24.sapo.ptSamuel Úria - 8 dez 10:52

Embrulha!

Embrulha!

Nas duas próximas crónicas que escreverei antes do Natal, talvez repita este exercício com livros e discos. Seguem então as minhas recomendações cinematográficas. Não lhes chamo “recomendações natalícias”, porque ...

Nas duas próximas crónicas que escreverei antes do Natal, talvez repita este exercício com livros e discos. Seguem então as minhas recomendações cinematográficas. Não lhes chamo “recomendações natalícias”, porque essas, basicamente, são “Paz na Terra entre os homens de boa vontade”.

Recomendação 1:

“Shadowlands – Dois Estranhos, Um destino” (1993, de Richard Attenborough)

Por dois motivos, não me vou coibir de incluir spoilers: primeiro, porque este filme ronda personagens reais, uma delas com enorme relevo na literatura do séc.XX – só nos faz bem saber a sua história de antemão. Segundo, porque estas recomendações são para ofertas natalícias; basta que não contem os spoilers à pessoa contemplada.

Poucos filmes me comovem como o “Shadowlands”, o relato da história amorosa entre C. S. Lewis e Joy Davidman, e uma das melhores e mais esperançosas obras cinematográficas sobre o sofrimento (não espelhasse ela o assombroso testemunho de Lewis).

A primeira vez que o vi, tinha acabado também de assistir ao “Laços de Ternura” (1983, de James L. Brooks). Os filmes têm em comum a actriz Debra Winger, em ambas as histórias a interpretar uma personagem ceifada pelo cancro. No oscarizado “Laços de Ternura” confesso que a cancerosa Debra Winger, ali a definhar no leito de morte, tocou-me muito pouquinho. O James L. Brooks não me fez gostar da sua personagem principal, nem sequer próximo do quanto o Richard Attenborough me fez amar a cancerosa Debra Winger de “Shadowlands” - cada segundo de vida que lhe restava fazia-me vê-la em cena como um ente querido: presente como os entes, imortal como os queridos. Aquele leito de morte transportava uma amargura que nem o mais lancinante melodrama me tinha dado a provar.

Mais tarde revi o “Shadowlands - Dois Estranhos, Um Destino” (ai, esta criatividade bizarra nos títulos...) algures por altura da entrega dos Oscar. Lembro-me, porque foi no ano em que o “Discurso do Rei” (2010, de Tom Hooper) se destacou com 4 estatuetas. Relaciono os dois filmes por isto: tanto o “King’s Speech” como o “Shadowlands” partilham, para além da teatralidade construída em torno de uma história real, o mesmo rigor britânico – muito televisivo – na reprodução e reconstituição de épocas e personagens/caricaturas históricas.

Só que o elemento que falta ao “Discurso do Rei” para ser um filme mais que mediano, encontro no “Shadowlands”: a contenção! A contenção de sentimentos, que espera o momento certo para se revelar em emoção - eis a verdadeira destreza inglesa. Reside ali a classe do filme de Attenborough, na contenção forte para emoção forte. A contenção não admite um tartamudear constante entre o dever e o espalhafato (como no filme de Hooper). A contenção é precisa, eficaz, subtil, mas explosiva.

O único gaguejo que temos em Shadowlands está quando a contenção, finalmente, abre brechas. Os discursos precisos e elevados de C.S. Lewis (interpretado pelo melhor, e mais contido, Anthony Hopkins) rompem, tornam-se imprecisos e humanos; o sofrimento afigura-se como maravilhosa epifania, das mais comoventes que já vi em filme.


Recomendação 2:

"O Homem Que Sabia Demais" (1956, de Alfred Hitchcock)

Este é um remake que o próprio Hitchcock fez dum filme seu. Embora o original de 1934 seja excepcional (com Peter Lorre a interpretar um vilão memorável), esta versão dos anos 50 tem inúmeros motivos que a tornam recomendável. Basta-me 1.

Há uma sequência no Royal Albert Hall que dura 12 minutos. São 12 minutos que valem por 120 anos de História do cinema. Sequência tão grandiosa que nem se dá ao trabalho de disfarçá-lo. Tão grandiosa que até os personagens, por respeito, não fazem soar uma única palavra que nos distraia.

A última vez que a revi, reparei em como tudo o que ali era inventivo ou artístico - a passada nervosa, a edição frenética, os enquadramentos arriscados e originais – usa-se hoje em dia no cinema de massas. A intenção pode não ter vindo para o presente, mas veio a plasticidade, quer por influência directa do Hitchcock, quer por influência dos seus bons imitadores (como aquele De Palma que palma coisas ao Alfred), quer por imitadores de imitadores de recicladores de telefones avariados hitchcockianos. Ainda assim, nenhum thriller dos nossos dias optaria por intercalar suspense com desespero a contrapelo. Mas cada vez que, na cena tensa do Albert Hall, o filme vai parar às lágrimas de Doris Day, o mundo fica mais rico.

Há ali uma contraproducência que hoje ninguém arriscaria: quebrar o sensacionalismo da acção para que nos foquemos no drama da personagem de Day (que salvando uma vida põe a do seu filho em risco). Isto leva-nos a crer que havia um homem que sabia demais, seu nome Alfred Hitchcock.

Sobre o original e o remake, disse o próprio realizador: “Digamos que a primeira versão era a obra dum amador talentoso, e a segunda é obra dum profissional”. A imodéstia soa tão bem de vez em quando.

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