expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 15 nov 12:03

De herói a ditador. Os 37 anos de Mugabe no poder

De herói a ditador. Os 37 anos de Mugabe no poder

Caído em desgraça no Ocidente, o Presidente zimbabwiano é o mais velho chefe de Estado do mundo, mas a situação política do país é agora uma incógnita. O possível golpe de Estado desta quarta-feira torna incerto o futuro do homem que conduz o Zimbabwe desde a independência

É o mais velho chefe de Estado do mundo, a controlar as rédeas do Zimbabwe desde que o país conquistou a independência, em 1980, ainda que tenha começado por ocupar o cargo de primeiro-ministro. Robert Mugabe tem 93 anos e sempre teve pulso de ferro, aliado a uma especial vocação para silenciar todas as oposições.

Nem o passar dos anos, nem os supostos problemas de saúde o fizeram vacilar. Mugabe nunca fez planos para se afastar, não sendo certo se está agora fora do poder – à força – depois de o Exército ter anunciado esta quarta-feira a detenção do ainda Presidente. Os militares negam estar em curso um golpe de Estado.

Pelo contrário, um porta-voz do Exército confirmou que Mugabe está em segurança, não tendo, contudo, revelado qual o seu paradeiro.

Longe vão os tempos em que ao ex-professor era vaticinado um futuro ao estilo do de Nelson Mandela, na África do Sul. São dessa fase os elogios aos programas de construção de escolas, hospitais e casas para a anteriormente marginalizada maioria negra. Vieram depois (ou deixaram de ser escondidos) os métodos sombrios, consolidados em práticas de repressão e adoção de medidas económicas desastrosas, que o levariam a ser rejeitado pela maioria da comunidade internacional, para quem não passa de um ditador.

É preciso recuar muito para recordar as suas origens. Mugabe nasceu a 21 de fevereiro de 1924, perto de Kutama, a nordeste de Salisbury (agora Harare, a capital do Zimbabwe), no que era ainda conhecido como o território da Rodésia.

Preso por “discurso subversivo”

Antigo professor primário, com sete graus universitários, Robert Mugabe começou por dar nas vistas depois de travar uma sangrenta guerra de guerrilha contra os governantes coloniais brancos, que o mantiveram preso durante 10 anos, acusado por ter feito o que foi considerado um “discurso subversivo, em 1964.

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Saiu em liberdade decidido a abalar a estrutura política da então Rodésia, apelando a uma onda de indignação popular contra os governantes racistas. Já casado com Ghanaian Sally Hayfron, que foi a sua primeira mulher (enviuvou em 1992), cruzou a fronteira para Moçambique e daí liderou uma guerrilha de oposição ao governo de minoria branca, lutando pela independência.

A assinatura do acordo de paz de Lancaster House (em Londres) permitiu-lhe regressar. Voltou como um herói, aclamado pela maioria negra, tornando-se primeiro-ministro em 1980, já com o país independente e recém-renomeado como Zimbabwe.

A preocupação social foi um facto. Que evidenciou, a par da determinação em acabar (literalmente) com os opositores políticos, na altura encabeçados pelo nacionalista Joshua Nkomo. Perto de 20 mil pessoas terão morrido durante os massacres de “Gukurahundi”.

Campanhas violentas e acusações de fraude

A violência tem sido uma das suas marcas, conduzindo purgas contra as vozes indesejadas dentro do seu próprio partido, o Zanu-PF, e arranjando forma de vencer todas as eleições.

Mugabe assumiu a presidência do país em 1987. Começou por abolir o papel do primeiro-ministro, para se encarregar depois da expulsão da maioria dos fazendeiros brancos, impor uma legislação homofóbica, assumindo a cada passo um perfil mais e mais autoritário.

Foram particularmente violentas as campanhas eleitorais em 2002 e 2008. Mas apesar das mortes e das sucessivas acusações de fraude e de manipulação das listas eleitorais, Mugabe foi reeleito em 2013 para um novo mandato de cinco anos.

Já este ano, num comício, a sua atual mulher – a muito controversa Grace Mugabe (mais nova 42 anos e com quem se casou em 1996) –, garantia mesmo que o Presidente se recandidatará no próximo ano, mesmo que morra antes. “Se Deus decidir levá-lo, candidatá-lo-emos como cadáver”, afirmou.

Caído em desgraça no Ocidente, Mugabe viu multiplicar as sanções contra si e os seus principais colaboradores, mas tem continuado a merecer o apoio da maioria dos africanos, satisfeitos com os seus discursos anti-imperialistas e as suas provocações.

A agitação política recente, depois de a 8 de novembro o Presidente ter demitido da vice-presidência Emmerson Mnangagwa, aliado do chefe do exército e veterano da luta do país pela independência, pode ser a chave para entender a intervenção militar desta quarta-feira.

Mugabe acusou Mnangagwa de mostrar “traços de deslealdade”, afastando um dos seus últimos aliados da luta pela libertação do país, mas também aquele que era apontado como o seu possível sucessor, o que foi interpretado como uma forma de abrir caminho para a atual primeira-dama.

Mnangagwa acabou por deixar o Zimbabwe, o que só veio dar força aos que acusam Mugabe de trair a revolução, a grande ferida aberta entre o Presidente e vários grupos de líderes veteranos de guerra.

É incerto o que vai acontecer no país. Mas o seu histórico Presidente pode ter visto chegar ao fim o seu longo reinado.

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