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Entrevista. “Lisboa é uma paragem perfeita para uma corrida à volta do mundo”

Entrevista. “Lisboa é uma paragem perfeita para uma corrida à volta do mundo”

O PÚBLICO fez a primeira entrevista a Richard Brisius, o novo CEO da Volvo Ocean Race.

Quando no final de Setembro, a menos de um mês do início da Volvo Ocean Race 2017-18, o inglês Mark Turner anunciou a sua demissão de CEO daquela que é considerada a mais difícil prova de circum-navegação por equipas em barcos à vela, o rumo que a competição iria seguir num futuro próximo ficou com um grande ponto de interrogação à frente. A Volvo, no entanto, foi rápida a resolver o problema e encontrou a solução em casa. O escolhido para o lugar de Turner, que abandonou o cargo por discordar, entre outros aspectos, com a periodicidade do evento, foi Richard Brisius, um sueco com um vasto currículo na Volvo Ocean Race: esteve ligado como velejador ou director de equipas em sete edições da prova nos últimos 28 anos. Em entrevista ao PÚBLICO, a primeira a um órgão de comunicação social desde que foi indicado, a 15 de Novembro, como presidente da Volvo Ocean Race, Brisius jogou à defesa sobre o rumo que a prova seguirá após a presente edição, mas não descartou a possibilidade de os barcos Volvo Ocean 65 voltarem a ser utilizados e revelou o desejo que Lisboa, “uma paragem perfeita para uma corrida à volta do mundo”, continue a ter um papel de relevo numa competição que é “uma maratona que nunca acaba, onde se joga xadrez o tempo todo”.

Foi anunciado como presidente da Volvo Ocean Race (VOR) a 15 de Novembro. Que balanço faz destas primeiras três semanas no cargo?

Têm sido semanas intensas, com muitas reuniões e conversas com as diferentes equipas que estão a participar nesta edição da VOR. Tenho mantido igualmente contactos com as diferentes pessoas que fazem parte da organização, e com os responsáveis pelos diversos stopovers. No fundo, tem sido um restabelecer de relações e contactos. Felizmente já conhecia quase toda a gente. De uma ou outra forma, trabalhei com este evento quase toda a minha vida.

 Quais são as principais dificuldades que espera encontrar?

Para já, a principal preocupação é que tudo corra bem na presente edição da prova. É importante garantir que tudo continue a decorrer da melhor maneira possível e que seja proporcionada a melhor experiência para os participantes, espectadores e adeptos que acompanham a prova. Quanto a desafios futuros, as grandes dificuldades serão para os participantes.

Como referiu, está ligado à prova há quase 30 anos. Como é que a descreve?

Acho que ninguém consegue ter a percepção da dificuldade com que os velejadores se deparam. É uma corrida muito intensa e dura. Não consigo encontrar nenhuma outra competição desportiva tão difícil e desafiante. São semanas de vida dura, com condições para dormir e de alimentação muito duras. Tudo isto com uma competitividade enorme e barcos sempre muito próximos uns dos outros durante dias e dias. A VOR é uma maratona que nunca acaba, onde se joga xadrez o tempo todo.

Mark Turner, o anterior presidente da VOR, anunciou em Maio grandes mudanças no figurino da prova para o futuro. Vai manter o plano definido pelo seu antecessor?

Não posso dizer muita coisa sobre esse assunto neste momento. Estamos em conversações, mas o objectivo claro é dar um passo em frente e tornar a corrida ainda melhor. Para mim há a grande responsabilidade de manter um legado de 45 anos. É uma história fantástica. As questões sobre quando será a próxima edição ou que barco será utilizado na corrida são importantes, mas no final do dia a VOR manter-se-á a mesma. Continuará a ser uma corrida à volta do mundo nos mesmos oceanos onde os navegadores portugueses velejaram há centenas de anos.

Um dos anúncios feitos por Mark Turner foi a utilização nas regatas offshore de um novo barco, o VOR 60. É uma decisão para manter ou admite que a próxima edição ainda seja com os actuais VOR 65?

Ainda não há qualquer decisão sobre isso. Neste momento, todas as possibilidades estão em aberto.

Qual é a sua opinião sobre o VOR 60? Há quem defenda que é um barco demasiado audaz, radical e dispendioso…

Pelo que me foi dito por quem trabalhara no seu desenvolvimento, é um barco fantástico, com um conceito de design único, mas ainda não tenho informações suficientes para dar uma opinião definitiva.

Outra das possíveis alterações seria o aumento dos stopovers. No actual figurino da prova há 11 pernas. Admite que esse número possa aumentar?

Como está, parece-me bem e não me parece que seja necessário mais ou menos stopovers. A primeira corrida, em 1973, parou na Cidade do Cabo, em Sydney e no Rio de Janeiro. Agora quantas paragens há? Onze? Não me parece que seja necessário aumentar o número actual.

Na VOR 2014-15 foi o director geral da Team SCA, uma equipa com tripulação exclusivamente feminina. Qual é a sua opinião sobre as novas regras para esta edição, que permitem tripulações mistas?

Gosto desta solução. É muito boa para o desporto da vela e permite que as mulheres participam de uma forma natural. Estou muito satisfeito com esta solução.

Portugal tem vindo a reforçar a sua posição na VOR…

Estive em Lisboa no stopover há três anos e foi fantástico. Lisboa é uma paragem perfeita para uma corrida à volta do mundo pelo que é hoje e pela herança do passado. Há duas edições Portugal teve pela primeira vez um stopover e agora já tem também o boatyard, um barco e três velejadores… No futuro, tudo pode acontecer. O céu é o limite. Seria maravilhoso ter uma participação portuguesa ainda maior.

Pelo menos 15 cidades candidataram-se a receber o boatyard da VOR. Quais são as possibilidades de Lisboa manter o estaleiro da prova?

Sei que há negociações em curso entre a cidade e a organização da corrida. Espero que sejam bem-sucedidas. Não estou directamente envolvido nessas negociações, mas pelo feedback que tenho, têm sido muito positivas, com um espírito positivo para que tudo se repita no futuro. Esperemos que sim.

O PUBLICO viajou a convite da Dongfeng Race Team

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