tribunaexpresso.pttribunaexpresso.pt - 15 nov 11:25

Cuspidelas na cara, tareias de cinto, pontapés na cabeça até fazer sangue. Jelena Dokic passou por tudo isto até fugir do pai

Cuspidelas na cara, tareias de cinto, pontapés na cabeça até fazer sangue. Jelena Dokic passou por tudo isto até fugir do pai

Numa biografia lançada esta semana, a antiga tenista australiana, que apareceu de rompante aos 16 anos após uma vitória frente à n.º 1 mundial Martina Hingis em 1999, relata os anos e anos de maus-tratos físicos e psicológicos infligidos pelo pai e treinador Damir. Assume ainda que chegou a pensar no suicídio até decidir pegar numa mala de roupa e desaparecer. Mas Dokic está longe de ser a única tenista a sofrer às mãos de um pai abusivo

Em 2000, na reta final do torneio de Wimbledon, um árbitro chegou já de madrugada à sala dos jogadores. Num sofá encontrou uma miúda de 17 anos a dormir, enrolada em si mesma. A miúda, chamada Jelena Dokic, não era uma indigente. Antes pelo contrário: Dokic tinha ‘só’ acabado de falhar o acesso à final do torneio feminino, ao perder com a então número 2 mundial, Lindsay Davenport.

A derrota frente à detentora do título tinha deixado o pai e treinador de Jelena, Damir Dokic, em fúria. A reação foi avassaladora: proibiu a filha de regressar ao hotel onde se instalara com a família, sob o pretexto dela o ter envergonhado. Ela, que tinha quase chegado a uma final de um torneio do Grand Slam. Ela, que no ano anterior, com apenas 16 anos, tinha entrado de rompante na história do torneio londrino, ao eliminar na 1.ª ronda a então n.º 1 mundial, a suíça Martina Hingis, por retumbantes 6-2 e 6-0, antes de chegar aos quartos-de-final.

Mas, por incrível que pareça, isto não foi o pior que Damir fez à filha, hoje com 34 anos e que depois de décadas de silêncio, de sofrimento a contas com depressões e tentativas falhadas de confirmar o enorme potencial, descreveu na sua autobiografia, à qual deu o nome de “Unbreakable”, os abusos e violência física e psicológica que sofreu desde criança.

“Ele batia-me de forma horrível. Basicamente começou desde o primeiro dia em que comecei a jogar ténis. E continuou a partir daí. Tornou-se numa espiral incontrolável”, revelou a tenista ao jornal australiano “The Daily Telegraph”. Nascida na Croácia, Dokic emigrou para a Austrália aos 11 anos com a família, para fugir à Guerra dos Balcãs.

No livro, Dokic afirma que o pai lhe puxava o cabelo e as orelhas, cuspia-lhe na cara e insultava-a constantemente. E que a cada treino menos conseguido, derrota numa partida ou simplesmente por o pai estar mal disposto, havia uma sessão de chicotadas nas costas com um cinto de pele ou de pontapés nas canelas até Jelena sangrar.

Dokic com 16 anos, no dia em que eliminou a então n.º 1 mundial Martina Hingis em Wimbledon

Dokic com 16 anos, no dia em que eliminou a então n.º 1 mundial Martina Hingis em Wimbledon

Gary M. Prior/Allsport/Getty

Pouco tempo depois de deixar a filha ao relento em Londres, aconteceu aquele que Dokic recorda como o episódio mais violento que sofreu às mãos do pai. Depois de uma derrota precoce num torneio no Canadá, Damir obrigou a filha a ficar horas de pé, sem comer. Depois espancou-a e quando a Jelena ficou no chão, antes de perder os sentidos, ainda lhe pontapeou a cabeça.

Ao “The Daily Telegraph”, Dokic disse ainda que era normal ser chamada de “vaca e puta” quando ainda era uma criança. “Nem é tanto a dor física que me afligia, mas sim a dor emocional. Isso era o que me doía mais. Quando tens 11, 12 anos e ouves esse tipo de palavras feias… era muito difícil”, revelou à publicação, em vésperas do lançamento do livro.

