visao.sapo.ptMiguel Araújo - 7 dez 08:42

AZ

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Quando fui ver o concerto dos Azeitonas já ia sem falsas expectativas em relação à tão desejada catarse. Foi dos concertos de que mais gostei na vida

D.R.

Eu tenho um problema em relação a ir a concertos. Como estou demasiado deformado pela proximidade (é essa a minha vida), estou logo à partida arredado da possibilidade de comungar da catarse coletiva para que todos os espetáculos, idealmente, tendem. Estou irremediavelmente por dentro. Conheço os camarins, a parte de trás. É como entrar pelas traseiras de um restaurante: não se deve. Há lixo amontoado, caixotes empilhados, gente a fumar. É como a parte de trás dos eletrodomésticos, há coisas que não é para ver. E isso acontece-me nos concertos. Conheço demasiado bem o desgaste das montagens, as discussões, as coisas que correram mal de tarde, a dificuldade que foi com a carrinha do material, as ribaltas a interferirem com o áudio, os ruídos, o homem da luz pendurado em escadotes a apontar focos, o do som a fazer a vida negra a toda a gente com a calibragem do P.A., com Cds de demonstração da Roland. Em qualquer sala de espetáculos deste país já sei onde é que a equipa jantou, sei os dois pratos que estavam à disposição (o Road Manager andou de pessoa em pessoa a pôr cruzinhas, filetes de pescada ou grelhada mista), olho para os músicos e consigo intuir quem foi filetes, quem foi grelhada, sei da correria, sei dos alertas (digestivos à parte). Sei da azáfama dos convidados de última hora (afinal o primo vem com a namorada), da impressão dos alinhamentos no escritório do teatro (vamos lá ver se há impressora), as idas à casa de banho. Ainda nem o concerto começou e eu lá sentadinho, espectador sabido e calejado por estas aviltantes bolandas, a sofrer por empatia com tudo aquilo que os outros não vêm. Tenho a alma ímpia, corrompida por estas andanças. Ainda nem o pano subiu e já eu estou exaurido. “Each man kills the thing he loves”, escreveu o Oscar Wilde, e eu necessariamente matei uma coisa que adorava, que era ir a concertos. Agora imagine-se isto tudo, mas num concerto com um reportório, na sua maioria, da minha própria autoria. Não só conheço os meandros supramencionados, como também conheço os caminhos escuros e obtusos por onde as canções andaram até repousaram no ouvido do incauto espectador. Quando fui ver o concerto dos Azeitonas na semana passada na Casa da Música, já ia sem falsas expectativas em relação à tão desejada (porém irremediavelmente perdida) catarse. Ia participar, mas ainda assim pedi ao Sarmento se me deixava ver o concerto da frente. Foi dos concertos de que mais gostei na vida. As razões afetivas, pelo facto de se tratar da banda da minha vida, e por ter sido um orgulhoso membro por mais de 14 anos, quando muito concorrem para o inverso. Em princípio, teria um olhar meramente analítico, oposto ao olhar ingénuo, que é o que permite gostar de qualquer coisa. Eu estava na primeira fila (o pior lugar para se ver concertos), sozinho numa das pontas, e vibrei genuinamente com o concerto, como se não conhecesse aquela malta de lado nenhum. Dei por mim a cantarolar aquelas músicas como se não as conhecesse pelas traseiras. A maneira como elas foram esquartejadas e modificadas, sem qualquer reverência pelas versões originais, vai completamente contra aquilo que é o meu olhar obtuso, quadradão, dogmático, em relação a estas matérias. Tenho a certeza que eu seria uma voz antagónica, se ainda tivesse alguma dentro da banda. Mas ainda bem que não tenho. Sempre andei à turra e à massa com o Salsa para que ele não se pusesse com fantasias. Mas ainda bem que ele se pôs. Foi outra banda, aquela que ouvi. Diferente em muitos aspetos. Melhor que nunca. O Marlon e a Nena com uma segurança como eu nunca vi, arranjos de uma exigência e de um requinte que nunca se vê ao vivo, pelo menos que eu saiba. Por uma vez na vida, desde que me dediquei a esta, pude ser mais uma entre as mais de mil almas que vibraram com o concerto dos AZ na sala grande da Casa da Música, pequena de mais para o que ali se viu e ouviu. Obrigado Salsa, Marlon e Nena, obrigado (mais uma vez), AZ

(Crónica publicada na VISÃO 1291, de 30 de novembro de 2017)

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