www.jn.ptPedro Ivo Carvalho * - 15 nov 00:07

A memória e os mortos

A memória e os mortos

O que têm a ver as contas falsas criadas nas redes sociais pelo descompensado Governo das Filipinas para influenciar a opinião pública (um de entre 30 países que, de acordo com um relatório ontem conhecido, recorre a este "exército da opinião") com a soltura de ventre portuguesa motivada por um mal digerido jantar de pomposos empreendedores da Web Summit no Panteão Nacional? Assim à primeira vista, nada. Mas na génese de ambos os fenómenos está, por um lado, a capitulação do poder político perante este poderoso instrumento de contaminação de massas; e, por outro lado, o uso manipulador que lhe é dado por esse mesmo poder político para atingir determinado fim. Cada vez mais as máscaras difusas com que se cobre a realidade são transformadas em verdades absolutas.

Os políticos que tomam decisões baseadas nas derivas caprichosas de uma multidão bipolar que se esconde atrás de um teclado não demonstram agilidade mediática. Demonstram, sim, ausência de pensamento crítico, de discernimento e de coragem. Responder ao eleitorado de forma impulsiva pode funcionar como estratégia imediata de apaziguamento, mas a agenda mediática não devia tolher a capacidade de parar para pensar dos que tomam decisões coletivas. Se o silêncio é, muitas vezes, cúmplice do erro, é-o também, quando inteligentemente empregado, um bálsamo necessário. Só podemos encontrar vantagens em atuar mais de forma racional e menos com a cabeça imersa numa neblina de gostos e partilhas.

Ora, no pode-ou-não-pode-o-Panteão-ser-transformado-num-salão-de-festas-de-Portugal vimos um Governo, e um primeiro-ministro, a sucumbir à tentação repentista: desde 2013 que o monumento que sacraliza a memória de (alguns) cidadãos ilustres é rentabilizado. Já por lá passaram as corujas do Harry Potter, já lá se ornamentaram banquetes de empresas públicas. Portanto, os indignados profissionais de PS, PSD e CDS podem começar a ler jornais com redobrada atenção e poupar-nos a estéreis exercícios de ira. O Governo que cria a regra é tão permissivo quanto o Governo que a tolera. Mas, como em tantas outras irritações de pronto-a-vestir, não houve meio-termo. Atirou-se o bom senso às malvas. Para agradar à turba, decretou-se uma proibição, passando do tudo é possível para o nada é admissível. Porque é indigno vulgarizar a memória dos que partiram, justificou António Costa.

Mas já que andamos todos tão preocupados com a memória dos mortos, que não nos esqueçamos dos mais de 100 que sucumbiram nos fogos florestais no ano de 2017. Que não nos esqueçamos das famílias despedaçadas, dos negócios pulverizados, dos empregos perdidos. Da devastação. Querem mesmo indignar-se? Eis uma boa razão: para onde foram os mais de 12 milhões de euros reunidos pelos portugueses para acudir a essa gente? Isso é que custa a engolir. Não o jantar pós-parto da Web Summit.

* SUBDIRETOR

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