Dokic, que assume que pensou no suicídio, lamenta ainda ter sido obrigada a deixar de competir pela Austrália, uma exigência do pai, que posteriormente atacou a organização do Open da Austrália, acusando-a de “corrupta” após um sorteio menos favorável para a filha na edição de 2001. “Alguns anos depois voltei a jogar pela Austrália, mas o estrago estava feito”, frisou ainda a atleta.

O jugo do pai acabou aos 19 anos, quando Dokic fugiu de casa apenas com “um saco de raquetes e uma mala com roupa” e foi viver para o Mónaco com o namorado da altura, o piloto de Fórmula 1 brasileiro Enrique Bernoldi.

Damir Dokic é acusado pela filha de abusos físicos e psicológicos

Damir Dokic é acusado pela filha de abusos físicos e psicológicos

Ross Kinnaird/ALLSPORT/Getty

“Não tinha dinheiro, não tinha um cartão de crédito. Meses antes tinha colocado todo o meu património em nome do meu pai”, revelou. Aliás, a ex-tenista acredita que o pai sempre pensou mais no dinheiro do que no seu bem-estar. “Sentia-me uma máquina de multibanco. E por muito bem que eu jogasse, para ele nunca ganhava o suficiente”.

Problemas atrás de problemas

Numa entrevista dada ao “The Guardian” em 2003, Jelena Dokic, já longe dos pais, fugia sempre às questões sobre o comportamento do pai. Desde o início da carreira da australiana que Damir causava problemas por onde passava. Alto, grande, uma barba enorme, este auto-intitulado veterano da Guerra dos Balcãs tinha um ar intimidatório, do qual fazia uso.

Em 1999, ano em que a filha despontou em Wimbledon, Damir havia sido preso durante o torneio de Birmingham depois de se deitar no meio de uma estrada. No ano seguinte, envolveu-se numa cena de violência com uma equipa de filmagem no Open da Austrália e em Wimbledon partiu o telemóvel a um jornalista. Intercetado pela polícia, sacou de um cartão de crédito e ofereceu-se para pagar. Mas os problemas não acabaram aí: meses mais tarde, foi expulso do US Open após um acesso de fúria devido ao preço de um prato de salmão no restaurante dos jogadores. Após este último episódio, a WTA baniu-o de qualquer torneio durante seis meses.

Damir era ainda conhecido por beber copos atrás de copos de vinho branco antes dos jogos da filha, tornando-se inconveniente para Jelena e para as suas rivais. Em 2009, depois da filha falar pela primeira vez do comportamento violento do pai, este ameaçou o embaixador australiano na Sérvia de o rebentar com uma granada de mão. Acabou preso durante 12 meses, por comportamento violento e posse ilegal de armas, apesar de afirmar que tudo não tinha passado de “uma brincadeira” e que as granadas encontradas em sua casa não eram mais do que uma “recordação dos tempos de guerra, na Croácia”.

Damir, ladeado do filho mais novo, Savo, e da mulher, Liliana

Damir, ladeado do filho mais novo, Savo, e da mulher, Liliana

MARTIN HAYHOW/Getty

Por estes dias, Damir vive numa quinta na Sérvia, construída com os ganhos da filha. E Jelena diz que, apesar de tudo, não odeia o pai, até porque foi ele que lhe apresentou o ténis. Recentemente visitou-o numa tentativa de normalizar as relações, mas nem tudo correu bem: “Acho que ele não percebe a magnitude das coisas que fez. Nem sequer se responsabilizou. E é difícil encontrar um meio termo com ele, porque ou é à maneira dele ou nada”.

