observador.ptobservador.pt - 7 dez 22:15

Donald Trump desdenhava do lóbi pró-Israel. Mas depois fez-lhe a vontade

Donald Trump desdenhava do lóbi pró-Israel. Mas depois fez-lhe a vontade

No início da sua campanha, Trump fazia pouco dos adversários que tinham o apoio do poderoso lóbi pró-Israel dos EUA. Mas mais tarde conseguiu o seu apoio — e com ele vários milhões em contribuições.

Durante os anos de Barack Obama, o poderoso lóbi pró-Israel, um dos mais influentes na política norte-americana, teve uma espécie de travessia no deserto. Apesar de terem doado perto de 45 milhões a políticos democratas (contra quase 30 milhões a republicanos) enquanto ele foi Presidente, Barack Obama esteve por detrás de duas decisões em tudo contrárias àquilo que o lóbi pró-Israel defende. Primeiro, o acordo nuclear com o Irão, o maior rival de Israel na região do Médio Oriente. Segundo, a cerca de um mês de deixar a Casa Branca, Obama permitiu que o Conselho de Segurança da ONU condenasse os colonatos israelitas para lá da Linha Verde de 1967.

Durante grande parte da sua campanha, Donald Trump indicava que, no que toca a Israel, iria fazer tudo diferente do seu antecessor. Ora, passado pouco mais de um ano da sua eleição, e menos de 12 meses depois da sua tomada de posse, o Presidente dos EUA não tem perdido tempo a cumprir as suas promessas no que diz respeito à questão israelita. Depois de muita especulação, Donald Trump recomendou em outubro ao Congresso a retirada dos EUA do acordo nuclear com o Irão — um passo essencial, já que é àquele órgão que compete a votação final. E esta quarta-feira desafiou o consenso internacional e fez dos EUA o único país a reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, um gesto simbólico que preocupa vários líderes internacionais e já levou o Hamas a apelar a uma nova intifada.

Decidi que chegou a altura de reconhecer oficialmente Jerusalém como a capital de Israel. Enquanto presidentes anteriores fizeram esta enorme promessa durante as suas campanhas, todos falharam e não a cumpriram. Hoje, estou a cumpri-la”, disse Donald Trump esta quarta-feira.

Porém, o que a história recente de Donald Trump sugere é que, apesar de agora fazer alarde desta sua decisão, o atual Presidente dos EUA nem sempre demonstrou a mesma firmeza pró-Israel. Só passou a fazê-lo de forma clara depois de receber o apoio político e monetário de alguns dos doadores judeus e pró-Israel da política norte-americana, inclusive Sheldon Adelson, o maior empresário do negócio dos casinos do mundo e um amigo próximo do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.

Quando Donald Trump desdenhava o lóbi pró-Israel

Diz o ditado que “quem desdenha quer comprar” e Donald Trump cumpriu essa máxima com Sheldon Adelson. Em outubro de 2015, quando já estava em campanha mas muito poucos pensavam que ele podia chegar à Casa Branca, Donald Trump acusou o seu adversário Marco Rubio de ser o “fantochinho perfeito” daquele magnata judeu. “Sheldon Adelson está a ver se dá uns bons dólares ao Rubio porque acha que consegue moldá-lo e fazer dele o seu fantochinho perfeito. Concordo”, escreveu em outubro de 2015.

Sheldon Adelson is looking to give big dollars to Rubio because he feels he can mold him into his perfect little puppet. I agree!

— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) October 13, 2015

Dois meses depois, em dezembro de 2015, Donald Trump esteve reunido com o próprio Sheldon Adelson. No final da reunião, o magnata dos casinos disse: “Foi muito agradável (…) Ele foi muito cativante”. E Donald Trump adotou uma linguagem mais positiva para falar do mesmo homem que acusava de querer ter fantoches na política. “O Sheldon sabe que ninguém vai ser mais leal a Israel do que o Donald Trump”, disse. E acrescentou: “O Sheldon e eu já somos amigos há muito tempo. Ele é um homem incrível. Sou o único que não precisa do dinheiro dele, mas adoraria ter o seu apoio”.

