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Educação. Telemóvel na sala de aula: sim ou não? Especialistas dividem-se

Educação. Telemóvel na sala de aula: sim ou não? Especialistas dividem-se

O telemóvel já entra na escola, mas pode ser usado como um instrumento de trabalho? A discussão começa ao início da tarde, em Lisboa.

O telemóvel entra na escola com a conivência dos pais, é usado no recreio, serve para filmar indevidamente a professora a ser empurrada por uma aluna; para gravar a lagarta na comida, mas também pode ser usado para fazer pesquisa, aprender a seleccionar informação, em suma, para aprender. “Telemóvel na sala de aula: sim ou não?” é o tema que vai ser debatido em Lisboa, ao início da tarde desta quarta-feira, numa organização da Edulog, da Fundação Belmiro de Azevedo (fundador da Sonae, grupo de que o PÚBLICO faz parte).

Portugal é dos países europeus onde os jovens estão mais dependentes das novas tecnologias e, apesar de a UNESCO, em 2014, ter aconselhado a utilização do telemóvel nas escolas, a verdade é que este é pouco usado, reconhecem todos os intervenientes neste encontro com quem o PÚBLICO falou. 

João Trigo, director do Colégio Efanor, em Matosinhos; Júlia Vinhas, psicóloga do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil (Cadin), em Setúbal, e Ivone Patrão, do ISPA e da consulta de dependência de Santa Maria, defendem que o telemóvel não deve entrar na sala de aula. Já Eduarda Ferreira, investigadora envolvida no EU Kids Online Portugal (estudo europeu sobre o uso das novas tecnologias pelos jovens); Filinto Lima, da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas; e João Couvaneiro, que foi considerado um dos melhores professores do mundo, são a favor.

“Pode ser um bom instrumento de trabalho, desde que usado com regras e de acordo com cada uma das disciplinas. Por exemplo, a professora de Inglês pode usar para fazer pesquisa; a de Matemática para explorar a máquina de calcular”, exemplifica Filinto Lima em conversa com o PÚBLICO. João Trigo não está de acordo e considera que as novas tecnologias devem fazer parte do ensino, mas que o telemóvel “é a pior opção de todas” porque “é a mais difícil de controlar”. “No computador, o professor sabe o que estão a fazer os alunos, estes podem trabalhar em grupo; com o telemóvel, não”, avalia. Além disso, pode ser usado indevidamente, sem que o docente se aperceba, “pondo em causa a privacidade dos colegas e do professor”, alerta. 

“Um dos medos é que a sala de aula passe a estar visível para o exterior, mas a escola devia ser mais aberta”, considera Eduarda Ferreira. O director do colégio de Matosinhos acrescenta que há “professores que acham que conseguem usar o telemóvel de forma controlada, mas os alunos têm sempre forma de ludibriar no uso das tecnologias”. Esse é precisamente o receio de muitos docentes, reconhece Eduarda Ferreira, que critica a resistência à mudança. “A escola tem de lidar com a realidade de que não pode estar isolada do mundo”, defende.

Distracção e dependência

Por seu lado, Júlia Vinhas lembra que o telemóvel pode provocar distracção, além de criar dependência. Os jovens ainda “não têm maturidade suficiente para o usar na sala de aula”, acredita. Assim como os professores não estão preparados — “andam a lutar com a atenção dada ao telemóvel” pelos alunos, acrescenta a psicóloga, que acompanha em consulta crianças e jovens com problemas de dependência das novas tecnologias.

Esta ferramenta é um “desafio que implica que o professor deixe de estar no centro do saber e permite aos jovens ganhar espírito crítico”, defende Eduarda Ferreira, elogiando o novo perfil do aluno, que “pode dar força aos professores para terem práticas diferentes”. A especialista em psicologia da educação reconhece que “existem riscos, mas também oportunidades”. E, por isso, fala em “riscos controlados” — da mesma maneira que a criança aprende a andar na rua, também deve aprender a ligar e a desligar.

A ideia desta conferência surgiu no seio do conselho consultivo do Edulog, de que Isabel Leite, ex-secretária de Estado do Ensino Básico e Secundário do Governo de Passos Coelho, e João Filipe Queiró, da Universidade de Coimbra, fazem parte. Se, por um lado, o telemóvel pode ser “um problema na sala de aula, por outro, também pode ser bem integrado”, acredita Isabel Leite, para quem “há excelentes exemplos” do trabalho em ambiente escolar com estes aparelhos. Estes são “instrumentos poderosíssimos”, reconhece o matemático de Coimbra, que deixa uma “nota pessoal”: “Teria pena de que os alunos usassem o telemóvel [indevidamente] por falta de autoridade da escola.”

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