www.vidaeconomica.ptSusana Almeida - 7 dez 19:19

E se “riqueza” já não for o que julgamos?

E se “riqueza” já não for o que julgamos?

Os tempos são de tal forma mutáveis que, ao longo destes últimos anos (sim, últimos – não precisamos de recuar muito no tempo), temos tido um desenvolvimento desmedido em muitas frentes e, até, em conceções que, até agora, pareciam indestrutíveis. Verdadeiros “axiomas” que têm vindo a ser deitados por terra. Um deles é o conceito de “riqueza”.

Se lhe pedir para se idealizar num “estado de riqueza” titanesco, o que lhe vem à cabeça? Já pensou? Então, provavelmente está a idealizar residências enormes, em formas de palacete e com piscina, uma garagem repleta de carros topo de gama, iates, um avião particular para viajar por todo o mundo, entre tantas outras coisas… E se agora lhe pedisse para idealizar um “estado de riqueza” monstruoso face às grandes empresas que conhece? O que lhe chega, de imediato, à cabeça? Se me permitir, vou atrever-me a tentar desvendar, novamente, o que raia nas suas redes neuronais neste momento: uma empresa forte, consolidada, com uma quantidade colossal de ativos (com um sem número de subsidiárias, infraestruturas e filiais espalhadas por diferentes pontos do globo). Dito por outras palavras, com um “ativo tangível” de valor (quase) inestimável.
A verdade é que o desenvolvimento atroz tem posto em xeque inúmeras asserções que, até à data, dávamos por garantidas. O conceito de riqueza é uma delas. A cada dia que passa, o conceito de “riqueza” tem deixado de estar tão intimamente ligado à tangibilidade. Talvez o que lhe queira transmitir seja mais claro se falarmos em termos empresariais: se outrora as grandes empresas eram aquelas que mais ativos tangíveis e valiosos detinham, com grande foco nas empresas na sua vertente industrial e de produção massificada, hoje a tendência dita-nos o crescimento exponencial de instituições que não têm – por simplificação de expressão – “algo de palpável”.
Inspirado pelas palavras de Tom Goodwin [«something interesting is happening»], vejamos alguns casos notórios. Bitcoin: futuramente um dos maiores “bancos” do mundo, sendo uma moeda digital – a primeira criptomoeda descentralizada. Uber e Cabify: são, atualmente, os maiores serviços de táxis do mundo e não possuem qualquer frota, apenas disponibilizam software que facilita “transações” entre pessoas que necessitam de transporte e pessoas que detêm veículos. Facebook: a maior rede social e umas das empresas mais bem cotadas do mundo, que não gera conteúdo – isto é, apenas se alimenta do conteúdo gerado pelos seus utilizadores. Alibaba: um dos mais valiosos retalhistas mundiais, que não possui inventário. Airbnb: uma plataforma em ascensão exponencial, sendo já considerada por muitos como o maior provedor de alojamento do mundo, sem possuir quaisquer tipologias de habitação. Instagram: a mais valiosa companhia “fotográfica”, que não vende material fotográfico e – a par do Facebook – não gera conteúdo. WFG: uma das maiores entidades de serviços financeiros, que não “possui” quaisquer produtos financeiros.
Em suma, a grande “riqueza” e, inerentemente, os futuros grandes milionários não serão (na sua grande maioria) aqueles que apostam em ter grandes ativos tangíveis e construir infraestruturas megalómanas por diferentes pontos do globo, por vezes com níveis de risco e endividamento elevados. Serão, antes, aqueles que simplesmente facilitam, em mercados digitais extremamente bem delineados, que outras partes se contactem e realizem transações de serviços ou de bens físicos.
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