www.vidaeconomica.ptSusana Almeida - 7 dez 19:15

A “fábrica enferrujada”

A “fábrica enferrujada”

O “Fórum da Indústria Têxtil”, que ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal organizou pela décima nona vez, na passada semana, foi, provavelmente, a melhor e a mais rica das edições, pela qualidade dos participantes e pela substância e alcance das comunicações.

Na realidade, Pedro Ferraz da Costa, Presidente do Fórum da Competitividade, Mira Amaral, Administrador da SPI, Carlos Costa, Governador do Banco de Portugal, e Daniel Bessa, comentador residente do Fórum da Indústria Têxtil desde o seu início, todos coincidiram nas preocupações sobre a economia portuguesa, especialmente por identificarem que o PIB efetivo se encontra, de momento, acima do PIB potencial, o que significa uma anomalia no funcionamento da economia, mais concretamente um sobreaquecimento, que, mais ou cedo ou tarde, trará consequências nefastas para o futuro do país.
Como se explica este fenómeno, que, obviamente, o Governo ignora, desvaloriza ou, ainda pior, oculta: a capacidade produtiva do país encontra-se esgotada, estando a ser utilizados todos os recursos disponíveis, incluindo o capital humano, que, apesar da taxa de desemprego se situar na casa dos 8%, a verdade é que as atividades industriais se encontram no pleno emprego, uma vez que, além de não acharem trabalhadores disponíveis, as empresas já disputam com a concorrência a contratação de mão-de-obra.
Na feliz expressão de Mira Amaral, a “fábrica está enferrujada”, pois, tal como um carro que se desloca acima da sua velocidade máxima, usando a inércia ou até colocando em perigo os seus passageiros, a economia portuguesa já usa os seus fatores produtivos acima da sua capacidade competitiva, suportando a sua velocidade de crescimento em artifícios perigosos, como o exponencial aumento da dívida externa ou o consumo privado, modelo que não tardará a condenar o país a novo resgate.
Ainda na mesma linha, importa referenciar os alertas do Governador do Banco de Portugal, que enfatizou o facto de o problema da economia portuguesa não ser a falta de financiamento, pois liquidez existe e as taxas de juro estão a níveis novamente muito baixos, mas sim a boa utilização dos recursos existentes, que, além de escassos, são normalmente mal aplicados. Esta última questão é exclusivamente de “governance” ou de gestão das empresas, que nem sempre distinguem o que é propriedade e gestão, que raramente olham a sua organização a longo prazo e, portanto, atuam sem visão estratégica, que se recusam a reforçar os capitais próprios, assumindo o risco, optando pelo crédito bancário, fragilizando de forma sistemática o seu funcionamento e comprometendo naturalmente o seu crescimento a prazo.
Estas não são boas notícias, ao contrário do que o Governo e certa imprensa comprometida politicamente costuma propagandear, atendendo-se à ilusão da aparência de felicidade, que a habitual irresponsabilidade indígena se encontra já a vivenciar e convencida que durará para sempre.
O caminho escolhido por este Executivo e suportado pela coligação de esquerdas no Parlamento – que começa a exibir um desgaste indisfarçável – mostra a sua inadequação face às circunstâncias do momento e mais ainda do futuro. A reposição de rendimentos, a reversão de medidas de austeridade e aposta no consumo privado, em consequência, como o “drive” principal do crescimento económico, estão concluídas e, mais do que isso, esgotadas. Nada mais existe que justifique a “aliança” espúria do Partido Socialista com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, razão pela qual se multiplicam as fissuras na sua frente comum, mostrando, como sempre se soube, que há mais um imenso universo a separá-los do que um pequeno momento que os uniu.
António Costa, que é um político esclarecido e calculista, conhece bem os dados da equação e não sabe ainda como há resolvê-la. Sabe que provavelmente não haverá novo acordo, nem sequer para o próximo Orçamento de Estado, pelo que a economia tem de ser pensada com sustentabilidade e com estratégia, o que implica ouvir as empresas e os empresários, reganhando a sua confiança, contrariando a habitual aversão ou até ódio da extrema-esquerda à iniciativa privada, pois só assim poderá manter a economia numa trajetória ascendente, baseada nas exportações e no investimento. Além disso, terá de aguardar o desfecho da disputa pela liderança do PSD, para poder projetar uma nova aliança parlamentar, pois só ao centro poderá governar.
Nada disto é fácil e nada disto está garantido, até porque o caminho é estreito e a “fábrica enferrujada” só se reabilita com a confiança do investimento, com produtividade e geração de valor, afinal a inversão de tudo o que temos assistido: assegurar que produzimos antes de distribuirmos e só distribuir na medida do que produzimos. Esta máxima, que parece um jargão óbvio, andou esconjurada nos últimos três anos, mas a realidade voltará a impô- -la, pois nada como a força dos factos para destruir a fantasia dos argumentos.
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