www.dn.ptAdriano Moreira - 15 nov 00:00

Opinião - A carência de projetistas da paz

Opinião - A carência de projetistas da paz

O castigo da Torre de Babel não foi apenas uma intervenção para o desentendimento linguístico dos que projetaram chegar aos céus, desafiando a autoridade divina, porque os efeitos colaterais desse castigo, que perduram, são o ter contribuído para impedir que a longa teoria dos projetistas da paz tenha conseguido impor o que continua a ser uma utopia, a definitiva preservação da paz.

A grave insegurança em que a época presente se encontra, talvez não encontre inspiração capaz de a melhorar relembrando as derrotas dessa tarefa não recompensada. Mas os autores merecem ser lembrados, porque foram beneméritos cuja memória pertence ao património imaterial da humanidade em risco. Uma evolução que hoje ultrapassa largamente os que enfrentaram a situação do mundo em que viveram, sendo visível que atualmente a própria ciência e tecnologia sem consciência ameaça rudemente o futuro. Talvez projetistas da paz seja Pierre Dubois, que no século XIV escreveu o De Recuperatione Terrae Sanctae, dirigido a Filipe, o Belo, em particular, e aos príncipes cristãos em geral. Mas, para responsáveis ocidentais de hoje talvez seja mais útil reler o projeto de 1464, de Jiri Podêbrad, rei da Boémia, propondo uma federação europeia contra a ameaça que então era a dos turcos.

Outros se seguiram, até ao mais célebre, que foi Kant, que publicou em 1794 o seu Projeto Filosófico de Paz Perpétua, mas sem esquecer, do lado protestante, o de William Penn, fundador da Pensilvânia, que em 1693 publicara um Essay Towards the Present and Future Peace of Europe, The Establishment of an European Diet, Parliament, or Estates, de que talvez encontrem um útil exemplar na Casa Branca. Infelizmente continua vigente, e mais inquietante, o comentário atribuído a Frederico da Prússia, referindo-se a um projeto do Abade de Saint-Pierre, dizendo que a tal projeto faltava apenas o consentimento das potências. E ainda não eram visíveis os avanços da ciência e técnica sem consciência, que nesta data ameaça desencadear um conflito não apenas entre potências ocidentais, não apenas causador de uma mortandade e destruição crescente, na linha que, num passado não muito afastado, levaram a identificar com números as duas guerras mundiais como que prevendo uma repetição.

Quando os investigadores americanos, em cumprimento de encargo governativo, tornaram possível a utilização militar da energia atómica, avisaram, e sem êxito, as autoridades, que essa capacidade não deveria ser usada em conflitos, baseados, sem necessidade de mais explicações de praticantes da ciência com consciência, depois dos resultados inquietantes da experiência. O bombardeamento do Japão, que ainda não foi decidido tendo em conta o globalismo para onde evoluímos, provocou um alarme mundial quando as primeiras imagens publicadas feriram a piedade dos vivos, sem distinção de etnias, culturas, e religiões. Todavia, independentemente das tentativas de conseguir uma organização da governança, agora mundial, que nunca mais cometesse a quebra selvagem da paz, a advertência dos investigadores que apelaram para o necessário impedimento de usar militarmente o arsenal do poder atómico, a sua razão evidenciada pelo lembrado resultado obtido, foi apagada pelo descaso dos responsáveis, conduziu à circunstância atual de estar no poder de governantes, de saber e prudência inconfiáveis, uma cascata atómica que, se usada, destruirá o planeta. Não se trata de prospetiva sem fundamento, não é tema que dispense uma reação da opinião pública mundial, a tempo de impedir o desenvolvimento catastrófico da quebra da paz. Já é alarme suficiente o facto de o titular do maior poder militar mundial, que é o único com experiência histórica de que a tentação de usar tal arma é irresistível, também considera que invocar o risco ambiental é uma leviandade (usando uma liberdade semântica mais surpreendente), e que o acordo defensivo internacional em vigor, por seu lado, é de ignorar.

É, neste ponto, animadora a declaração de um respeitado estadista americano, no sentido de que o povo americano não está de acordo com a presidência atual do seu país, cujo mandato tem limite temporal curto. Infelizmente o risco não tem igual medida do tempo. Um tempo que é de carência de projetistas da paz para um globalismo que se instalou sem projeto, e fazem falta na governança a reinventar. Não parece haver instância internacional, com suficiente autoridade e audiência, para travar o crescimento, incluindo os abusos verbais, das provocações que reciprocamente praticam os responsáveis principais pelo eventual passo em frente da quebra da paz: salvo o poder da voz da ONU, à qual a sociedade civil mundial conceda a capacidade de parar a voz descontrolada do poder.

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