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Museu do Holocausto alerta para “crescentes provas” de genocídio dos Rohingya

Museu do Holocausto alerta para “crescentes provas” de genocídio dos Rohingya

Centro Simon-Skjodt de prevenção do genocídio diz que forças de segurança de Myanmar estão a executar uma campanha de violência “sistemática e sem precedentes” contra a minoria muçulmana

O Museu dos Holocausto nos EUA diz que existem "crescentes provas" de que o povo Rohingya está a ser vítima de genocídio, com base numa investigação do grupo Fortify Rights, uma organização sem fins lucrativos do Sudeste Asiático que passou o último ano a avaliar as denúncias de atrocidades cometidas pelas forças de segurança de Myanmar contra a minoria muçulmana.

No relatório, com base em mais de 200 entrevistas com refugiados e funcionários humanitários, as forças de Myanmar são acusadas de estarem a executar uma campanha de violência "sistemática e sem precedentes" contra esta minoria desde o final de agosto deste ano.

Neste momento, é ainda apontado, quase um milhão de pessoas já foram forçadas a abandonar as suas casas no estado de Rakhine, onde a minoria vive concentrada e reprimida há décadas, e a fugir para o Bangladesh — isto depois de o Exército ter lançado ataques "coordenados" contra aldeias Rohingya, numa campanha que tem envolvido execuções, violações em massa e fogo posto.

"Os crimes detalhados neste relatório apontam para um falhanço do governo de Myanmar e da comunidade internacional em proteger os civis destas atrocidades em massa", lê-se no documento. "Os factos apresentados neste relatório demonstram que as forças de segurança estatais têm atacado o grupo Rohingya através de uma série de atos enumerados na legislação contra genocídio."

Há cerca de dois meses, as Nações Unidas disseram que a autoproclamada "operação de limpeza" do Exército birmanês em Rakhine é um "exemplo de limpeza étnica por definição", sem contudo recorrer à palavra 'genocídio' — um termo legal que obriga a comunidade internacional a intervir sob a chamada Convenção contra o Genocídio.

"As atrocidades que estão a ter lugar [em Myanmar] exigem a mais forte das respostas para travar estes crimes, para impedir futuras atrocidades e para responsabilizar os perpetradores", defende Andrea Gittleman, gestora de programas do Centro Simon-Skjodt de prevenção do genocídio, que está integrado no Museu do Holocausto.

Os Rohingya, acrescenta Matthew Smith, CEO e fundador da Fortify Rights, enfrentam "uma ameaça existencial". Apesar de ainda não ter sido concretamente apurado que esteja em causa o extermínio de um povo inteiro em Myanmar, "é razoável falar de crimes de genocídio e de prevenção do genocídio, particularmente à luz das provas [apresentadas no relatório], que indicam que os Rohingya estão a ser destruídos", explica. "Estamos a assistir a um falhanço moral global. A comunidade internacional falhou aos Rohingya. Passámos anos a alertar para os sinais de atrocidades em massa. As comunidades Rohingya passaram anos a alertar para isto. Podia ter sido prevenido."

Suu Kyi foi recentemente a Rakhine mas não visitou aldeias Rohingya

Suu Kyi foi recentemente a Rakhine mas não visitou aldeias Rohingya

Andre Malerba

Desde o final do ano passado, cerca de um milhão de Rohingya foram forçados a fugir de Myanmar para o Bangladesh, após a entrada em jogo de um grupo de insurgentes autoproclamado Exército Arakan de Salvação Rohingya (Arsa). Arakan era o antigo nome do estado de Rakhine. A situação piorou no final de agosto, após o Arsa ter lançado ataques coordenados contra as forças de segurança birmanesas.

O relatório patrocinado pelo Museu do Holocausto aponta que "o grande destacamento de tropas" para o estado de Rakhine na sequência dos ataques, "bem como o uso de RPGs [Lança granadas-foguete]" pelas forças de segurança, demonstram que houve "um plano detalhado de coordenação e uma alocação estratégica de significativos recursos financeiros e armas".

No documento, a Fortify Rights e o Centro Simon-Skjodt citam provas de crimes contra a humanidade em três aldeias específicas, entre elas Tula Toli — onde os soldados terão executado centenas de Rohingya, incluindo crianças, numa das margens do rio Naf, pegando fogo aos corpos para ocultar as provas.

Apesar das restrições de acesso a Rakhine impostas pelas autoridades, correspondentes do "The Guardian", da BBC e de outros meios conseguiram apurar provas semelhantes nos últimos meses, que vieram juntar-se aos recorrentes avisos de organizações não governamentais como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch.

O Exército de Myanmar continua a rejeitar as acusações, tendo publicado no início desta semana os resultados de uma investigação interna em que as próprias forças armadas se inocentam de qualquer crime. No ano passado, um inquérito semelhante já tinha resultado nas mesmas conclusões.

O governo civil liderado pela Nobel da Paz Aung San Suu Kyi também rejeita as acusações. A líder de facto do país, cujo partido venceu há um ano as primeiras eleições totalmente livres de Myanmar em décadas, continua a partilhar importantes ministérios com as forças armadas, as mesmas que mantiveram os birmaneses a viver em ditadura militar durante mais de meio século.

Nos últimos meses, várias personalidades mundiais, incluindo os laureados Nobel Desmond Tutu e Malala Yousafzai, foram juntando as suas vozes à condenação internacional, tecendo críticas a Suu Kyi por nada fazer para travar o massacre dos Rohingya.

Esta quarta-feira, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, vai reunir-se em Myanmar com as chefias militares do país para tentar amainar a crise. Contudo, a Fortify Rights e o Museu do Holocausto sublinham que, face às provas recolhidas, a comunidade internacional deve reforçar as sanções aos comandantes e impor um embargo de armas ao país. As duas instituições também pediram esta terça-feira ao Conselho de Segurança da ONU que refira a situação ao Tribunal Penal Internacional.

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