observador.ptTelmo Faria - 13 out 07:25

A política voltou

A política voltou

Ao demorar tanto tempo a definir quando vinha e ao que vinha Rui Rio apresentou-se à defesa, justificando indecisões. Na vontade em agradar a apoios internos joga afinal como os que sempre criticou.

Outubro de 2013 marcou uma das mais importantes rupturas políticas do nosso regime. Para alguns foram 30 anos ou mais, para mim foram 12 anos de presidência da Câmara Municipal de Óbidos. A lei que veio limitar os mandatos foi feita a pensar nos “dinossauros“ das autarquias, e fez de mim o mais jovem “dinossauro” do PSD. Aos 41 anos já não podia me recandidatar no meu concelho. Em vez de regressar à investigação na Universidade Nova e ao ensino superior decidi apostar numa vida empresarial e concretizar no terreno muito da agenda que mais me entusiasmou enquanto autarca: a economia criativa e de baixo carbono, desta vez aplicadas ao turismo. Essa agenda exige um militante espírito de inovação e uma leitura dos tempos que implica risco e percepção dos sinais globais que são cada vez mais rápidos e múltiplos. Agradeci à lei que quis fazer uma ruptura geracional no poder local e que abriu a gestão de muitas cidades a novos interlocutores. Hoje, com a recente derrota da esmagadora maioria dos ex-presidentes (Isaltino foi a excepção), acho que ninguém se atreve a querer recuar.

A recusa de não perceber a necessidade de uma certa ruptura geracional deixa antever problemas na leitura dos sinais globais num país cuja velocidade de crescer tem que ser maior e mais rápida. Os próximos anos serão a maior oportunidade política para trocar a obsessão pelo défice por uma obsessão de novo tipo: a do crescimento da riqueza.

Não compreendo os líderes que apostam numa narrativa de prioridades de investimento público sem explicarem primeiro como podemos crescer. Sem crescimento, não podemos distribuir e implementar um modelo de escola pública assente na liberdade educativa das comunidades; não conseguimos exponenciar serviços de saúde mais humanizados e políticas de prevenção; não podemos ambicionar uma justiça com mais meios para que possa ser mais rápida e eficaz; sem crescimento, deixamos o novo cancro do regime que é a burocracia paralisante avançar e matamos a coesão social. Sem crescimento, o Estado continuará a ser apedrejado, apoucado, criticado e a permitir o surgimento de discursos ora liberais-radicais ora ético-moralistas onde se profetiza um novo paradigma de regime e a necessidade de uma ruptura com o sistema como nos ecoa agora as palavras de Rio.

Ao demorar tanto tempo a definir quando vinha e ao que vinha Rui Rio apresentou-se à defesa, justificando sobretudo as indecisões no seu passado e mostrando receio em assumir um discurso geracional de onde podem emanar as políticas de mudança e de crescimento. Na vontade em agradar a apoios internos joga afinal como aqueles que sempre criticou.

Durante anos quis de algum modo “pôr-se de fora” do PSD e privilegiou a clássica opção de um caminho de neo-sebastianismo regenerador e salvífico, distante e assente numa ideia de superioridade intelectual sobre os outros políticos. Detentor, sem dúvida, de um foco apurado sobre a economia construiu um perfil social menos amplo, mais técnico, mas onde vamos assistindo à falta de um verdadeiro instinto político.

Mais do que superar uma crise de liderança, o PSD não pode investir agora num perfil de “saneador das contas públicas”, nem pode continuar a arrumar a casa, fazer o trabalho difícil e depois não ter sucesso político-eleitoral. À ideia vencedora de que os portugueses foram castigados deveria ter vingado antes a ideia de que os portugueses saíram a ganhar, ficaram mais fortes, pois à navegação tumultuosa seguir-se-ia a bonança de águas mais calmas que permitiriam o crescimento e a recuperação. Na curada ressaca de entrega deste portfolio a uma geringonça parlamentar devemos pensar que a força futura do PSD está na sua capacidade de saber fazer política com eficácia eleitoral, com um líder forte e admirado pelos portugueses pela sua coragem.

Não houve um teste marcado, nem planeamento algum, mas Pedro Santana Lopes mostrou, em apenas uma semana, uma capacidade admirável de nos mostrar como se reage em tempo de crise. Foi um verdadeiro manual prático de como um político eficaz deve fazer política: primeiro pôs o país a pensar no que o país não previa; depois ouviu de norte a sul, preferiu militantes a barões e acabou a falar com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. No dia seguinte, de surpresa, e sem regras pré-estabelecidas, anunciou, em prime time, a seguir ao apuramento de Portugal, e primeiro que qualquer outro, a sua candidatura. Em vez de anunciar que era de esquerda ou de direita, apostou na abertura a novas gerações pois sem elas sabe que não conseguirá fazer o caminho da mudança e do crescimento que Portugal pode alcançar. O seu talento político faz-me acreditar que a política, no sentido nobre de saber construir políticas públicas inovadoras e com coragem, voltou.

Acredito por isso num discurso mobilizador assente na ideia da esperança e não no medo. Precisamos de um líder reconhecido e com prestígio nos sectores sociais e na cultura, que tenha uma visão cosmopolita, que saiba potenciar o talent magnet que Portugal tem. Só Pedro Santana Lopes tem o carisma suficiente para o conseguir.

Ex-presidente da Câmara Municipal de Óbidos

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