www.jn.ptManuel Serrão * - 15 nov 00:02

Esta palavra saudade

Esta palavra saudade

Apesar do título, que ninguém fique à espera de uma crónica nostálgica, porque para mim esta palavra saudade só tem serventia quando serve para falar do futuro. Comigo só podem contar para ter saudades do futuro, no duplo sentido de um futuro que tem passado ou de um passado que nos ajuda a perceber no presente como projetar o futuro.

Esta palavra saudade... foi um dos versos cantados por Simone de Oliveira no fabuloso espetáculo a que tive o privilégio de assistir este fim de semana no Coliseu. Há alguns meses já tinha tido a oportunidade (e fi-lo por gosto, como se fazem os filhos na eterna "Desfolhada") de a ver cantar numa noite mágica da nova vida do Pérola Negra e tinha ficado espantado com o seu vigor e o seu profissionalismo numa idade que não esconde, mas engana.

Talvez por isso, não foi a boa forma da cantora o que mais me espantou e maravilhou no Coliseu. Nesta espécie de autobiografia, mais do que autorizada, participada, o que mais me encantou foi a forma superior como o espetáculo e todos os seus intervenientes contam e cantam a vida extraordinária desta fantástica e verdadeira artista de variedades (Simone teve uma vida muito variada, mas teve sempre a arte de aproveitar os gostos e fintar os desgostos). Onde outros fariam uma lamechice sem fim nem tino, que só poderia agradar aos fãs de Simone do tempo da "Desfolhada" e do "Sol de Inverno", o que pude ver (e pelos vistos ainda poderá ser visto até ao fim do ano noutros pontos do país) foi um espetáculo com ritmo, narrativa e encenação contemporâneos, onde se combinam harmoniosamente os ingredientes necessários para agradar a várias gerações. Fui ao Coliseu em família e pelo menos três gerações, da minha mãe às minhas sobrinhas, na casa dos 20, o aplauso foi unânime.

Poderá ser ignorância minha, mas não deve ser fácil montar um espetáculo de homenagem a uma artista viva, que ainda por cima está vivíssima da silva no palco, não está petrificada no Panteão, nem moribunda na plateia, que mostre tudo o que a sua vida foi, sem esquecer que continua a ser. Sempre disse que gosto das homenagens que se fazem em vida, mas imagino como deve ser difícil para a Simone reviver passados e pessoas no meio das pessoas do presente, às centenas, ali a olhar para ela. Difícil e seguramente emocionante. Como também estou certo que será terrível para quem com ela contracena, não perder a deixa, nem deixar a concentração quando passavam por ela no palco do Coliseu, como ela passou por todos nós, nos Rossios e outros palcos da sua vida. Terrível e de uma emoção sem fim.

Este espetáculo podia ser uma metáfora artística de um país de sucesso, onde os mais velhos, como Simone, não adormecem à sombra da reforma, os consagrados na força da vida, como José Raposo ou Maria João Abreu, não se incomodam com uma estrela maior e os mais novos, como o FF, não se acomodam à primeira noite de glória.

Esta palavra saudade... Não há verso, sem reverso? Logo na noite seguinte voltei ao Coliseu para ver o espetáculo dos 50 anos de Gal Costa. Voltei a chorar, mas agora cada cêntimo dos bilhetes que comprei! Como Simone, Gal Costa continua viva e a cantar, mas sem ninguém que a defenda ou saiba defender, como Simone se defende e tem quem a defenda magistralmente! No dia anterior vi 50 anos a desfilarem com beleza, garra e elegância, ainda por cima muito bem acompanhados. Com a cantora brasileira vi como os mesmos 50 anos podem ser pesados num palco, num registo quase solitário, que resultou num espetáculo pobre, que se arrastou no mesmo palco onde Simone arrasou. O nome dela continua a ser Gal, mas Portugal merecia outra Gal no Porto.

Aqui está uma saudade aparentemente sem futuro.

* EMPRESÁRIO

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