Simões, Nelson Gomes, André Ferreira e Pedro Saraiva Nuno Ferreira Santos

“Há coisas que se vão afinando e vai-se aprendendo”, resume André Ferreira. “Aconteceu com o Ariel Pink, da mesma forma que sucede quando se marcam datas para Inglaterra das Pega Monstro, apesar de a escala ser outra. Mas no fim de contas o que nos interessa é defender os artistas em conjunto com eles.”

Há dez anos, havia provincianismo na forma como lidávamos com a nossa música, na ressaca do Portugal que queria ser Europeu a todo o custo. Não estávamos interessados nisso, mas em fazer algo em Lisboa e em Portugal, puxando pelas pessoas daqui Pedro Gomes

Algo semelhante diz Pedro quando reflecte sobre os primórdios do projecto. “Havia um pacto com os artistas. Se eles queriam fazer uma coisa diferenciadora, nós iriamos apoiá-los, dando-lhes espaço físico para tocarem e o devido contexto para as pessoas os conseguirem entender. E foi isso que se fez. Há dez anos, em Portugal, eramos críticos da nossa própria produção. Havia um certo provincianismo na forma como lidávamos com a nossa música, na ressaca do Portugal que queria ser Europeu a todo o custo. Nós não estávamos interessados nisso, mas sim em fazer algo em Lisboa e em Portugal, puxando pelas pessoas daqui, para elas terem disponibilidade em assumir a sua singularidade.”

Há dez anos Nelson e Pedro, os fundadores da Filho Único, chegaram a acalentar o desejo de partir. Sentiam que a crise económica, a massa crítica enfraquecida ou o ambiente social desigual fustigava a sua acção. Mas em vez de saírem, optaram por ficar. Não o fizeram no vazio. Perceberam que o potencial estava aqui. Sentia-se depressão, mas também havia vontade.

Havia gente interessada em ouvir e criar música desafiante que fugisse aos cânones ou aos circuitos normalizados. Ao mesmo tempo emergia uma nova geração de músicos e de público que se reconciliava com a memória da música feita em Portugal. Havia um sentimento de pertença interna e uma rede de cumplicidades externa providenciada pelo ecossistema digital. Enquanto isso uma fervilhante realidade intercultural projectava-se, ao mesmo tempo que se vislumbrava um crescente interesse pelo país, verificável até pelo facto de músicos estrangeiros se enamorarem por Lisboa, acabando por ficar ou acalentando essa aspiração.

Faltava activar esse potencial, promovendo ligações e sabendo comunica-las. Actuando nos interstícios, pequenas estruturas como a Filho Único fizeram a sua quota-parte nesse processo. Agora o contexto mudou. Existe uma cidade a várias velocidades. Falta estimular ainda muito do que não existe, mas também urge preservar o que de bom subsiste, tentando que Lisboa não seja vítima do seu sucesso. Daqui a mais dez anos voltamos a falar.

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