Sheldon Adelson, magnata dos casinos, é um dos maiores doadores do lóbi pró-Israel nos EUA — e também apoiou Donald Trump, com vários milhões de euros (Win McNamee/Getty Images)

Em fevereiro, Donald Trump teve um deslize quando disse que ia tentar ser “neutro” na mediação do conflito entre Israel e a Palestina. Em março, voltou a agradar ao lóbi pró-Israel quando falou no seu maior evento anual: o congresso do American Israel Public Affairs Committee (AIPAC). Também passou por lá Hillary Clinton — que teve a difícil tarefa de, sem a antogonizar, convencer a plateia dos méritos do acordo nuclear com o Irão —, mas foi Donald Trump que disse o que mais colhia naquela sala.

Vamos transferir a embaixada americana para a eterna capital do povo judaico, Jerusalém. E vamos enviar um sinal claro de que não há nada que separe a América do nosso aliado mais confiável, o Estado de Israel”.

No início de maio, o Presidente norte-americano tornou a responder “presente” a uma das causas da ala mais conservadora do lóbi israelita, em declarações ao Daily Mail. Quando lhe perguntaram sobre a continuação da construção de colonatos israelitas, que as Nações Unidas condenam, Donald Trump disse: “Não, acho que não deve haver uma pausa. Repare: há mísseis a serem lançados contra Israel. E Israel nunca foi tratado como deve ser pelo nosso país. Tem noção do quão devastador isso é?”.

Uma semana e meio depois, também em maio, Sheldon Adelson deu não só o seu apoio político a Donald Trump, como o seu apoio financeiro. Segundo os relatos que surgiram na imprensa, Adelson de um total de 45 milhões de euros que doou a políticos republicanos, 25 milhões foram diretos para grupos de ação política de apoio a Donald Trump. Se o número por si só diz pouco, o seu significado aumenta quando colocado ao lado dos 18,3 milhões que Donald Trump declarou ter investido na sua própria campanha.

Além de Sheldon Adelson, Donald Trump contou com o apoio financeiro de outras influentes personalidades que apoiam e sustentam o lóbi pró-Israel, como o empresário e dono da equipa de futebol americano New England Patriots, Robert Kraft, ou o empresário Paul Singer, que passou de crítico anti-Trump a seu defensor. Ainda assim, é com os democratas que o lóbi pró-Israel continua a gastar mais dinheiro — um sintoma de que naquelas fileiras ainda há quem falte convencer para a causa israelita, ao contrário do que se passa entre os republicanos.

Tillerson não queria embaixada em Israel, mas Trump explica: “A decisão final é minha”

Fast-forward para 2017.

Em junho deste ano, Donald Trump chegou a hesitar e voltou a fazer o mesmo que os seus antecessores fizeram sucessivamente desde que, em 1995.O Congresso aprovou o Jerusalem Embassy Act: aprovou a decisão de transferir a embaixada para Jerusalém. Nessa altura, muitos voltaram a reforçar a ideia de que, afinal, o lóbi pró-Israel não tinha tanta força quanto isso. Porém, a nota emitida pela Casa Branca nessa altura deixava margem para uma démarche no futuro próximo. “O Presidente Trump tomou a decisão de maximizar as oportunidades de negociar um acordo entre Israel e os palestinianos, cumprindo a sua obrigação solene de defender os interesses da segurança nacional da América. Mas, uma vez que ele tem repetido a sua intenção de transferir a embaixada, a questão não é se a mudança vai acontecer, mas quando“, lia-se naquela nota.

Jared Kushner, genro e conselheiro superior de Donald Trump, que é judeu ortodoxo e conhece Benjamin Netanyahu, tem conduzido a política da Casa Branca para Israel (ETTORE FERRARI/EPA)

Nessa altura, sabia-se que o Secretário de Estado norte-americano e chefe da diplomacia dos EUA, Rex Tillerson, não estava de acordo com essa mudança — conseguindo adiar essa decisão. Recentemente, surgiram relatos de que Donald Trump estava já a preparar a substituição de Rex Tillerson. Além disso, não faltaram as notícias de que Donald Trump retirou várias vezes dossier de Israel das mãos do seu Secretário de Estado, entregando-a nas mãos do seu genro e conselheiro superior, Jared Kushner, judeu ortodoxo que conhece Benjamin Netanyahu desde criança.

Dias depois das notícias que indicavam que Rex Tillerson estava por um fio, o Presidente foi igual a si próprio e disse que era fake news e fez por elogiar o seu Secretário de Estado. Porém, não deixou de aproveitar a oportunidade para dizer que os dois estão em desacordo “nalguns temas” e para deixar claro quem mandava: “A decisão final é minha”. E foi — mesmo que para isso tenha tido um empurrão.

1
1