visao.sapo.ptAdolfo Mesquita Nunes - 7 dez 08:37

O regresso do interior ao discurso político

O regresso do interior ao discurso político

Opinião de Adolfo Mesquita Nunes

O regresso do interior ao discurso político seria positivo não fosse a circunstância de este se limitar às ideias e propostas que há décadas se executam sem sucesso aparente.

Na verdade, não houve governo que não tivesse tentado discriminar positivamente o interior, procurando combater as desigualdades face ao litoral. O problema nunca esteve na ausência de verbas ou programas para o interior, esteve sempre, isso sim, nas más políticas e nas más lideranças, que nunca souberam gerir essas verbas e esses programas.
Porque digo que temos tido más políticas e más lideranças para o interior?

Em primeiro lugar, porque temos uma perspetiva política que valoriza a despesa. O critério de avaliação das políticas é o montante gasto, nunca a sua adequação. Quando um governo quer valorizar algo, o que promete? Quando um presidente de câmara requer apoio, de que fala? De mais milhões. Sucede que muitos milhões mal gastos não servem de muito, e muitos se perguntam no interior para onde foi tanto milhão para tão pouco resultado.

Em segundo lugar, porque temos uma visão infraestrutural do progresso. A teoria é simples e diz que não há mais gente no interior porque não há mais infraestruturas. Quando um governo quer desenvolver um território, o que anuncia? Quando um presidente de câmara pede atenção, o que pede? Mais infraestruturas. Sucede que as infraestruturas não chegam para trazer pessoas e temos um interior cheio de infraestruturas, com pavilhões e piscinas e centros de congressos e rotundas e pontes e viadutos e sedes associativas, tudo isso mas sem gente.
Em terceiro lugar, porque temos uma visão municipal do interior. Não se olha para ele como um território com três ou quatro centralidades motoras, mas antes como uma federação de concelhos ou uma liga de comunidades intermunicipais. Quando um governo anuncia algo num sítio, o que faz? Apressa-se a prometer o mesmo no concelho do lado, satisfazendo as reivindicações do seu autarca. Sucede que não há estratégia de sucesso que dependa de centenas de concelhos, cada um com a sua estratégia, competindo entre si, dividindo recursos sem coordenação e escala.

Em quarto lugar, porque temos um poder autárquico que não responde fiscalmente perante os eleitores. As câmaras não cobram impostos para sustentar as suas obras, pelo que os eleitores são incentivados a pedir mais e mais. Quando um autarca quer mostrar o quão eficaz é, o que promete? Mais obras. Sucede que o interior está sem empresas e sem criação de emprego e para isso não são precisas mais obras mas competitividade para a captação de investimento, especialização inteligente, aposta nos recursos endógenos, nova industrialização, tudo coisas que demoram tempo a executar e não dão votos imediatos.

Em quinto lugar, porque temos facilidade em decidir sem conhecimento aprofundado. Não só há poucos estudos a explicar por que razão as pessoas saem do interior como também os não há sobre de que forma, e onde, podemos criar novas centralidades. Quando um governo lança estratégias, como o faz? Com base no “acho que” e sem avaliar a estratégia anterior. Sucede que não há forma de rompermos esta tendência de desertificação sem conhecimento sobre o que falhou.
Dito isto, o que há a fazer, para além de repensarmos estes aspetos que descrevi? Deixo duas propostas, que demoram o seu tempo a executar mas que são essenciais.

Primeira. Não podemos continuar a não saber o que andamos a fazer. Temos de estudar, e bem, por que razão as pessoas saíram do interior, se estão dispostas a voltar, se é possível dar-lhes o que elas querem para voltar (se elas querem um interior com tudo o que tem o litoral, podemos? Devemos?). Temos de estudar, e bem, onde podem ser as novas centralidades motoras do interior, capazes de ter escala suficiente para atrair gente e massa crítica e assim combater o despovoamento (podemos continuar na ideia de que todos os concelhos podem ser uma cidade a competir com as do litoral?).

Segunda. As infraestruturas não servem de nada se não houver criação de emprego, se o ambiente empresarial não for atrativo, se não for possível e fácil arriscar ideias e negócios. Se houver tudo isto, as infraestruturas aparecem, impõem-se. Devemos permitir uma espécie de zona franca regulatória e tecnológica no interior, um estatuto que o torne a mais atrativa zona da Europa para iniciar um negócio, para estudar, para ensinar. Esta proposta implica fazer alterações institucionais e políticas relevantes, assim como a tratar de forma diferente as estruturas que já lá existem, a começar pelas universidades.

Se não atuarmos aqui, nunca conseguiremos fazer nada de relevante pelo interior, e não há milhões que o salvem da desertificação.

(Crónica publicada na VISÃO 1291 de 30 de novembro)

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