Quanto à carreira de Dokic, tornou-se uma espécie de montanha-russa: as feridas do sofrimento infligido pelo pai acabaram por minar o seu desenvolvimento e os grandes resultados do final do século XX e início dos anos 2000 deixaram de aparecer. Número quatro do ranking em 2002, entre 2003 e 2008 praticamente desapareceu do radar. “Ameaçou” um regresso à glória em 2009, quando chegou aos quartos-de-final do Open da Austrália, mas uma série de problemas de saúde e lesões nunca permitiram que voltasse aos grandes momentos.

Deixou o ténis em 2014 e tem trabalhado como comentadora e treinadora na federação australiana. E apesar de nos últimos anos ter lutado contra uma doença na tiróide, Dokic admite que pensa num regresso, para deixar os courts nos seus termos, de consciência tranquila e mente limpa, agora que confessou ao mundo tudo o que passou durante a sua carreira.

“Passei muitos anos deprimida por causa disto, mas não vou viver o resto da minha vida assim”, sublinhou.

Ténis, um desporto de mad dads

Jelena Dokic está longe de ser a única vítima de um pai abusivo no mundo do ténis. Nesse tal torneio de Wimbledon de 1999, houve outra jovem estrela a despontar, que rapidamente também desapareceu.

A croata Mirjana Lucic tinha 17 anos quando chegou às meias-finais da prova. Pouco tempo antes havia fugido para os Estados Unidos com a mãe e os irmãos, para escapar ao pai e treinador Marinko, um tirano que maltratava física e psicologicamente a família. Quando Mirjana tinha apenas 5 anos, Marinko partiu-lhe o nariz depois de uma derrota num torneio frente a uma adversária com 10 anos. “Fiquei em choque. Mas depois daquele episódio passou a ser sempre assim”, disse a tenista ao “New York Daily News”, onde revelou que o pai lhe batia com sapatos nas costas e na cabeça, para que as marcas não fossem visíveis.

Mirjana Lucic chegou este ano às meias-finais de Wimbledon, 18 anos depois da sua última semi-final em torneios do Grand Slam

Mirjana Lucic chegou este ano às meias-finais de Wimbledon, 18 anos depois da sua última semi-final em torneios do Grand Slam

Clive Brunskill/Getty

Em 1998, depois do pai ameaçar a mãe de Mirjana de morte, a família fugiu para os Estados Unidos, sem a quase totalidade dos ganhos de Mirjana, que nos anos seguintes mal conseguiu competir por não ter dinheiro para viajar para os torneios e por não querer competir na Europa, com medo que o pai a perseguisse. Parou de jogar em 2004, numa altura em que lidava ainda com stress pós-traumático.

Mirjana Lucic regressou ao ténis em 2007 e, já este ano, com 34 anos, chegou às meias-finais do Open da Austrália.

Antes de se tornar vencedora do Open australiano e de Roland Garros, a francesa Mary Pierce sofreu às mãos do pai, Jim Pierce. “Batia-me se perdia jogos ou se tivesse um treino menos bom”, revelou a tenista, já retirada.

Outro dos casos paradigmáticos é o de Jennifer Capriati, que aos 13 anos já jogava e enriquecia os bolsos do pai, Stefano, acusado de tratar a filha como um pedaço de mercadoria. Pouco tempo depois de se tornar campeã olímpica aos 16 anos (Barcelona 92), Capriati disse adeus ao ténis e foi viver a juventude, o que incluiu problemas com a justiça devido a posse de drogas. Acabaria por voltar a jogar e tornou-se mesmo n.º 1 mundial em 2001.

Peter Graf, pai de Steffi Graf, apelidado na Alemanha como “Papá sem compaixão” devido aos seus métodos autoritários, era conhecido por insultar árbitros e oficiais, e por manipular a ordem de jogos dos torneios para favorecer a filha. Depois de se apoderar de muitos dos ganhos da filha, acabou preso, por fuga aos impostos. Steffi Graf, que chegou a assumir que o pai era viciado em álcool e medicamentos, só voltou a falar com Peter poucos dias antes da morte deste, em 2013.

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