www.jn.ptCristina Azevedo* - 7 dez 00:01

Herói improvável!

Herói improvável!

Já foi dito por muitos, mas é a mais pura verdade: Mário Centeno não era um vencedor anunciado; muito pelo contrário, tinha todas as condições para ser um fugaz responsável de uma pasta árida e exposta, sujeita a ódios internos e indigestas admoestações europeias.

Quis o destino e o trabalho coletivo dos últimos anos que Centeno tivesse sobrevivido incólume internamente e, por isso, se tornasse numa hipótese viável e, sobretudo útil, para a presidência do Eurogrupo.

A única dificuldade real que defrontou foi mesmo a discrepância significativa entre o que propôs enquanto coordenador do grupo de mais de um dezena de economistas que preparou o programa do Partido Socialista pré-governo e o que encabeçou como responsável da pasta. Com uma espécie de habilidade passiva, fez de conta que era tudo parecido e lá se avançou.

A partir daí, sem espinhas, gozou do prestígio que confere a qualquer ministro das Finanças a economia a crescer e o desemprego a baixar. A crise, ainda recente, não permite nem ao ministro nem ao povo exagerar na largueza do cinto o que lhe mantém o défice no sítio. Uma excelente gestão da carteira de dívida, assegurada por Cristina Casalinho no IGCP, que aproveita a maré das boas condições de financiamento que o BCE ainda nos proporciona, dá também bons resultados naquilo que é ainda um dos nossos maiores bloqueios.

O destino trouxe-nos, infelizmente, graves preocupações com a tragédia dos incêndios e outros colegas de Governo têm proporcionado gaffes suficientes para que os holofotes se desviem de uma pasta que, normalmente, é um verdadeiro fusível.

A solução governativa, por outro lado, funciona, em rigor para as Finanças e para quase todo o resto, como um escudo protetor contra as perturbações de rua que tanto consumiram os elencos governativos anteriores. O PCP e o BE só agora começam a querer voltar às reivindicações clássicas, no conteúdo e no modo, mas até Mário Nogueira é uma sombra de outras guerras.

Por último, mas não menos importante, parece ser muito conveniente ao status quo europeu ter na liderança do Eurogrupo um país do Sul que sofreu a receita da austeridade do Norte e que agora aparece como um caso de sucesso.

É útil para a retórica dos superavitários.

Poderá ser muito incómodo, a breve trecho, para Mário Centeno e António Costa.

* ANALISTA FINANCEIRA

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