www.jn.ptAntónio José Gouveia * - 14 nov 00:07

Indignação em câmara lenta

Indignação em câmara lenta

O Panteão Nacional está a ser utilizado para jantares e eventos há mais de uma década. No próprio site da instituição dá para perceber que alugar o Panteão está perfeitamente estabelecido e com preços bem visíveis. E só agora, porque houve uma Web Summit e alguém resolveu espalhar o assunto nas redes sociais, é que há indignação? Mesmo do próprio primeiro-ministro?

Infelizmente neste país, a indignação é lenta, muito lenta, seja após dezenas de jantares no Panteão Nacional, exposições de carros elétricos no Museu dos Coches ou autorização de uma grua para vestir o Marquês de Pombal com uma camisola do Benfica.

Será que a indignação demonstrada por António Costa primeiro-ministro é a mesma que António Costa presidente da Câmara de Lisboa e presidente da Associação de Turismo de Lisboa (ATL)? O diretor-geral da ATL já tentou ilibar o primeiro-ministro ao dizer que não foi consultado e não teve conhecimento de um jantar em 2013 no Panteão. Não foi só António Costa que descobriu a indignação e a falta de respeito pelos heróis nacionais. Todos aqueles que aprovaram as várias jantaradas ao longo de anos são responsáveis.

O famoso jantar no Panteão não é assunto de política grande e muito menos de grande política. Foi um episódio infeliz em que os atores, à boleia da pressão das redes sociais, desataram a pronunciar-se sobre um tema que tem tudo para acabar em dias até à próxima escandaleira provocada no digital.

Parece-me que a lei aprovada por Passos Coelho, de aproveitar os espaços dos monumentos para rentabilização das instituições, faz todo o sentido. Principalmente quando o Orçamento do Estado não estica e as receitas daí provenientes ajudam a cuidar melhor aquilo que é de todos os portugueses. Mas, como em qualquer situação, existe o bom senso. E neste caso, bastava cumprir a lei.

Não pode agora o ministro da Cultura prometer revogar uma legislação que tem os seus méritos. Ou seja, à boleia de uma asneira corre-se o risco de apagar uma lei que permite o financiamento da conservação do património nacional.

Mais, não pode o Governo atirar as culpas para Passos Coelho. O aluguer do espaço foi aprovado em 2017, o jantar foi em novembro de 2017. A lei diz que a última palavra é da Direção- -Geral do Património Cultural. Tem plenos poderes para impedir qualquer evento desde que colida com a dignidade do monumento. Onde está a dúvida?

* EDITOR-EXECUTIVO

1
1