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“In vino veritas”

“In vino veritas”

Desde que ocorreu a domesticação da videira a partir das parentes selvagens que a cultura vinícola se confunde com a história da própria Humanidade. Inicialmente, as uvas serviam apenas como fonte acessível de alimento, mas, com o evoluir do conhecimento acerca das suas características e técnicas de fermentação, o seu prestígio aumentou.
Em Portugal, a viticultura é uma atividade de primordial importância. Em 2016, atingiu lugar de destaque, elevando Portugal a décimo primeiro produtor mundial, com um retorno económico na ordem dos 700MJ em exportações. Pela diversidade de castas autóctones e condições particulares do território nacional, Portugal apresenta um elevado potencial para se destacar na produção de vinhos de elevada qualidade, com características singulares e diferenciadoras e grande potencial de globalização. No entanto, para atingir este potencial, é indispensável aperfeiçoar a cadeia produtiva. Atualmente, o setor profissional da vinha e do vinho utiliza novas técnicas e tecnologias provenientes do conhecimento científico nacional e internacional.
É neste contexto que o BioISI – Instituto de Biossistemas e Ciências Integrativas* – dedica uma grande parte da sua atividade de investigação à área da vinha e do vinho, de forma a contribuir não somente para a promoção da viticultura sustentável, mas também para a valorização da cadeia produtiva.
Portugal é um dos países com maior número de castas autóctones com grande potencial enológico, o que permite uma valorização económica focada em vinhos de denominações de origem. Desta forma, a investigação desenvolvida em estreita colaboração com o Banco Português de Germoplasma (INIAV - Dois Portos, Torres Vedras), onde estão representadas todas as castas tradicionais, visa a caracterização do seu potencial para a indústria vitivinícola. Por outro lado, as doenças causadas por fungos, nomeadamente o míldio da videira, afetam significativamente a produção. Em consequência, os viticultores aplicam preventivamente fungicidas durante toda a época de cultivo, o que representa um aumento do custo económico e impacto ambiental negativo para este setor. Uma das áreas de investigação do BioISI é focada na resistência a estas doenças, desenvolvendo técnicas para a identificação precoce de plantas infetadas, potenciando a redução da aplicação de fitofármacos em prol de uma viticultura mais sustentável. Outra área de intervenção está relacionada com a caracterização dos mecanismos de defesa em plantas mais tolerantes a estas doenças de forma a identificar compostos naturais com aplicação biotecnológica, visando o desenvolvimento de biofungicidas. Em colaboração com diversos institutos europeus, o BioISI está ainda a desenvolver tecnologia para identificar marcadores de resistência a doenças da vinha. Estes biomarcadores apresentam um elevado potencial económico de aplicação em programas de melhoramento varietal, para obtenção de castas resistentes.
As alterações climáticas verificadas nos últimos anos, por via do aquecimento global, aumentam o conteúdo de açúcar das uvas, elevando o teor alcoólico do vinho no processo de fermentação e prejudicando os interesses dos consumidores e produtores. Outra das vertentes da investigação do BioISI consiste na identificação e caracterização de leveduras para produção de vinhos com menor teor alcoólico. Ainda nesta área destaca-se o trabalho efetuado em parceria com a indústria no desenvolvimento de uma tecnologia que permite a redução de custos no fabrico tradicional de vinhos espumantes. A obtenção de um vinho espumante requer uma dupla fermentação e uma etapa final lenta e complexa de remoção dos fermentos (“remuage”). Esta nova tecnologia permite a produção de leveduras encapsuladas para vinhos efervescentes, tornando o processo de “remuage” mais eficiente e reduzindo os seus custos.
A promoção da sustentabilidade e competitividade económica, ambiental e cultural da indústria vitivinícola deverá assentar em estratégias de inovação associadas a investigação diferenciadora que valorize os recursos autóctones.

* Criado em 2015, o BioISI – Instituto de Biosistemas e Ciências Integrativas – é um centro multidisciplinar de investigação coordenado pela Faculdade de Ciências Universidade de Lisboa, com pólos em várias instituições académicas e de investigação nacionais, assumindo como missão ser líder no estudo de sistemas biológicos complexos e na transferência de valor para a sociedade e setor produtivo nas áreas da Biomedicina e Biotecnologia.
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