www.dn.ptKent Harrington - 14 nov 00:00

Opinião - Como ficaram os americanos vulneráveis à desinformação russa

Opinião - Como ficaram os americanos vulneráveis à desinformação russa

Enquanto os Estados Unidos assinalam o primeiro aniversário da eleição do presidente Donald Trump, a questão de como Trump ganhou ainda suscita atenção, com o papel da Rússia a ter cada vez mais protagonismo. Cada nova revelação na investigação da intromissão da Rússia na campanha de 2016 deixa a vulnerabilidade do processo democrático dos EUA cada vez mais a descoberto.

Recentemente, o Congresso anunciou uma legislação que obrigará o Facebook, a Google e outros gigantes das redes sociais a divulgar quem compra publicidade online, colmatando assim uma lacuna que a Rússia explorou durante as eleições. Mas as correções técnicas e as promessas públicas de melhor conduta empresarial resolverão apenas o problema mais divulgado.

O desafio mais difícil será fortalecer as instituições que são vitais para o funcionamento da democracia, especificamente a educação c��vica e o jornalismo local. Enquanto não houver avanços nessas áreas, a ameaça ao processo democrático dos Estados Unidos crescerá, ressurgindo cada vez que o país for a votos.

Os agentes dos serviços de informação do presidente russo Vladimir Putin souberam montar muito bem o seu ataque nas redes sociais. O Facebook alberga quase 80% de todo o tráfego das redes sociais móveis, enquanto a Google representa cerca de 90% de toda a publicidade relacionada com a pesquisa online. Ao inundar essas duas plataformas com mensagens automatizadas de dezenas de milhares de contas de utilizadores falsos, a Rússia conseguiu atiçar a discórdia nas áreas económica, racial e política.

Além do mais, fizeram-no de forma barata. De acordo com uma análise, apenas com pequenas compras de anúncios no Facebook, os agentes russos obtiveram acesso a uma mina de ouro de dados de publicidade online - como o software de segmentação de clientes do Facebook -, o que permitiu a "partilha" de notícias falsas da Rússia centenas de milhões de vezes. A certo momento, durante este assalto clandestino, cerca de 400 000 bots - aplicações de software que executam scripts automatizados - enviaram milhões de mensagens políticas fictícias, que por sua vez geraram cerca de 20% de todo o tráfego do Twitter durante o último mês da campanha.

Já é suficientemente mau que os maiores nomes do mundo da tecnologia não estivessem preparados para evitar a intromissão estrangeira na eleição mais importante dos Estados Unidos. Mas a persistente negação de responsabilidades por parte dos gigantes das redes sociais pelo volume de informações distorcidas e falsas disponibilizadas como notícias, mesmo quando o papel da Rússia se tornou mais claro, é mais preocupante.

Se descartarmos o jargão tecnológico sobre melhores algoritmos, mais transparência e compromisso com a verdade, vemos que as "correções" de Silicon Valley tentam iludir um simples facto: as suas tecnologias não são projetadas para separar o verdadeiro do falso, verificar o rigor ou corrigir erros. Na verdade, é o contrário: elas são criadas para maximizar cliques, partilhas e "gostos".

Os gigantes das redes sociais querem-se substituir aos meios tradicionais como plataformas de informação do mundo, mas parece não lhes interessar os valores, os processos e os objetivos fundamentais do jornalismo. É a essa irresponsabilidade que os copatrocinadores do recente projeto-lei de transparência da publicidade procuram apontar.

Ainda assim, o sucesso da Rússia no ataque aos eleitores americanos com notícias falsas não poderia ter sido bem-sucedido se não fosse o segundo problema: um eleitorado pouco educado e suscetível à manipulação. A erosão da educação cívica nas escolas, o encerramento dos jornais locais - e o consequente declínio da compreensão pública das questões e do processo político - conspiram para criar um terreno fértil para a implantação da desinformação.

Vejamos a prova: em 2005, uma pesquisa da Ordem dos Advogados dos EUA descobriu que 50% dos americanos não conseguiam identificar corretamente os três ramos do governo do país. Quando o Centro Annenberg para Políticas Públicas fez a mesma pergunta em 2015, a percentagem desses entrevistados cresceu para dois terços, e uns assombrosos 32% não conseguiam nomear um único ramo. Esta queda parece depender da idade. Um estudo de 2016 feito com americanos com diplomas universitários descobriu que aqueles com mais de 65 anos sabem muito mais sobre o funcionamento do governo do que os menores de 34 anos.

Existe uma clara correlação entre o analfabetismo democrático e um desinvestimento na educação cívica, governamental e educacional nas escolas. Em 2006, por exemplo, um estudo nacional que avalia o desempenho dos alunos em vários assuntos descobriu que apenas um quarto dos alunos do 12.º ano eram proficientes em educação cívica. Uma década depois, essa percentagem tinha caído para menos de 25%.

Previsivelmente, a qualidade educacional geral e o acesso aos cursos básicos de educação cívica também sofreram nos últimos anos. Em 2011, um grupo de reflexão que classifica os 50 estados relativamente ao rigor dos cursos de história dos EUA das escolas secundárias deu notas negativas a 28 estados. Uma pesquisa de 2016 em mil faculdades de humanidades descobriu que apenas 18% exigiam uma cadeira de História ou Governação dos EUA para obter um diploma.

Os cursos de ensino secundário ou universitário por si só não evitarão que os eleitores crédulos se deixem enganar por notícias falsas ou desinformação inflamatória. Mas a propagação viral de notícias falsas iniciada por agentes russos deixou uma coisa clara: um eleitorado que não possua uma educação cívica básica tem mais probabilidades de cair em provocações destinadas a inflamar tensões partidárias.

As mudanças no setor da informação estão a aumentar esse risco. À medida que os gigantes da internet vão retirando as receitas publicitárias aos meios de comunicação tradicionais, as redes sociais vão-se tornando a principal fonte de notícias de muita gente. As organizações noticiosas tradicionais, especialmente os jornais locais, estão a desaparecer a um ritmo constante, reduzindo o acesso dos eleitores a informações que são vitais para tomar decisões políticas informadas.

Os números são impressionantes. Desde 2004, 10% de todos os jornais de pequena tiragem fecharam ou fundiram-se. Dos que sobrevivem, mais de um terço mudaram de proprietário, concentrando a indústria em menos mãos. O resultado foi despedimentos, cortes de custos e menos informação sobre questões nacionais e locais.

Também a responsabilidade cívica dos meios de comunicação parece ter-se deteriorado. O manual de gestão de um fundo de investimentos que possui três diários e 42 jornais semanários não tem papas na língua: "O nosso cliente é o anunciante", afirma o documento. "Os leitores são os clientes dos nossos clientes", portanto "nós trabalhamos com uma equipa de redação reduzida".

A intervenção da Rússia nas eleições presidenciais dos EUA de 2016 foi histórica, mas também foi sintomática de desafios maiores que os americanos enfrentam. Uma população que não compreende completamente a sua própria democracia deve preocupar não apenas os professores de educação cívica, mas também os especialistas em segurança nacional. Os EUA não precisaram de Putin para lhes dar essa lição. "Se uma nação espera ser simultaneamente ignorante e livre, espera o que nunca foi nem nunca será", alertou Thomas Jefferson.

Kent Harrington foi analista sénior e diretor de assuntos públicos da CIA e diretor nacional de Informação para a Ásia Oriental e chefe da Delegação na Ásia

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