observador.ptPaulo de Almeida Sande - 14 nov 07:26

Chamem a polícia…

Chamem a polícia…

Usam-se as bandeiras da indignação e mobilizam-se os exércitos dos que, em rebanho, se juntam aos defensores da causa, seja ela qual for. Há uma expressão para isso e é “mais papista do que o Papa”.

O que têm a agressão a polícias, festas em monumentos nacionais e a independência da Catalunha a ver entre si? Em todos reina a confusão entre o politicamente correcto e o simplesmente correcto, ser de esquerda, de direita ou não ser de coisa nenhuma e uma mentalidade de manada em constante crescimento.

Comecemos pela polícia. Polícias são agredidos. Mais de 300 este ano. Se usarem uma arma para se defender e ferirem agressores desarmados, serão acusados, julgados e condenados. Força excessiva, uso desnecessário de arma de fogo, diz a lei e está correcto (não apenas politicamente). Mas um polícia agredido com a brutalidade a que temos assistido regularmente nas redes sociais, e não apenas contra polícias, defende-se como? Não é politicamente correcto defender a polícia, parece – mas é fundamental.

Dizem-me que um polícia tem obrigação de se saber defender. E se os agressores forem especialistas de artes marciais ou atacarem em bando? Não se defender pode significar a morte, por exemplo com os pontapés na cabeça que certas criaturas dão nas suas vítimas; o que faz? Também ele conhece o estigma do politicamente correcto e sabe que defender polícias – ou polícias defenderem-se – não o é.

Entenda-se bem, antes de me acusarem de perigosos desvios fascizantes: não defendo o uso indiscriminado das armas pelos polícias. Mas não sei sequer se as armas que têm são adequadas à profissão que exercem. Nem sei se os tribunais são benévolos com os agressores ou se um polícia que fique inválido, tem o apoio que merece para si e a sua família. Sei que não é fácil ser polícia nos tempos que correm: são mal pagos, mal vistos e correm risco de vida.

Não sei mais nada. Mas o politicamente correcto não me impede de considerar que os polícias se devem poder defender; estar bem preparados; ter armas adequadas; que os tribunais devem aplicar penas severas aos agressores; e que os polícias agredidos têm de ser devidamente apoiados, em caso de doença ou invalidez. Os polícias, como os juízes, são o Estado a agir, somos todos nós, agredi-los devia ser punido com severidade.

Emergiu nos últimos anos um tribunal novo, que após um rápido julgamento leva ao pelourinho da opinião pública os “politicamente incorrectos”. Talvez por isso quase ninguém chama “os bois pelos nomes”. Se os polícias são culpados de comportamento errado ou criminoso, que sejam castigados e severamente, pois o Estado não pode abusar da força de que detém o monopólio – e os polícias são seus agentes. Mas isso não deve levar-nos a aceitar pacificamente agressões a polícias, ou a só reagir quando vemos imagens delas.

Se é politicamente incorrecto dizer que os polícias devem poder defender-se e os tribunais julgar severamente os agressores, então sou politicamente incorrecto. Ainda mais se, como suspeito, a mera sugestão desta discussão me etiquete o mesmo labéu.

O uso do Panteão Nacional para um jantar celebrativo, não sendo caso único, é errado. Mas fazer disso um assunto de Estado é disparate. E o espectáculo do passa-culpas, lamentável: “a culpa é do teu decreto, não, a culpa é tua que autorizaste, não, a culpa é tua que governaste, não, a culpa é do Passos Manuel que mandou edificar um Panteão Nacional”. A razão de tanto afã acusatório, suspeito, é o pavor do politicamente incorrecto.

A constante radicalização de toda e qualquer polémica, faz com que esquerda e direita, partidos políticos e opinião pública se batam pelo exclusivo do politicamente correcto: e usam-se as bandeiras da indignação e mobilizam-se os exércitos dos que, em rebanho, se juntam aos defensores da causa, seja ela qual for. Há uma expressão para isso e é “mais papista do que o Papa”. O maniqueísmo é rei, o Estado da confusão o seu reino.l

Uma lei diz que se pode jantar nos Monumentos Nacionais: foi aprovada pelo governo, feita promulgar pelo Presidente da República. Já houve festas em vários monumentos. Imagens de um jantar causaram indignação e foi ver quem a gritava mais alto? Pois mude-se a lei, como parece que se vai mudar, e esqueça-se a polémica, uma perda de tempo em mais uma batalha pelo direito à titularidade do politicamente correcto.

Resta a Catalunha. Dos dois lados do conflito há portugueses, alinhados ora com os independentistas, ora com o Estado espanhol. O meio-termo não é politicamente correcto. Só um dos lados, parece, pode ter razão. Certo? Errado. Se uns e outros a reivindicam e não podem ter ambos razão apesar de ambos terem boas razões, então é porque ela está noutro lado e tem mais juízo do que as querelas ideológicas que ganham vida própria na Internet.

Nas suas mais longínquas origens, antes da apropriação por movimentos ideológicos mais ou menos radicais – com a extrema-esquerda a assumir grande protagonismo -, o politicamente correcto consistia na generalização da boa-educação e do uso de uma linguagem que não fosse ofensiva para os outros. Tornou-se, com a apropriação ideológica, numa espécie de polícia dos costumes, que dita o que pode ou não ser dito, pensado ou feito, obrigando os indivíduos a abdicar da sua individualidade e a comportar-se como peças vivas, mais ou menos robotizadas, de um rebanho de seguidores acéfalos mas vocais, pelo menos nas redes sociais.

Hoje toda a gente mede bem as palavras. Ninguém usa certos termos, dantes populares, com medo de ser acusado de racismo, sexismo, conservadorismo, e outros ismos perigosos. Nos EUA há listas de palavras proibidas: em 2012, o Departamento de Educação propôs banir 50 palavras dos testes vocacionais, casos de álcool, morte, sem abrigo, desemprego, pornografia, escravatura, sexo – podem “influenciar ou traumatizar as criancinhas”. Falar abertamente de tabus, sexuais, culturais ou políticos, pode ser um risco: a obsessão do politicamente correcto chega a criticar factos do passado, às vezes até do longínquo, com base em conceitos, valores e regras da actualidade. Não escapa ninguém, do “tarado sexual” John Kennedy ao “bêbado” Churchill ao “esclavagista” Padre António Vieira.

Em vez de querer ser mais politicamente correcta do que a extrema-esquerda, a direita portuguesa devia reivindicar o correcto. O que deve ser feito, não fere os outros injusta ou injustificadamente e respeita valores, princípios e regras, morais, éticas e legais.

Mas a gritaria contra tudo e qualquer coisa, a omnipresença da polícia do espírito e da linguagem, a equiparação entre uma frase de mau gosto e um criminoso verdadeiro, faz da frase de mau gosto um crime e do criminoso um caso de mau gosto.

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