observador.ptJosé Milhazes - 8 dez 08:32

Vladimir Putin e o fim da “Época das Convulsões”

Vladimir Putin e o fim da “Época das Convulsões”

Resta saber com que percentagem Putin irá vencer as eleições presidenciais de Março. É que o Kremlin quer uma vitória com 70% dos votos num escrutínio com igual número de afluência às urnas.

Vladimir Putin não é muito dado a improvisações e, por isso, não foi por acaso que escolheu Nijni-Novgorod para anunciar uma “nova” há muito esperada: a sua recandidatura, pela quarta vez, ao cargo de Presidente da Rússia.

“Em Nijni reuniu-se o exército popular que, depois, libertou Moscovo dos invasores, pôs fim à chamada “Época das Convulsões”. E, a propósito, depois disso, começou um impetuoso desenvolvimento do Estado Russo uno, centralizado, poderoso”, declarou ele perante os trabalhadores de uma das maiores fábricas de automóveis da Rússia situada nessa cidade”, acrescentando que “foi precisamente durante a Grande Guerra Pátria que se forjou, em medida significativa, a espada da vitória que conduziu o nosso povo à vitória nessa guerra”.

Para se perceber melhor o programa político de Vladimir Putin é preciso mergulhar na História e compreender o que foi a “Época das Convulsões”. Tratou-se de um período da História da Rússia, compreendido entre 1598 e 1613 e que ficou marcado por calamidades naturais, guerra civil, invasão do país por tropas polacas e suecas e uma profunda crise social, económica e política. Um interregno entre as dinastias dos Riurikh e dos Romanov, a luta pelo poder entre os boiardos.

Putin, com esse discurso, quer frisar que pôs fim a uma época semelhante, que começou com a derrocada da URSS em 1991. Segundo a fábula, ele acabou com os oligarcas, com o separatismo, com a demasiada influência ocidental, recuperou a Crimeia.

A alusão à Grande Guerra Pátria (como é conhecida a Segunda Guerra Mundial na historiografia russa) apenas reforça o papel que Vladimir Putin chama a si na História do seu país.

A este propósito, é de realçar que, no mesmo dia em que ele anunciou a sua recandidatura, afirmou também que o Estado Islâmico estava completamente derrotado na Síria.

“O ministro da Defesa informou que as operações nas margens oriental e ocidental do Eufrates terminaram com a derrota total dos terroristas. Claro que ainda podem existir alguns focos de resistência, mas, em geral, o trabalho militar, nesta etapa, neste território, terminou, repito, com a derrota total dos terroristas”, lê-se na página oficial do Kremlin.

A partir de agora resta saber com que percentagem Putin irá vencer as eleições presidenciais de Março. Não obstante o grande número de potenciais candidatos, o Kremlin quer uma vitória com 70% dos votos num escrutínio com igual número de afluência às urnas. Algumas sondagens, como a realizada pelo Instituto Levada Center, dá-lhe uma vitória com 53% dos votos, o que seria claramente um mau resultado para um político com ambições universais. Mas, na actual situação, não será muito difícil adaptar os resultados à vontade das necessidades do poder.

E surge um novo tabu: será que, em 2024, se chegar ao fim do quarto mandato, abandonará o poder? Se ele e a sua corte acharem necessário, encontrarão razões para justificar a sua permanência no Kremlin como “pai da nação”, “líder insubstituível”, etc. Resta saber se as mudanças no mundo e dentro do próprio país não irão confundir as cartas aos dirigentes russos.

P.S. Estou de acordo com os analistas que afirmam que Vladimir Putin ganhará, a curto prazo, com a desastrosa decisão da mudança da embaixada dos Estados Unidos de Telavive para Jerusalém. Mas poderá ser uma vitória de Pirro, pois irá obrigar o Kremlin a um envolvimento cada vez maior e oneroso no Médio Oriente.

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