www.dn.ptPaulo Tavares - 7 dez 00:00

Opinião Da Direção - Trump e a vitória da ironia

Opinião Da Direção - Trump e a vitória da ironia

Há momentos em que a ironia toma conta do mundo. Há semanas, Donald J. Trump usou a sua hiperativa conta de Twitter para dizer que tinha sido contactado pela revista Time, que iria ser eleito homem do ano (o título é um politicamente mais correto "pessoa do ano") e que tinha recusado porque a coisa implicava uma sessão fotográfica demorada e uma entrevista, algo que ele, líder do mundo livre, não estava para aturar.

No mesmo dia, o presidente dos Estados Unidos foi desmentido pela Time e ontem, passadas duas semanas, o homem que é acusado por pelo menos 16 mulheres de ter tido condutas menos próprias e a roçar o abuso sexual, ficou a saber que o prémio ia para as silence breakers (numa tradução possível, aquelas que quebraram o silêncio). É aqui que entra a ironia. A Time escolheu as mulheres que decidiram dar um passo em frente e contar a sua história enquanto vítimas de abuso sexual ou violação. O diretor da Time justifica a escolha: "Tornou-se uma hashtag, um movimento, um acerto de contas." A revista elegeu exemplos. A atriz que denunciou o todo-poderoso Harvey Weinstein, a jovem engenheira informática que com um post no blogue levou ao despedimento do fundador de uma startup de Silicon Valley, ou a trabalhadora da apanha de morangos que ouviu estas histórias e decidiu contar a sua. São apenas exemplos. A hashtag #metoo dominou as redes durante semanas. A Time não sabe se esta é uma revolução - ninguém sabe -, mas afirma que, "como todas as grandes mudanças sociais, esta começou com atos individuais de coragem". Vale uma capa.

Mais ironia? Triste ironia. Na véspera do anúncio da Time, Trump usou o Twitter para declarar o apoio ao candidato republicano ao Senado, pelo Alabama, Roy Moore. Roy, de 70 anos, é acusado, entre outros casos de abuso sexual de menores, de ter "namorado" com uma rapariga de 14 anos quando tinha 32 e era procurador. Trump apoiou e o partido republicano retomou o financiamento da campanha de Moore. Será certamente mais preocupante, para o andamento do mundo, a decisão anunciada ontem de reconhecer Jerusalém como capital de Israel, mas o que o resto da história nos diz sobre quem está aos comandos da América é, no mínimo, perturbador.

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